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Caros
Ouvintes - 16/11/2005
Por
Luiz Artur Ferraretto
Militante
histórico do Partido Comunista Brasileiro, foi preso
diversas vezes, ao longo da ditadura militar, sem abdicar de
sua ideologia. Seguia crendo na revolução marxista
como forma única de transformação social
e redenção dos oprimidos. Quem passou pelas redações
de Porto Alegre sabe disto. Muitos, no entanto, esquecem o papel
fundamental de Aveline para a estruturação do
radiojornalismo no Rio Grande do Sul. Papel, aliás coerente
com sua atuação em defesa da profissão
que, junto com o comunismo, abraçou décadas atrás,
também, como instrumento de luta contra a alienação
e a favor do progresso da sociedade.
No
final da década de 50, ao assumir o Departamento de Notícias
da Gaúcha, João Aveline procura valorizar ao máximo
a profissão de jornalista, contrariando a prática,
comum na época, de pagar um cachê aos locutores
ou outros profissionais para a produção dos textos
informativos. Até então, as notícias vêm
dos jornais ou do reaproveitamento do que é veiculado
por estações do centro do país. Vez por
outra, os improvisados redatores passam-se um pouco e se pode
escutar algo como “Senhoras e senhores, como se vê
no clichê fotográfico acima...” ou “Atenção,
moradores do Leme, vai faltar água hoje à tarde...”.
Pior quando uma das atrações do radioteatro encerra,
de modo imprevisto, antes do horário e, preenchendo o
tempo vago, irrompem edições extraordinárias
dos noticiários, sem o mínimo valor informativo.
Em meio a este quase amadorismo de referências a fotos,
bairros cariocas e total falta de critério, a escuta
e a recortagem ainda são, portanto, habituais, até
mesmo por questões de custo em uma fase da radiodifusão
na qual o lucro advém, em sua grande maioria, do entretenimento.
A dupla função é uma forma deste tipo de
conteúdo sair mais barato para as emissoras. Deste modo,
sem uma pontuação adequada e redigido bem à
moda do próprio locutor, o texto não tem como
ser lido em sua entonação exata por outro profissional.
No
início dos anos 50, apenas a edição gaúcha
do Repórter Esso escapa um pouco a esta lógica.
A maioria do noticiário, produzido pela United Press
International, vem, via telegráfica, do Rio de Janeiro.
No entanto, o locutor exclusivo do principal informativo da
Farroupilha e do rádio do Rio Grande do Sul, Lauro Hagemann,
também ganha uma remuneração extra para
produzir os textos referentes a acontecimentos locais:
– Eu recebia um adicional de 500 cruzeiros para inserir
a parte local, que eu pegava dos jornais, reduzia e fazia um
texto obrigatoriamente enxuto. As locais eram só as notícias
muito importante mesmo. Nos domingos, eles exigiam as notícias
locais do esporte.
De
outra parte, a inauguração da Rádio Guaíba,
em 1957, vai começar a alterar este panorama, associando-se
a outros fatores externos ao meio rádio, como a introdução
da TV no ambiente comunicacional do estado. Surgida em uma empresa
jornalística, responsável pelos diários
Correio do Povo e Folha da Tarde, é quase um imperativo
natural que a emissora de propriedade da família Caldas
abra espaços ao noticiário. Assim, amparada na
credibilidade de seus co-irmãos impressos, a Guaíba
faz frente ao Esso com o Correspondente Renner, que, aos poucos,
vai desbancar a tradicional síntese noticiosa irradiada
pela Farroupilha. Chefiado de início por Neu Reinert,
substituído por Amir Domingues em 1958, o Departamento
de Notícias conta com uma dezena de profissionais para
produção de textos a partir de material da agência
Associated Press e das redações do Correio e da
Folha, além da escuta do programa governamental Voz do
Brasil e de emissoras do centro do país. É buscando
montar uma estrutura que concorra com o trabalho destes redatores
que o diretor da Gaúcha, Maurício Sirotsky Sobrinho,
convida João Aveline para chefiar o Departamento de Notícias
da rádio:
– Formei equipe de profissionais de comprovada competência,
redatores e noticiaristas, entre os quais: João Souza,
Paulo Totti, João Ferreira dos Santos Netto, Nilson Guimarães,
Gervásio Neves e o saudoso Ivo Correa Pires (...). Mais,
Carlos Bastos que gravava e selecionava discursos na Assembléia
Legislativa e editava um programa com a participação
de dois deputados debatendo tema polêmico vigente, obviamente
um a favor, outro contra. Programa de grande repercussão,
batizado de Tribuna Parlamentar.
Outros
três jornalistas completavam a equipe: dois radiorrepórteres
e um repórter político. Os dois primeiros, Norberto
Silveira (...) e Dilamar Machado, gravadora em punho, entrevistavam
pessoas relacionadas com os fatos do dia, em todas as áreas.
Índio Vargas fazia cobertura política, redigindo
textos para os noticiosos, notadamente para o principal deles,
o Repórter Único, que ia ao ar às 9, às
13 e às 20h30 (...)
Este
trabalho diário realizado pelos repórteres da
Gaúcha vai marcar uma profunda diferença em relação
ao verificado nas demais emissoras. A rádio conta, deste
modo, com uma equipe própria para a apuração
das informações locais, formada por profissionais
que não têm apenas uma dicção correta
ou uma adequada técnica de colocação vocal,
mas sim possuem os conhecimentos necessários para decidir,
no palco de ação do fato, se este pode ou não
ser considerado notícia e que, definido isto, entram
no ar, com freqüência, ao vivo, por telefone. Gravam,
ainda, entrevistas, de início, com um pesado aparelho
da marca Grundig, a exigir a presença de um operador
e uma conexão à rede elétrica. Depois,
passam a usar os equipamentos portáteis então
recém-adquiridos pela emissora dirigida por Maurício
Sirotsky Sobrinho, fabricados pela italiana Societá per
Azione Geloso e que podem ser alimentados a pilha.
Com
João Aveline na chefia do Departamento de Notícias,
as três edições diárias do noticiário
patrocinado pelo vinho Único, produto da Vinícola
Monaco, de Bento Gonçalves, procuram fazer frente à
concorrência. Privilegiam, assim, as informações
locais, colhidas pela equipe de reportagem, que, ao contrário
do Esso e do Renner, interfere no ar, durante o noticiário,
quando o valor jornalístico do fato assim o exige. Edições
extraordinárias referindo-se a fatos de interesse maior
também são uma constante no trabalho da equipe
montada por Aveline.
Incorporando
rotinas de trabalho semelhantes às das redações
dos periódicos impressos, a reorganização
do Departamento de Notícias na Gaúcha, a partir
de 1957, delimita, desta maneira, a chegada de uma nova fase
para o jornalismo radiofônico no Rio Grande do Sul. Além
da adoção de critérios mais profissionais
para a seleção do que vai ou não ser informado
ao ouvinte, a equipe liderada por João Aveline dedica-se
à captação diária de informações
junto às fontes:
– O radiorrepórter surge pela necessidade de termos,
então, uma notícia que não fosse copiada,
mas colhida na fonte.
A
prática de gravar e irradiar entrevistas, ilustrando
reportagens com vozes dos protagonistas dos acontecimentos,
torna-se habitual no dia-a-dia da Gaúcha, sendo logo
seguida pelos de outras emissoras, como na Difusora, estação
que, ao longo da década de 60, também adota sistemáticas
operacionais semelhantes.
Em
outubro de 1961, nova inovação que chega a surpreender
o diretor da Gaúcha, Maurício Sirotsky Sobrinho.
O empresário surpreende-se, mas entende a importância
de ter no estúdio da rádio um dos industriais
mais importantes e influentes do Rio Grande do Sul até
então. É assim que, dias depois, Antônio
Jacob Renner, idealizador e primeiro presidente do Centro da
Indústria Fabril do Rio Grande do Sul, participa de uma
mesa-redonda, que Aveline sempre reivindicou ser a primeira
da história do rádio no estado a tratar do tema
economia. A presença do empresário é tão
importante que a direção da Gaúcha, representada
pelo próprio Maurício, aceita realizar o programa
em gravação, algo não usual na época.
Ao ritmo do seu tempo, o proprietário da A. J. Renner
& Cia., uma das maiores fábricas do setor de fiação
e tecelagem do Sul do país, é um homem muito reservado
que, afeito às coisas do trabalho e da família,
não sai à noite, obrigando o registro da mesa-redonda
em fita rolo para posterior transmissão ali pelas 20
ou 21h, faixa liberada, eventualmente, pelo diretor da Gaúcha
para este tipo de atração jornalística.
À época, segue predominando o espetáculo,
mas a PRC-2 já veicula, eventualmente, um ou outro programa
semelhante a este, mas colocando frente a frente lideranças
políticas.
Sem
ser artífice único do processo que vai levar ao
surgimento das emissoras voltadas ao jornalismo, João
Aveline é, mesmo assim, uma das figuras mais importantes
deste processo que adentra os anos 60 e vai ganhando força
nas décadas seguintes. Tudo a partir daquela idéia
quase singela: valorizar o profissional de notícia, o
jornalista. Lição, ainda, não totalmente
compreendida em muitas emissoras, luta constante de uma categoria
que, agora, coisas da vida, tem um batalhador a menos a reivindicar
direitos e remar contra a maré.
Luiz
Artur Ferraretto. Diretor do curso de Comunicação
Social da Universidade Luterana do Brasil, em Canoas, na Região
Metropolitana de Porto Alegre. É doutor em Comunicação
e Informação pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (Ufrgs). Foi repórter da Rádio Gaúcha
e gerente de Radiojornalismo da Rede Bandeirantes/ RS. Com a
jornalista Elisa Kopplin, escreveu Técnica de redação
radiofônica e Assessoria de imprensa, teoria e prática.
Lançou também Rádio – O veículo,
a história e a técnica e Rádio no Rio Grande
do Sul (anos 20, 30 e 40): dos pioneiros às emissoras
comerciais.
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