|
Informação:
Observatório
da Imprensa - 15/11/2005
Venício
A. de Lima (*)
Não
fosse por uma informação secundária inserida
em matéria do jornal Valor Econômico (25/10/2005)
e pelo comentário sobre o assunto do seu ombusdman na
coluna de domingo (6/11), não se saberia que a Folha
de S.Paulo desfez a reestruturação societária
anunciada em janeiro de 2005, pela qual a Portugal Telecom havia
comprado 21% da holding Folha-UOL [clique
aqui e role a página para ler a nota do ombudsman].
A empresa de telecomunicações portuguesa, que
explora os serviços de telefonia celular no Brasil e,
em associação com a Telefônica de Espanha,
controla a operadora Vivo, continua, no entanto, sócia
minoritária (28%) do UOL.
A
aprovação da Emenda Constitucional nº 36
e sua regulamentação em 2002 (Lei 10.610/2002),
como se sabe, possibilitaram a participação de
pessoas jurídicas e de capital estrangeiro em até
30% nas empresas jornalísticas e de radiodifusão.
Embora o fluxo de capital externo não tenha, até
agora, ocorrido na velocidade e no volume que algumas empresas
esperavam, pelo menos um dos grandes grupos de mídia
brasileiro – a Editora Abril – vendeu, em julho
de 2004, parte (13,8%) de suas ações para o fundo
de investimentos Capital International Inc., dos Estados Unidos.
As
Organizações Globo também já têm
parcerias com o capital estrangeiro tanto na Sky Brasil (com
a News Corporation) como na NET Brasil (com a Telmex, Teléfonos
de México). Essas empresas de TV paga, no entanto, não
são consideradas empresas de comunicação
pela legislação brasileira e, portanto, não
se submetem às normas da Lei 10.610/2002.
Interferência
direta
Existem
ainda as empresas totalmente estrangeiras, fora do alcance da
atual legislação do setor, fazendo jornalismo
via internet. Exemplos são America Online, Terra, Reuters
e Bloomberg, entre outras.
A
ausência desse tema – sobretudo agora, na própria
Folha – revela o pouco-caso com que a grande mídia
brasileira trata as questões relativas à sua economia
política ou, mais diretamente, aos interesses econômicos
de empresas que fazem jornalismo.
Na
verdade, a associação de empresas de comunicação
com os grandes grupos de telecomunicações ou com
grupos econômicos de outros setores (entretenimento, por
exemplo) constitui um dos temas mais relevantes na discussão
contemporânea sobre os rumos do jornalismo.
Em
países onde questões de interesse público
são tratadas com maior transparência, há
diversos registros de interferência direta da direção
dos grandes conglomerados no jornalismo de suas empresas de
mídia. Talvez o caso mais conhecido, até porque
virou sucesso nos cinemas em 1999 com o filme O Informante (The
Insider) com Al Pacino e Russell Crowe, seja o jogo de interesses
entre a indústria de tabaco e a rede americana de televisão
CBS (Westinghouse) para evitar a divulgação de
matéria na revista noticiosa 60 minutes, em 1994.
Primeira
grandeza
Um
ciclo de debates promovido no Espaço Cultural da CPFL,
em Campinas (SP), durante os meses de outubro e novembro, com
o sugestivo título de "Jornalismo Sitiado: como
a imprensa perde seu espaço na função de
mediar o debate público na democracia", mostra como
o tema vem aos poucos se constituindo em objeto de discussão
na sociedade civil brasileira.
O
documento básico do ciclo levanta questões como:
"Pode
haver independência editorial se a empresa jornalística
já não é uma empresa autônoma,
mas um setor no interior de um conglomerado? Quem é
que hoje cumpre a função de informar o
cidadão: os veículos jornalísticos,
os serviços de relações públicas
orientados para o consumidor, os ‘noticiários’
da TV, muitos deles orientados segundo parâmetros
do entretenimento, o marketing político? Esses
serviços ou fontes preenchem os requisitos de
independência crítica para serem vistos
como fontes ou veículos confiáveis?"
|
Nesses
tempos de crise política, o verdadeiro papel da mídia
tem que ser amplamente debatido. Não basta mais –
como sempre se faz entre nós – que os grandes grupos
de mídia recorram aos princípios da liberdade
de expressão e da liberdade de imprensa para justificar
todo e qualquer comportamento.
O
jogo pesado do poder que se esconde na competição
entre os conglomerados de mídia – e quase nunca
se revela publicamente – é fundamental para a compreensão
do tipo de jornalismo por eles praticado.
Hoje,
a questão fundamental não é mais saber
apenas se e como a grande mídia pode estar comprometida
por suas ligações com o big business, sobretudo
através de seus anunciantes. Hoje a grande mídia
é, ela mesma, big business e ator de primeira grandeza
na disputa política.
(*)
Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia
e Política (NEMP) da Universidade de Brasília
e autor, entre outros, de Mídia: Teoria e Política
(Editora Fundação Perseu Abramo, 2ª ed.,
2004)
|