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Informação:
Observatório
da Imprensa - 14/12/2004
Luiz
Weis
Por
definição, o maior inimigo do segredo há
de ser sempre o jornalista, que vive de e para informar o público
de tudo aquilo que, nas sociedades democráticas, é
seu direito conhecer. (Jornalistas há também que
vivem de divulgar coisas de que o público não
precisa ser informado, por tratarem da intimidade alheia, mas
essa é outra história.)
O
direito às informações de interesse coletivo
incide em primeiro lugar e mais intensamente sobre o que se
passa no âmbito do Estado – não apenas porque
o que aí se faz ou se deixa de fazer afeta a vida das
populações, mas sobretudo porque elas constituem
a fonte última de legitimação dos atos
dos governantes e legisladores.
Com
isso não se pretende negar que também o Estado
deve ter uma esfera de privacidade, para proteger não
os seus agentes, mas o interesse nacional, entendido este como
sinônimo do interesse comum do conjunto dos cidadãos
do país, segundo os parâmetros – decerto
imperfeitos, mas insubstituíveis – da ordem democrática.
Por
isso, existe uma tensão inerente entre jornalista e autoridade
sobre o que, quando e como pode sair da redoma estatal para
o ar livre.
Para
ele, no limite, é tudo, já e por inteiro. Para
ela, tudo, já e por inteiro, só quando for compatível
com as proverbiais "razões de Estado" –
algo que ele quase sempre considera, com bons motivos, um eufemismo
para razões dos detentores do poder estatal, de acordo
com a Regra de Ricupero: o que é bom a gente divulga,
o que é ruim a gente esconde. No mais, a ver.
Benditas
reportagens
Esse
é o pano de fundo mais geral para a questão que
entrou para a ordem do dia graças a um erro de imprensa.
Em outubro, o Correio Braziliense deu como sendo do jornalista
Vladimir Herzog, morto pela ditadura, fotos que se veio a saber
serem do padre canadense Leopoldo d’Astous, molestado
pela ditadura.
Para
o que se seguiu, o erro é irrelevante: as benditas reportagens
do Correio tiraram de vez a pasta do tubo. E obrigaram o governo
a dar uma reposta ao clamor, a que não ficou alheio este
Observatório, pela abertura dos arquivos da ditadura.
Mas
a resposta não serviu – e é dever do jornalista,
para ser coerente com a sua dupla condição de
inimigo número 1 do segredo e de alvo preferencial de
todas as ditaduras, pressionar por outra, mais adequada aos
imperativos da democracia e aos valores republicanos.
Essa
pressão, diga-se desde logo, reconhece, como antes mencionado,
que o Estado tem direito a seus segredos. Mas reconhece, no
mínimo com a mesma ênfase, que todo segredo de
Estado é uma lesão a direitos alheios –
de pessoas, setores sociais e, evidentemente, de outros Estados
também (cujos segredos, conforme o Estado e os fatos
a que se refiram, podem lesar o direito do Estado brasileiro,
por exemplo, às verdades que lhe são sonegadas).
Sem
perder de vista essa equação, a imprensa, no entender
deste leitor, deveria pressionar em duas frentes. Uma, de ordem
geral, outra, específica.
Sigilo
eterno
No
primeiro caso, é preciso erradicar da legislação
baixada na sexta-feira passada pelo governo, a passagem que,
afinal, dá o dito por não dito, ao permitir que
o Estado mantenha sepultos até o fim dos tempos os segredos
que bem entender.
É
assim, como deu nos jornais: o inciso 2 do artigo 6° do
decreto do presidente Lula proíbe o acesso a documentos
cujo sigilo "for imprescindível à segurança
da sociedade e do Estado" – mesmo quando tiver expirado
o prazo do segredo (5 anos, para documentos "reservados";
10 para "confidenciais"; 20 para "secretos"
e 30 para "ultra-secretos").
Pelo
decreto, a decisão sobre o que é imprescindível
ou prescindível caberá a uma comissão de
nível ministerial (Casa Civil, Justiça, Relações
Exteriores, Segurança Institucional e Direitos Humanos),
mais a Advocacia Geral da União.
A
Casa Civil baixará as "normas complementares"
de atuação do colegiado. A julgar pela tradição,
normas complementares, ou que nome tenham esses adendos –
ou contrabandos, como se diz na gíria parlamentar –
podem ser tão ou mais importantes do que aquilo que complementam.
É
bem verdade – e é positivo – que essa Comissão
de Averiguação e Análise de Informações
Sigilosas terá o poder de rever as categorias em que
a burocracia civil e militar enquadrou cada documento, portanto
os prazos teóricos de sua divulgação.
Mas
isso não torna menos inadmissível a brecha aberta
para o "sigilo eterno", como desde a primeira e boa
hora a imprensa tratou de chamar a esperteza.
O
jabuti na árvore
Aliás,
por falar em esperteza, nem a velhinha de Taubaté acreditará
que foram produto de uma trapalhada burocrática os trechos
ainda mais restritivos que constavam "indevidamente"
da primeira versão do texto divulgado pelo Planalto e
afinal recolhido, já pronto para sair no Diário
Oficial.
Não
que o governo seja uma ilha de competência, como bem se
sabe. Mas o que levou o secretário Nilmário Miranda,
dos Direitos Humanos, a gritar "parem as máquinas"
lembra o folclórico jabuti no alto da árvore que
não enganava os velhos políticos mineiros –
se o bicho está lá é porque alguém
o colocou, fazendo o que ele não conseguiria pela própria
natureza.
A
reportagem de Cristiane Jungblut e Evandro Éboli, no
Globo de sábado, conta a inside story do texto que o
Planalto acabou chamando de "versão primitiva"
– um cabo-de-guerra que durou cinco horas. E foi o Globo,
salvo prova em contrário, que avisou Nilmário
que o divulgado não batia com o combinado.
Pelo
jeito, a "imprescindibilidade" pode ter ido parar
no decreto levado pelas mesmas mãos que pousaram o quelônio
na versão da medida provisória abatida a tempo.
Adiante.
Essa comissão não pode ficar como está
– e é papel do jornalista brigar para que não
fique. Ela deve incluir representantes de pelo menos duas organizações
da sociedade: a Ordem dos Advogados do Brasil e a Associação
Brasileira de Imprensa. Sim, passarão por suas mãos
papéis secretos cujo dono exclusivo ainda será
o Estado. Paciência.
Criem-se,
até onde for possível, salvaguardas para evitar
que eles contem aqui fora o que leram lá dentro. Mas
quem garante que os outros comissionários se comportarão,
invariavelmente, como se supõe que se comportem os padres-confessores?
Arquivistas
ou carcereiros
Essas
são boas brigas, mas a mãe de todas as batalhas
em que a imprensa poderia prestar o serviço público
de se engajar é outra: a do acesso aos arquivos específicos
da ditadura. Mais especificamente ainda, aos arquivos da repressão.
Pressione-se
o governo para encontrar a fórmula jurídica que
dê tratamento especial a essa documentação
e para obrigar os seus arquivistas – ou melhor, os seus
carcereiros, como na magistral ilustração (de
assinatura ilegível) da página 2 da Folha de S.Paulo
de 11/12 – a buscá-los nos socavões onde
os enfurnaram.
Exemplificando:
uma coisa são os papéis trancafiados no Itamaraty,
no Forte Apache, ou onde quer que seja, contendo eventualmente
informações cabeludas sobre o conflito Brasil-Estados
Unidos por causa do acordo nuclear com a Alemanha, entre 1974
e 1976, digamos; outra coisa é tudo que possa haver de
memória oficial sobre os crimes da ditadura contra os
direitos humanos nesse mesmo período.
Nos
dois casos, a verdade histórica precisa ser conhecida,
duela a quién duela. Mas o desvendamento da crônica
secreta de animosidades entre governos – algo tão
antigo como a sua mesma existência – pode esperar;
não toda a eternidade, mas pode esperar.
O
que não pode esperar, nem muito menos deve ser tratado
como se fosse mercadoria do mesmo estoque, guardados do mesmo
baú, é o registro de seja lá o que disser
respeito às políticas e ações de
repressão dos golpistas de 1964 e seus sucessores –
sem excluir os atos de terrorismo paraestatal cometidos no governo
daquele último general que saiu pela porta dos fundos
e pediu que se esquecessem o seu nome.
Relevância
e urgência
A
liberação dessa papelada, das gravações,
filmes e vídeos em poder do Estado – que, embora
democrático, e, goste ou não, é o único
fiel depositário dos textos, sons e imagens dos anos
de chumbo que ainda não tiverem sido privatizados –
tem a mesma relevância e urgência invocadas para
a edição de medidas provisórias.
Relevância,
primeiro, em respeito às vítimas diretas e indiretas
dos braços repressivos, fardados e paisanos, que obedeciam
ordens superiores ou agiam com a sua tácita aprovação;
segundo, porque só se podem esquecer, se é disso
que se trata, sofrimentos conhecidos e só se podem virar
páginas já lidas; terceiro, porque saber é
um verbo intransitivo: o que os brasileiros farão com
o que vierem a saber de seu passado relativamente recente não
pode servir de pretexto para limitar o seu acesso a respeito.
E
urgência porque o caso das fotos do falso Vlado Herzog
no Correio Braziliense revelou algo de que se poderia desconfiar,
mas até então não era politicamente correto
comentar: que o passado não passou nas cabeças
de um certo número de oficiais da ativa (para não
falar dos pijamas crispados da tigrada da organização
Guararapes).
A
primeira nota do Exército demonstrou que ainda hoje ocupam
posições na hierarquia militar senhores que nada
esqueceram e nada aprenderam. Já que o país acaba
de (re)conhecer as suas idéias, é urgente que
(re)conheça também os fatos delas indissociáveis.
A plena informação, no caso, terá os mesmos
poderes medicinais do veneno de cobra usado contra picada de
cobra.
E
se é para extinguir rancores de parte a parte, em nome
da pátria comum, mire-se o Brasil na África do
Sul. Para passar o apartheid a limpo, o instrumento foi a Comissão
da Verdade e Reconciliação instituída no
governo Mandela. Note-se o nome: uma coisa precede a outra.
Por
fim, é vantajoso para o governo separar os arquivos da
repressão dos demais e criar procedimentos diferentes
para a sua liberação. Pelo menos os diplomatas
já não terão motivos para formar com os
militares a frente de resistência que mostrou a sua força
na longa noite palaciana da última quinta-feira. (Salvo,
quem sabe, quanto aos documentos sobre a participação
brasileira na Operação Condor.)
Pode
até não ser verdade que os povos que desconheçam
a própria história estejam condenados a repeti-la.
Mas, por via das dúvidas, convém não facilitar.
E a imprensa, que não se cansou de invocar a democracia
para fulminar como liberticida o projeto do Conselho Federal
de Jornalismo, tampouco pode fugir da linha de frente na batalha
dos arquivos.
[Texto
fechado às 13h18 de 11/12]
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