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A Globo e o batismo dos sargentos ( Antonio Monteiro ).


 

Informação: Direto da Redação - 16/11/2005

O batismo de sargentos em uma unidade do exército no Paraná, como mostrou o Fantástico, domingo, não chegou a me surpreender, pois suponho ser assim em qualquer exército do mundo, pelo menos é o que vemos através de filmes.

Imagino que baldes de água no rosto, chineladas e outros tipos de tortura física ou psicológica devem ser muito mais dolorosos que os batismos que enfrentamos no colégio, na universidade, no time de futebol, trotes de empresa, etc. Mas no caso, trata-se de militares, todos treinados e preparados física e emocionalmente.

Uma brincadeira dura, é verdade, mas como poderia ser outro o batismo de militares? Pessoal treinado para enfrentar as condições mais adversas, até uma guerra, onde todo tipo de tortura é usado contra prisioneiros. Depois de pensar nisso tudo, compreendi que batismo de militar não pode ser com confeti e serpentina.

Agora, o que pensar sobre um participante do BBB, por exemplo, ter que dançar até doze horas seguidas para passar por uma prova? Ou ter que comer olho de cabra? Não será esse BBB uma tortura muito mais grave porque expõe as pessoas ao ridículo, onde elas são tratadas como ratos de laboratório e as crises psicológicas são claras e inevitáveis? Se isso não é tortura, não sei que outro nome tem.

Esse facismo branco vem desde a abertura do programa. Paulo Ricardo dá o tom: canta versos que falam do bem e do mal, e da importância de resistir e vencer se quiser ser o melhor.

E quem não se lembra de Zeca Camargo apresentando os programas "No limite" e "Hipertensão", onde pessoas comuns eram desafiadas a comer insetos ou deitar numa cova com 300 ratos?

Trote dentro de um quartel que diz respeito somente a eles é uma coisa, muito pior é passar por humilhações em transmissão nacional.

Recentemente, a Rede Globo usou todo seu poder para defender o desarmamento, mas não deixou de apresentar no mesmo período filmes violentos em "Domingo Maior", e agora volta com nova temporada de sua violenta minissérie "Cidade dos homens".

Se deseja fazer justiça, sem segundas e terceiras intenções, por que a Globo não sai em defesa dos trabalhadores que sofrem tortura física e psicológica quando não conseguem levar o pão para casa ? Por que não sai em defesa de uma população oprimida com seu salário congelado há quase 10 anos? Por que não cobra explicações dos coronéis nordestinos sobre exploração de mão de obra? Por que não denuncia o narcotráfico que tortura e mata a população pobre da favela ao invés de fazer apologia do crime através de minissérie como "Cidade dos homens"?

Tudo isso para concluir que a emissora, que algumas vezes se coloca como defensora da liberdade e justiça, nem sempre faz aquilo que prega. Se transformada em gente, seria como tantos que desejamos à distância de tão contraditórios e hipócritas que são.

Antonio Monteiro é analista de sistemas e mora em São Paulo (SP). Seu email é antonio_monteiro@terra.com.br