| Informação:
Caros
Ouvintes - 09/11/2005
Por
Luiz Artur Ferraretto
Na
esquina, lá em cima, ergue-se o casarão adaptado
para abrigar a PRH-2 – Rádio Sociedade Farroupilha.
Ali, dentro do estúdio, desde o ano anterior, o responsável
pela Revista do Globo transforma-se no Amigo Velho e improvisa
estórias para a Hora Infantil da emissora. Muitas delas
aparecem em livros como As Aventuras do Avião Vermelho,
Os Três Porquinhos Pobres ou Rosa Maria no Castelo Encantado,
editados na Coleção Nanquinote. No programa, funciona,
ainda, o Clube dos Três Porquinhos, que confere diplomas
aos ouvintes-mirins, que a ele se associam.
Naquele
ano, no entanto, o escritor vai se tornar uma das primeiras
vítimas do Estado Novo, justamente graças à
Hora Infantil, da Farroupilha, como relembraria Maurício
Rosemblatt:
– A censura queria que Erico submetesse primeiro a eles
os contos que improvisava ao microfone. Erico não aceitou
a imposição. Foi para o microfone, fez um manifesto
de protesto contra a censura, contra o tolhimento da liberdade
do cidadão, e se despediu do programa, o que diminuiu
sua renda mensal e sua fé no bicho homem.
Em
sua autobiografia Solo de Clarineta, o próprio Erico
vai lembrar o episódio com uma frase perfeita a definir
a censura e os regimes autoritários:
– Como as ditaduras temem as palavras!
O
protesto radiofônico do escritor incomoda os agentes da
Delegacia de Ordem Política e Social, valendo a Erico
uma interpelação policial:
– Quero que me fales com toda a franqueza. És ou
não comunista?
A
pergunta do “zeloso” agente da polícia política
faz o escritor dar de ombros e ganhar as ruas, deixando para
trás a repartição pública, então
situada a pouco mais de uma quadra dos estúdios da Farroupilha.
O incidente fica por aí mesmo, um pouco respaldado pelo
trabalho na Livraria do Globo, da família Bertaso, e
na amizade pessoal de Erico com o policial.
Anos
mais tarde, quando suas estórias infantis são
recompiladas pela Globo, em um volume da Coleção
Catavento, Erico explica a origem das estórias, muitas
testadas ao microfone da PRH-2:
– Escrevi estes contos no tempo em que os desenhos animados
coloridos de Walt Disney atingiam o seu apogeu, e creio que
não errarei se afirmar que minhas histórias seguem
o espírito surrealista dos cartoons daquele admirável
criador de fantasias. Destinei minhas narrativas a crianças
entre quatro e dez anos. Quero dizer, escrevi-as de tal modo
que, se uma pessoa adulta ler esses contos para crianças
ainda não alfabetizadas, estão poderão
compreendê-los. Testei quase todas essas histórias
com meninos e meninas das mais variadas idades.
Nas
décadas seguintes após a experiência da
Hora Infantil da PRH-2, constituindo-se em um dos principais
escritores do país, autor e obra inserem-se como assunto
na programação das emissoras. Não aparecem
apenas como notícia à medida que se sucedem êxitos
literários, como o representado pelos três volumes
de O Tempo e o Vento. Em 1957, por exemplo, são tema
de uma das candidatas do programa de perguntas e respostas Dê
Asas à sua Inteligência, na Guaíba. Na mesma
emissora, uma conversa do jornalista Flávio Alcaraz Gomes,
em 1º de outubro de 1975, marca um feito do rádio
do Rio Grande do Sul. No aniversário do jornal Correio
do Povo, o enviado da Guaíba é o primeiro repórter
brasileiro a falar ao vivo da China Comunista. E escolhe para
conferir mais significado ainda ao momento conversar com o autor
de O Tempo e o Vento:
– Alô, Flávio. Um abraço pelo dia
de hoje. Mundo velho sem porteira, hein?
De
fato, um mundo velho sem porteira mesmo, não só
em termos de telecomunicações. Quatro décadas
antes, o mesmo Flávio colecionava lançamento após
lançamento da Coleção Nanquinote e não
perdia uma Hora Infantil da Farroupilha, como ouvinte e como
sócio do Clube dos Três Porquinhos.
Aquela
conversa, no entanto, varando quilômetros de distância,
acabaria marcando um dos últimos contatos do Amigo Velho
com os ouvintes gaúchos. Pouco depois, em 28 de novembro,
Erico Verissimo morre vítima de um ataque cardíaco.
Neste 2005, passados 30 anos daquela data, e uma centena da
de nascimento do escritor – 17 de dezembro de 1905 –,
ele está de novo na pauta das rádios do Rio Grande
do Sul, mais vivo do que nunca, com perdão do clichê.
Luiz
Artur Ferraretto.
Diretor do curso de Comunicação Social da Universidade
Luterana do Brasil, em Canoas, na Região Metropolitana
de Porto Alegre. É doutor em Comunicação
e Informação pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (Ufrgs). Foi repórter da Rádio Gaúcha
e gerente de Radiojornalismo da Rede Bandeirantes/ RS. Com a
jornalista Elisa Kopplin, escreveu Técnica de redação
radiofônica e Assessoria de imprensa, teoria e prática.
Lançou também Rádio – O veículo,
a história e a técnica e Rádio no Rio Grande
do Sul (anos 20, 30 e 40): dos pioneiros às emissoras
comerciais.
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