| Informação:
AESP - Associação
de Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de
São Paulo - 21/11/2005
O
Estado de S.Paulo Economia - TV Digital
ETHEVALDO
SIQUEIRA
esiqueira@telequest.com.br
Que
virá pela frente? Não sabemos, mas esperemos que
seja pela frente – dizem os humoristas. Para o leitor
que acaba de ler a matéria acima, fica uma pergunta central:
que significa esta primeira vitória dos pesquisadores
brasileiros? Muita coisa, respondo. Em primeiro lugar, ela demonstra
a competência nacional nesse setor. Em segundo, prova
que é possível combinar padrões abertos
e proprietários, associando-os de forma criativa e adequada
no desenvolvimento de um sistema brasileiro de TV digital avançado,
recorrendo-se a tecnologias de domínio universal, sem
tentar reinventar a roda. Em terceiro, ela nos reforça
a convicção de que a maior contribuição
brasileira para a funcionalidade desse sistema é a criação
de um middleware compatível com o resto do mundo e, ao
mesmo tempo, voltado para as necessidades do País e para
sua realidade econômica, social e cultural.
Numa
longa conversa telefônica com o ministro das Comunicações,
Hélio Costa, na sexta-feira, transmiti-lhe, minha preocupação
com os riscos à continuidade do trabalho dos quase 100
pesquisadores do SBTVD, especialmente a partir de 12 de dezembro,
prazo final dos contratos de financiamento. Provocado, o ministro
assumiu um compromisso público:
“Pode
escrever aí. Enquanto eu estiver ministro, irei fazer
tudo pela continuação do trabalho desses pesquisadores,
buscando os recursos do Funttel ou da Finep para a continuidade
do trabalho de pesquisa e desenvolvimento do SBTVD”.
Vou
cobrar esse compromisso. E lembro que o valor acumulado de tudo
que foi destinado ao SBTVD até aqui não chega
a R$ 90 milhões. Isso equivale ao que o Brasil paga de
juros da dívida interna em algumas horas.
É
claro que ainda há muita coisa a fazer. Além das
etapas seguintes da tecnologia, é preciso definir o modelo
de negócios e a política industrial. Os maiores
obstáculos ao avanço do projeto, contudo, estão
no terreno perigoso das intrigas palacianas e do jogo de interesses,
políticos e econômicos.
Essa
guerra de bastidores não leva em conta os interesses
da sociedade brasileira. Ela une assessores despreparados, quando
não corruptos, a lobbistas inescrupulosos, com o objetivo
claro de torpedear o projeto brasileiro.
EU
DUVIDAVA
Sei que, para a grande maioria dos leitores, existe sempre o
temor de estarmos criando mais um frankenstein, do tipo PAL-M,
o padrão de TV em cores analógica, exclusivo do
Brasil e do Laos. Pagamos a conta pelo artificialismo do padrão.
Por isso, confesso, sem constrangimento, que, antes de conhecer
de perto o trabalho das universidades, eu tinha muita desconfiança
na idéia de um “sistema brasileiro”.
Mas
mudei de opinião, depois de estudar o problema, de ouvir
especialistas independentes e de acompanhar pessoalmente os
trabalhos de pesquisa e desenvolvimento. Convenci-me de que
esse é o melhor caminho.
E
para nossa alegria, o projeto acaba de ganhar o apoio das emissoras
de TV que, depois de muita discussão e negociação,
passaram a apoiar o SBTVD, porque sempre defenderam a escolha
do padrão de modulação OFDM, a criação
de middleware brasileiro totalmente compatível com o
mundo, baseado em padrões abertos internacionais como
o MPEG 4, por exemplo.
Como
mostramos na reportagem acima, a TV digital brasileira permitirá
a transmissão de até 4 programas num único
canal de freqüência, com 4 opções de
definição: baixa (low definition), com 240 linhas,
para PDAs e celulares; normal ou padrão (standard definition),
com 480 linhas, para televisores analógicos comuns: melhorada
(enhanced definition) , com 700 linhas, para DVDs; e alta definição
(high definition), com 1080 linhas, para programas Premium.
Com a aquisição de uma caixa de conversão
por menos de R$ 300, ninguém será obrigado a trocar
de aparelho para ter acesso à TV digital.
Quem
se lembraria hoje das críticas surgidas em 1969 ante
à simples idéia de criação de uma
indústria aeronáutica, como a da Embraer? E, outra
vez, nos anos 1970, das reações iniciais à
criação do primeiro motor a álcool de nossos
automóveis pelo Centro Tecnológico Aeroespacial
(CTA)?
Não
há dúvida de que sempre existirão opositores
honestos e bem intencionados ao modelo brasileiro. Outros serão
contrários por desinformação. Outros, finalmente,
tomarão posição agressiva em função
de seus interesses particulares num mercado que poderá
gerar negócios anuais de bilhões de dólares.
Qual
é o papel do ministro e de sua pasta nesse projeto? Não
há dúvida que o ministro Hélio Costa e
sua Pasta têm dado razoável apoio ao SBTVD. Mesmo
dele divergindo expressamente nesta coluna, quanto ao seu estilo,
acho que ele, como radiodifusor, acabou aceitando a idéia
de que podemos desenvolver um padrão brasileiro moderno
e inteiramente compatível com o resto do mundo.
O
maior risco ao projeto agora talvez seja a mobilização
dos interesses contrariados, que se julgam atingidos pelo eventual
sucesso de um sistema brasileiro de TV digital, por melhor que
ele seja. Num futuro próximo, um colegiado de representantes
terá a incumbência de avaliar e tomar as decisões
sobre o futuro do SBTVD. Esperemos que seus integrantes sejam
justos e equilibrados diante do projeto.
|