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Informação:
Observatório
da Imprensa - 21/12/2004
Mauro
Malin
Embora
o Jornal Nacional de quinta-feira (16/12) tenha feito uma edição
admirável com os dados da Pesquisa sobre Orçamento
Familiar do IBGE – que permitiu calcular em 3,8 milhões,
ou 4%, o número de subnutridos no país, parte
deles simplesmente magros –, a mídia toda perdeu
mais uma oportunidade de tratar seriamente o problema da desigualdade
no Brasil.
Perdeu
também a oportunidade de acertar contas, num assunto
fundamental, com a espetacularização dos problemas
sociais.
Que
os números da fome eram exagerados já se sabia
há muito. Na segunda edição deste Observatório
na internet isso era dito com todas as letras. E também
não surgiu agora a constatação de que a
obesidade, por nutrição desbalanceada e/ou falta
de exercício físico, virou epidemia.
O
destaque dado pela TV Globo ao assunto foi um golpe político
sério nas manipulações estatísticas
que estão por trás da jogada de marketing denominada
Fome Zero. A emissora mostrou vídeo do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva falando em "43 milhões
ou 50 milhões de pessoas passando fome no Brasil",
ao lançar o programa, em 2003.
Nem
Lula acredita
Quem
viu o documentário Entreatos, de João Moreira
Salles, que mostra o dia-a-dia da campanha presidencial petista
de 2002, sabe que nem Lula acredita nesses números. Mas
convinham, e foram usados. O presidente se baseou em dados fornecidos
pelo então ministro extraordinário da Segurança
Alimentar, José Graziano, e em argumentação
publicada numa cartilha divulgada pelo Instituto Ethos em fevereiro
de 2003 ("Como as empresas podem apoiar e participar do
combate à fome").
A
Globo entrevistou o professor Simon Schwartzman – ex-presidente
do IBGE –, que apontou a origem das confusões:
o mapa da fome elaborado pelo Ipea em 1993, no qual se baseou
Betinho para lançar, naquele ano, a Campanha contra a
Fome. Betinho, por sinal, foi capa de Veja na ocasião
(29/12/1993, "Betinho, o grão da cidadania").
Os
veículos impressos não chegaram perto da edição
redonda da Globo, que tratou os telespectadores como adultos
(isso está longe de ser freqüente...), embora se
deva registrar que a Folha de S. Paulo ofereceu, entre os jornais,
a melhor cobertura.
Caldeirão
de maluquices
Por
que a mídia errou na cobertura dos resultados da Pesquisa
sobre Orçamento Familiar?
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Primeiro,
porque substituiu uma "lebre", a medonha fome de "50
milhões de indigentes", por outra: a epidemia de
obesidade. Trombetear é preciso, informar não
é preciso (verbo e adjetivo). Há distintos problemas
de saúde pública relacionados com a obesidade.
Uns são de pobres, outros dos que têm dinheiro
bastante para comer à vontade. E tudo foi misturado num
caldeirão, para dar lead e manchete. O excesso e a falta
de peso. De algum jeito, as coisas têm que andar mal.
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Segundo,
porque evita reconhecer sua poderosa e inesquecível contribuição
para a veiculação dessas maluquices estatísticas
(o mais provável é que a maior parte dos atuais
editores – mas não todos – nem tenha consciência
plena do problema).
Maluquices
que jogam o país para baixo, tornam as soluções
quase "impossíveis" (se o problema é
"imenso", como resolvê-lo?), desanimam os pesquisadores
sérios, abrem as portas para todo tipo de demagogia e
patetadas regidas por boas intenções. E vigarices.
Dados
incorretos
No
domingo (19/12), a Folha, parabéns, dava na capa: "Déficit
oficial de moradias é exagerado, afirma estudo".
A diferença é de 7,2 milhões de casas,
número com que trabalha o Ministério das Cidades,
baseado em estudos da Fundação João Pinheiro,
para 4,1 milhões, total apurado em estudo do IBGE e da
Unicamp. Quanto custa essa diferença, ainda que apenas
no plano da percepção?
O
maior problema dos dados inflacionados é que eles constituem
uma espécie de lastro para atuação sem
critério de entes públicos e não-governamentais,
e impedem uma avaliação correta, mediante participação
democrática, das políticas públicas.
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Terceiro, porque ela, a mídia, leu as estatísticas
e não viu o dado mais relevante, que esteve, está
e continuará no centro dos dilemas brasileiros: a fome
e a desnutrição recuaram espetacularmente –
não acabaram, e as estimativas da desnutrição
de crianças se somarão em breve às dos
adultos –, mas a concentração de renda permaneceu
inabalável, e desigualdades regionais sérias persistem.
Nisso os resultados de 2002-03 são semelhantes aos de
1973-74. Nem as políticas sociais dos últimos
dez anos conseguiram alterar o quadro.
A
manchete mais espetacular seria: "Mídia se despede
da década de 1990" – durante a qual se usou
e abusou de dados incorretos sobre os dramas, nunca suficientemente
descritos ou avaliados, da população brasileira.
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