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A imprensa brasileira faz apenas metade da história.


 

Informação: Direto da Redação - 20/11/2005

Luís Peazê

Notícias sobre escândalos na política, tiroteio entre polícia e traficantes, um plebiscito casuístico e a habilidade espantosa de Ronaldinho Gaúcho, o maior jogador de futebol do mundo depois de Pelé, formarão nos arquivos da imprensa nacional apenas metade da história do país.

As manchetes de abertura dos jornais poderiam documentar a história completa, mas não documentam. Poderiam influenciar a outra metade, mas desperdiçam esta chance. E quem perde mais são os leitores, eventualmente consumidores, contribuintes, cidadãos que de um modo indireto são parte do poder que dá a concessão a rádios e TVs, e garantem a existência dos jornais impressos pela coexistência que demanda a liberdade de expressão. Pois, sem audiência e sem leitores os jornais não existiriam.

Um rápido giro pelas “não notícias” demonstra essa pobreza de registros históricos, um desejo que dormita no íntimo de cada jornalista idealista. Somente dos idealistas.

Por exemplo: nesta segunda-feira 21 de novembro será lançada a pedra fundamental do Pólo Sul da Amazônia Azul e a notícia estará perdida em pouco mais de cinco linhas no interior poluído dos jornais, e na escalada nervosa dos telejornais, se pelo menos isso acontecer.

Trata-se do início da construção do Cidec/Sul - Centro Integrado de Desenvolvimento Costeiro e Oceânico na Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Pelo nome dá para perceber a complexidade e importância do negócio, e uma das atrações que podem despertar interesse do grande público é o lançamento do Oceanário Brasil, um complexo integrando museu e aquário de grandes dimensões, como os existentes em várias partes do mundo – especialmente na Europa e nos Estados Unidos, país que possui o maior número de oceanários do mundo. Uma recriação da atmosfera dos oceanos, para mostrar a visitantes como é o fundo do mar, com suas diversificadas fauna e flora. Os mais famosos oceanários do mundo têm tanques com grandes animais marinhos, como golfinhos e botos, e acabam sendo grandes atrações turísticas.

Não é por acaso que os Estados Unidos possuem as duas Forças Marítimas maiores do mundo. A Marinha de Guerra americana e a sua Guarda Costeira que, sozinha, ganha em poder de fogo, aparelhamento e contingente da Marinha de Guerra da Inglaterra e da Rússia. O Brasil não possui guarda costeira e a minha Marinha (quem quiser que se aproprie também, fará bem) por mais charmosa e elegante, mais útil e exemplar, vive à míngua. E não é só por causa do revanchismo ainda persistente desde os tempos dos governos militares, é por miopia mesmo dos governantes, políticos e da minha imprensa.

Não é por acaso que o orçamento do Programa Antártico é pífio, se comparado à viagem de um aventureiro pedante ao Continente Gelado, que inclusive utilizou verba da estatal Petrobrás, sem retorno nenhum para o país, para fotografar golfinhos, produzir livros, vender vídeos e fazer marketing pessoal. A Antártica é um cofre de riquezas do mundo, fechado até o ano 2050, ao qual o Brasil tem acesso para pesquisa. Se um dia esse cofre for autorizado por convenção internacional para exploração, o Brasil estará habilitado a tal. Porém, se não der importância a programas como o Antártico, ou nem noticiar desenvolvimentos tais como o Pólo Sul da Amazônia Azul, corre o risco de perder esse direito.

É verdade que assuntos de áreas científicas vão contra o que se aprende na faculdade de comunicação quando a pergunta do professor é: o que é notícia? Vai mais contra ainda quando a pergunta do dono do jornal é: esta notícia vende? Mas, ingenuidade à parte, não custa nada tentar chamar a atenção dos editores de plantão para que sejam mais criativos. Ou responsáveis socialmente. Ledo engano, ou ignorância total, de quem afirmar que os oceanos, por exemplo, não têm nada a ver com o cotidiano das pessoas, das mais sofisticadas às mais simplórias, das cidades, das periferias e das zonas rurais. Se não quiserem noticiar, nunca irão investigar, se não investigarem nunca irão saber.

Enquanto a história do próprio jornalismo não muda, a história continuará a ser documentada pela metade, a opinião pública continuará a ser formada pela metade, funcionando com a sua capacidade atrofiada, sem poder de influenciar tendências históricas, ou pressionar por decisões verdadeiramente históricas a médio e longo prazos. Pois, não importa se o jornal é diário, leva duas horas para ser produzido e morre em quinze minutos de leitura. Tudo fica registrado. No caso aqui, tudo pela metade.

Sobre o autor: Escritor o jornalista. Tradutor de Por Quem os Sinos Dobram, de E. Hemingway. Dirige a Clínica Literária (www.clinicaliteraria.com.br) e preside o Instituto Brasil Costal, entidade de difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro.