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Jornais franceses - Em crise, "Libération", "Monde" e "Figaro" se abrem a investidores.


 

MÍDIA

Em crise, "Libération", "Monde" e "Figaro" se abrem a investidores; jornalistas vêem ameaça à independência e mercado aplaude

Informação: Folha de São Paulo - Dinheiro - 26/12/2004

 

Industriais compram jornais franceses

JO JOHNSON
DO "FINANCIAL TIMES"

Em um sinal da situação desesperada a que chegaram os jornais nacionais franceses, o "Libération", diário contestador, está envolvido em negociações detalhadas para vender participação acionária controladora a um aristocrata da dinastia de banqueiros Rothschild.

Se a aquisição por Edouard de Rothschild for aprovada depois da votação pelos funcionários do "Libé", em 6 de janeiro, Serge July, que fundou o jornal em 1973 com a ajuda de Jean-Paul Sartre, foi informado de que seu posto como editor-chefe estará seguro até 2012. Os jornalistas também manterão sua participação minoritária e seu poder de veto na estrutura de capital da empresa. Mas não há como disfarçar que uma era chegou ao fim para o jornal de passado revolucionário.

O "Libé" não está só. O "Le Monde" e o "Figaro" também estão se preparando para cirurgias radicais, sob o controle de novos proprietários. Os cortes começaram no "Figaro", diário conservador vendido no terceiro trimestre a Serge Dassault, presidente honorário do conselho da Dassault Aviation, produtora do caça Mirage. Sob o comando de Dassault, o jornal recentemente demitiu Jean de Belot, seu editor-chefe há muito tempo, e Yves de Chaisemartin, presidente-executivo da publicação. De Belot foi substituído por Nicolas Beytout, que era editor de "Les Echos", diário financeiro controlado pelo Financial Times Group.

O "Monde" é o maior e mais influente dos jornais nacionais franceses. Mas isso tampouco serve de proteção: seu editor também terminou demitido. Edwy Plenel, o combativo ex-trotskista criticado por políticos indignados devido ao jornalismo investigativo que ele vinha promovendo no jornal, renunciou recentemente depois de quase uma década à frente da publicação, dizendo que desejava retornar aos prazeres simples da escrita.

Sua partida aconteceu enquanto o diário, que chega às bancas no começo da tarde e teve prejuízo de 25 milhões no ano passado, continua sua busca por um novo acionista disposto a realizar uma injeção de capital da ordem de 50 milhões. O dinheiro é necessário para reforçar o balanço e bancar um programa de demissões de cerca de 90 profissionais.

O tumulto que abala os três diários nacionais mais importantes -a imprensa regional e o setor de revistas franceses estão se saindo melhor- reflete uma mistura paralisante de problemas cíclicos e estruturais. Os altos custos de impressão, sindicatos duros, o rápido desaparecimento das bancas de jornais que tinham monopólio sobre as vendas, a queda no número de leitores, a recuperação lenta depois da recessão no mercado publicitário e a proliferação de jornais gratuitos se somaram para solapar a base econômica do mercado dos grandes jornais.

A circulação do "Libé" caiu em quase 4%, no ano passado, para apenas 158 mil exemplares. O "Monde", que também vem perdendo circulação, vende cerca de 390 mil cópias, e o "Figaro" vende pouco mais de 350 mil ao dia, de acordo com a auditoria OJD.

Embora as quedas tenham sido mais modestas do que as enfrentadas pelos diários britânicos, seu impacto foi imenso. Na França, cerca de 70% das receitas dos jornais derivam das vendas e assinaturas, não da publicidade.

Nesse clima de desânimo, a elite francesa decidiu ampliar seu domínio sobre o setor de jornais. Não foram apenas os Rothschild e Dassault que aproveitaram a oportunidade para assumir o controle de um título nacional, colhendo a influência e o prestígio que disso derivam. Arnaud Lagardère, presidente do conselho do conglomerado Lagardère, que produz de revistas a mísseis, está de olho no "Monde" e pode em breve se tornar o maior acionista.

A Lagardère, que controla 15% da EADS, grupo aerospacial e de defesa, já controla o "Journal du Dimanche", principal jornal dominical francês, além da revista "Paris Match", influente semanário de notícias leves. Adquirir participação respeitável no jornal de elite tornaria Lagardère o primeiro entre seus pares, na confraria dos magnatas que dominam a mídia francesa.

Outros industriais estacionaram os tanques de guerra nos gramados da mídia já há algum tempo. François-Henri Pinault controla não só o conglomerado de varejo Pinault Printemps Redoute mas também o "Le Point", importante semanário de notícias locais, e "L'Agefi", um jornal financeiro.

Martin Bouygues é outro industrial bem relacionado cujas empresas dispõem de poderosa divisão de mídia. Herdeiro do grupo de construção Bouygues, que tem longa tradição no financiamento ao RPR, partido que funcionava como máquina política do presidente Jacques Chirac, Bouygues diversificou seus interesses e agora controla a maior rede de televisão francesa, a TF1, e uma das três únicas operadoras de telefonia móvel do país.

Os jornalistas estão alarmados com a tendência de que os herdeiros de dinastias financeiras e industriais francesas acumulem participações nos jornais do país. Robert Ménard, que dirige a Repórteres Sem Fronteiras, organização que luta pela liberdade de imprensa em todo o mundo, diz que "as dificuldades financeiras crônicas dos jornais nacionais franceses os estão deixando a mercê de quem quer que disponha de dinheiro fácil".

Ele acrescenta que "pelo menos Edouard de Rothschild não é um barão da indústria bélica, completamente dependente de pedidos do governo para obter faturamento. Isso representa o beijo da morte para o jornalismo independente".

A despeito da contratação do respeitado Beytout como editor, vai demorar para que o "Figaro" demonstre que pode ser mais do que a divisão de mídia de uma empresa de armas dependente do governo. A lealdade de Dassault ao presidente da França atravessa as décadas, e foi só com o apoio de Chirac que o industrial superou o ceticismo do Ministério da Defesa e sucedeu o pai no comando da Dassault Aviation. Ainda que a empresa tenha diversificado suas operações para o setor aerospacial civil, com os jatos executivos Falcon, o governo francês respondeu por mais de 85% de suas encomendas, no segmento de defesa, em 2002.

Ao contrário de Dassault, que pouco fez para disfarçar seus instintos intervencionistas no "Figaro", Rothschild está sendo cuidadoso e tenta não incomodar os jornalistas do "Libération". Mas, como herdeiro de uma dinastia bancária, sua posição como proprietário de um jornal radical parece estranha.

"No plano simbólico, é chocante", disse Pierre Defassiaux, funcionário do SNJ, principal sindicato dos jornalistas franceses. "Isso mostra o quanto é difícil sustentar a imprensa independente na França".

Por um investimento da ordem de 20 milhões, Rothschild obterá até 35% das ações do deficitário jornal.

Rothschild fez o máximo que pode para reassegurar a cética equipe editorial do "Libération". Em entrevista ao "Figaro", prometeu preservar a independência do jornal. "O Libération", disse, "tem todas as qualidades necessárias a se tornar a força propulsora por trás do grupo diversificado de imprensa que desejo construir".

A despeito do pessimismo entre os jornalistas, no setor publicitário a injeção de capital que os grupos industriais franceses vêm realizando na mídia, um setor estagnado, foi recebida com agrado.

"Os custos fixos de um jornal nacional superam de longe a receita que pode ser obtida com assinaturas, vendas em banca e publicidade", diz Philippe Sarrazin, diretor da Initiative Paris, uma empresa de compra de mídia.
Ele acrescenta que "os anunciantes esperam que os novos proprietários invistam em máquinas e em jornalistas modernos. E apreciam muito as mudanças".