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O jeitinho brasileiro de fazer televisão.


 

Informação: Revista Imprensa - Nov/2004

José Marques de Melo,
de São Paulo

A televisão brasileira conquistou projeção mundial, exportando programas para mais de uma centena de países, o que traduz o reconhecimento da competência e criatividade dos nossos produtores audiovisuais. As telenovelas, mini-séries, musicais e documentários, embalados com o selo verde-amarelo, suscitam também o interesse dos especialistas em comunicação comparada. Eles procuram compreender sua aceitação em mercados tão díspares quanto os vizinhos hispano-americanos, as distantes nações luso-africanas ou os multifacetados países do leste europeu.

O êxito comercial da nossa indústria televisiva pode ser explicado pela singularidade dos conteúdos exportados, mesclando valores universais com a exuberância da nossa paisagem e o exotismo dos tipos humanos que a povoam. Se este argumento valida a tomada de decisão dos agentes que selecionam pacotes videográficos para exibir em seus territórios, ele não é suficiente para justificar a adesão persistente dos consumidores forâneos aos nossos produtos. A chave desse enigma pode estar na configuração dos formatos televisivos aqui gerados, reproduzindo de modo criativo as matrizes hegemônicas no mercado internacional ou a elas assemelhando-se, inequívocamente.

Foi a partir dessa hipótese que José Carlos Aronchi esboçou sua pesquisa para a dissertação de mestrado, defendida em 1997, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo. Contando com a orientação segura e, submetendo-se à crítica instigante da professora Anamaria Fadul, responsável pela implantação do Núcleo de Pesquisa em Telenovelas da USP, ele palmilhou a literatura especializada em gêneros e formatos televisivos. Desvendou o referencial taxionômico legitimado pela academia, tomando-o como suporte investigativo para explorar empiricamente o universo televisivo brasileiro. Sua meta: verificar como práxis e teoria se amoldavam ou se estranhavam.

Tal exercício analítico convergiu para a feitura de uma grade elucidativa da programação da TV brasileira, classificando funcionalmente as unidades de conteúdo segundo categorias comunicacionais e nelas identificando quais os gêneros e formatos constituídos. Trata-se de contribuição valiosa, ainda que provisória, para a formação universitária dos profissionais da comunicação, que enfrentam a carência de fontes autóctones capazes de subsidiar o aprendizado da produção e difusão de mensagens televisivas.

O autor de "Gêneros e Formatos na Televisão Brasileira" constrói uma tipologia dos nossos programas de TV, demonstrando sua filiação às matrizes hegemônicas no mercado mundializado. Oferece, também, um roteiro capaz de motivar os jovens pesquisadores da mídia audiovisual a reproduzir suas observações no tempo e no espaço, acumulando dados suscetíveis de aguçar a identidade brasileira nesse campo. Sua decisão de revisar as descobertas feitas na pesquisa, datada de 1997, atualizando-as para circular sob a forma de livro, representa uma iniciativa meritória.

Os estudantes dos cursos de rádio, televisão e vídeo dispõem agora de um texto sistemático destinado a guiá-los no reconhecimento dos gêneros e formatos, cotidianamente difundidos pelas nossas redes televisivas. Eles estão desafiados a inovar nos exercícios laboratoriais prescritos pelos respectivos mestres nas universidades em que estão matriculados. Desta maneira, talvez seja possível à nova geração de videastas brasileiros criar gêneros folkmidiáticos menos colados nos formatos globalizantes e mais próximos daqueles gêneros típicos da nossa cultura popular. Modelos endógenos não lhes faltam. Basta inspirar-se nas ousadias ficcionais outrora esboçadas por um roteirista como Dias Gomes e hoje aprofundadas por um diretor como Guel Arraes.

O livro de Aronchi pode também vir a ser fonte útil aos telespectadores-cidadãos, interessados em conhecer as entranhas da produção audiovisual, suas rotinas operacionais, estratégias mercadológicas e determinações tecnológicas, vindo a formar correntes de opinião retro-alimentadoras da consciência crítica dos produtores audiovisuais.

Deve-se registrar, finalmente, que o livro aqui referido constitui uma evidência do pragmatismo utópico enraizado na ação cognitiva do Grupo Comunicacional de São Bernardo, a que pertence o autor. O perfil acadêmico do grupo pode ser compreendido na antologia coordenada por Marques de Melo & Castelo Branco, "Pensamento Comunicacional Brasileiro: o Grupo de São Bernardo", de 1998, devidamente ampliado na edição especial da revista "Comunicação & Sociedade" e atualizado pela coletânea organizada por Marques de Melo & Gobbi, "Pensamento Comunicacional Latino-Americano: da Pesquisa-denúncia ao Pragmatismo Utópico", em 2004.

Formado em uma escola que valoriza, dialeticamente, o embate entre ação e reflexão, Aronchi credenciou-se para enfrentar o mercado de trabalho audiovisual, conquistando espaços alentadores nas empresas do ramo antes de optar pela docência universitária. A vivência na sala de aula, nos estúdios televisivos e na pesquisa de campo embasaram sua ascensão na comunidade acadêmica. Ainda jovem, passou a ocupar posição de realce na liderança da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM). Ele, atualmente, integra a equipe docente da UniNove, centro universitário paulistano. Ao enveredar pelo segmento editorial, socializando o conhecimento estocado em seus estudos seminais com os candidatos a postos de criação, produção e circulação nas indústrias videográficas, ele pretende alcançar novos patamares na sua trajetória intelectual.

Tendo acompanhado, progressivamente, essa ascensão acadêmica do autor, senti-me orgulhoso em afiançar, no prefácio da obra, sua investida no terreno da difusão bibliográfica, como venho fazendo com outros estudiosos da sua geração. Assim procedendo, tenho a certeza de estar edificando uma base editorial capaz de reduzir a nossa escandalosa dependência em relação às fontes d´além mar, cujo referencial mostra-se defasado das nossas aspirações coletivas e distanciado das nossas potencialidades inovadoras.