|
Informação:
Observatório
da Imprensa - 07/12/2004
NOTAS
DE UM LEITOR
Lula dá aula tosca de jornalismo
Luiz
Weis
Luiz
Inácio Lula da Silva não é o primeiro,
nem será o último chefe de governo brasileiro
a reclamar que a imprensa só enxerga o lado ruim das
coisas. A repetição não torna a queixa
mais verdadeira; apenas mais enfadonha.
Pensando
bem, tem até um lado bom: é sinal de que, com
seus acertos e erros, e estes últimos não são
poucos, a imprensa apura, divulga, analisa e julga os acontecimentos
que lhe parece de interesse público segundo os seus próprios
critérios – dos quais o leitor deve ser o único
juiz. E não segundo os critérios do governante
de turno; nem, o tempo todo, de quaisquer outras forças
que também gostariam que a mídia visse as coisas
pelos seus olhos.
No
dia em que os poderosos só tiverem elogios para os jornalistas,
algo estará errado – com os jornalistas.
Na
moita
Enquanto
o governo não puder coagir os meios de comunicação
a alardear o que lhe convém, sob o eterno argumento de
que é para o bem do país, e a esconder o que o
envergonha, esse gênero de comentário continuará
a ser recebido pelos profissionais velhos de guerra como um
dos tais ossos do ofício a serem encarados com filosófica
resignação.
Em
outras palavras, enquanto os palácios não dispuserem
dos meios de "orientar, disciplinar e fiscalizar"
a atividade de informar, produtores e consumidores de informação
poderão conviver sem susto com a contrariedade dos governantes.
Ainda
assim, a mídia não deu o troco devido à
mais recente acusação de Lula à imprensa
– mais recente porque ele já se permitiu chamar
de "covardes" os jornalistas brasileiros por não
terem cerrado fileiras em torno da proposta do Conselho Federal
de Jornalismo.
Desta
vez, ele aproveitou a abertura do Fórum Mundial de Turismo,
em Salvador, na semana passada, para culpar a imprensa por noticiar,
com o destaque que entende ser adequado, fatos e situações
que desestimulariam os estrangeiros a visitar o país.
A começar da violência endêmica no seu mais
belo cartão-postal, o Rio de Janeiro.
"Nós
aprendemos a disseminar o ruim", disse Lula, perdendo uma
boa ocasião de morder a língua.
Em
primeiro lugar, jornalistas sérios, nas sociedades democráticas,
são aqueles que disseminam da melhor maneira o importante,
o que é notícia, boa ou ruim para quem quer que
seja.
Segundo,
não é pela imprensa brasileira que o turista em
potencial toma conhecimento do crime nas ruas e de outras mazelas
que o farão pensar duas vezes antes de (não) vir
para cá: a mídia de seus países já
o faz com suficiente contundência valendo-se dos seus
correspondentes e serviços noticiosos.
Ainda
no último domingo, o La Nación de Buenos Aires
deu, com chamada na primeira página, a reportagem "O
perigo de ser turista no Rio de Janeiro". O correspondente
do jornal no Brasil, Luis Esnal, ouviu o cônsul argentino
Agustín Molina: "Apesar de ainda não haver
começado a alta temporada, estamos recebendo pelo menos
três casos por semana de argentinos assaltados."
Como
dois mais dois são quatro, vieram as reações
indignadas. O secretário municipal de Turismo Rubem Medina
acusou a matéria de ser "mentirosa" e obedecer
a "interesses econômicos". De pasmar: "[Os
argentinos] querem barrar o turismo. Eles devem estar achando
que está vindo muito turista para cá".
O
prefeito Cesar Maia disse que "os dados permanentes do
corredor turístico do Rio são melhores do que
os de Buenos Aires. As taxas são baixas e se equivalem
a grandes cidades dos Estados Unidos e da União Européia."
Corredor
turístico é bom. Agora, conta outra, prefeito.
O
governo do Estado se saiu melhor: parece que ficou quieto. Antes
isso do que a fúria da governadora Rosinha Garotinho
diante da recente reportagem do Independent de Londres sobre
a droga no Rio.
"Desgraças
que existem"
De
volta a Lula. Se o presidente sabe que "isso" (o crime)
"acontece em qualquer lugar", é em razão
do que divulgam os periódicos e telejornais brasileiros,
com base no mesmo tipo de fonte a que os equivalentes estrangeiros
recorrem para falar do Brasil. Ou ele ignora o ciclo global
e instantâneo de coleta e disseminação da
informação de hoje em dia?
Justiça
se lhe faça, Lula não pediu que se negassem "as
desgraças que existem". Injusta foi a sua investida
específica contra as emissoras de TV. "Se a pessoa
ficar apenas assistindo à televisão", atacou,
"vai achar que no Nordeste só tem seca, no Rio só
tem violência e em São Paulo só tem seqüestro."
Por
mais que a mídia eletrônica aborde essas questões,
principalmente as relacionadas com a criminalidade – e
como poderia deixar de fazê-lo? – elas estão
longe de ocupar todo o tempo que as emissoras dedicam ao jornalismo.
Emendando,
o presidente se saiu com essa: "Ou seja, entre a seca e
a enchente não existe nada. Mas tem sim".
E
quando seria de esperar que mencionasse progressos materiais
e exemplos de modernização que ele acha que o
noticiário ignora – o que tampouco é verdade
– eis o que lhe ocorreu dizer: "Tem praias maravilhosas,
recantos históricos, cidades belíssimas".
Só
faltou citar a alegria, espontaneidade e índole hospitaleira
do povo, além do charme e do veneno da mulher brasileira.
"É
isso que precisamos divulgar", completou, como quem sugere
que jornais, revistas, emissoras de rádio e TV devam
competir com a Embratur ou fazer o serviço das agências
de viagem.
Faça
o seu governo o que deve para combater "as desgraças
que existem" em vez de dar aulas (toscas) de jornalismo
a quem delas não precisa.
[Texto
fechado às 13h25 de 6/12]
|