Destaques

Fiscalizando a TV.


 

Informação: Direto da Redação - 20/11/2005

Leila Cordeiro

Quantas vezes você já não ouviu a frase “no Brasil é sempre assim, tudo acaba em pizza”? Felizmente esse conceito parece que está mudando, pelo menos se levarmos a sério as campanhas contra a baixaria na TV que vêm conseguindo algumas vitórias em sua luta para melhorar o nível da TV brasileira.

Semana passada, a Rede TV chegou a ficar fora do ar por mais de 24 horas por causa do programa Tarde Quente, cujo apresentador, João Kleber, talvez o campeão das baixarias, é acusado de discriminar e ofender homossexuais, humilhar mulheres, armar situações grotescas no quadro Teste de Fidelidade e até simular o próprio desmaio frente às câmeras. Resultado: por ordem da justiça, João Kléber está fora da grade da emissora que terá de rever o conceito do programa para tê-lo novamente no ar.

A Band também botou as barbas de molho ao desistir de transformar água em vinho, ou seja, fazer de Marcia Goldsmith a Ophra Winfrey brasileira. Com certeza, quem teve essa idéia nunca deve ter visto um programa da apresentadora mais influente dos Estados Unidos. Se tivesse, saberia que essa seria uma missão mais do que impossível. Márcia, totalmente “plastificada”, virou uma máscara dela mesma, caricata e sem nehuma credibilidade. Seu programa afundou a audiência no horário e a Band não vai mais exibí-lo ano que vem.

Silvio Santos foi outro que resolveu tomar cuidado com a baixaria. Há alguns meses começou a mudar o Programa do Ratinho, tentando fazê-lo mais "light". Mudou o visual do apresentador, o cenário e a linguagem. Mas Carlos Massa, considerado o pai do trash na TV, não se adaptou ao novo estilo e acabou perdendo seu espaço no horário nobre para o jornalismo e novela e, nos corredores da emissora, há quem diga que o apresentador corre o risco de não ter seu contrato renovado.

A Globo, é verdade, não tem em sua grade nenhum programa desse nível, em compensação usa e abusa de cenas eróticas e nus em horários impróprios. No afã de colocar no ar carinhas bonitas e novas, o controle de qualidade dos talentos anda meio em baixa na emissora, tanto que botaram uma amadora que nem sequer é atriz para fazer o papel principal da atual novela das sete. Bang-Bang é uma novelinha sem graça que não emplacou e é um dos maiores fracassos da emissora nos últimos tempos, tanto que já se anunciou que o folhetim será cortado em trinta capítulos.

Além da trama ruim, a novela tem como protagonista a ex-VJ da MTV, modelo e manequim fotográfico, Fernanda Lima, totalmente inexperiente para o trabalho de atriz. A moça é uma unanimidade, virou assunto nas últimas semanas em todas as colunas de crítica de TV. Não sabe representar e parece que nem se esforça para aprender. O jeito é arrogante e não combina nada com o comportamento das verdadeiras atrizes.

De qualquer maneira, ela é a menos culpada. Culpa tem quem escalou uma pessoa que não é do ramo para fazer o papel principal numa história o que também não deixa de ser uma baixaria com o público e com dezenas de atrizes profissionais e muito mais competentes que foram esquecidas. O pior é que, segundo as colunas especializadas, existe um envolvimento amoroso entre ela e o diretor da novela. Será que isso teve alguma influência na escalação do elenco? Bom, mas isso é outra história, assunto para outra coluna.

Apesar das pequenas vitórias que a campanha contra a baixaria vem conquistando, há ainda muito o que fazer na programação das TVs abertas. Há outros filhotes da baixaria ainda no ar, abrindo a boca para emitir conceitos e opiniões sem nenhuma qualificação. Asneiras são ditas sem responsabilidade e acusações lançadas impunemente. Um verdadeiro festival de besteiras.

Por isso é importante dar força a esses movimentos de cidadania e ao Ministério Público que têm lutado contra os abusos e distorções cometidos pela TV, um veículo que pertence à sociedade já que se trata de uma concessão do governo. Se for preciso cassar concessões ou tirar emissoras do ar, que o façam sem piedade, em favor de milhões de telespectadores, especialmente crianças e adolescentes, que não merecem a baixaria que lhes é imposta por programas que não deveriam entrar nos lares brasileiros.

Sobre o autor: Começou como repórter na TV Aratu, em Salvador. Trabalhou depois nas TVs Globo, Manchete, SBT e na CBS Telenotícias Brasil, como repórter e âncora. É também artista plástica e tem dois livros publicados.