| Informação:
Valor
Online - 10/11/2005
Companhias
tentam 'domar' blogs.
João
Luiz Rosa e Ricardo Cesar De São Paulo
Até
agora defensivas em relação às novas tecnologias
de "redes sociais" na internet - serviços como
comunidades virtuais e blogs, em que os usuários publicam
o seu próprio conteúdo e estabelecem relacionamentos
on-line -, as empresas começam a tentar empregar esses
recursos a seu favor. No Brasil, o sinal de alerta foi disparado
por fatores como o sucesso do Orkut, serviço do Google
que se tornou uma febre e atrai mais de 6 milhões de
pessoas mensalmente.
Algumas
empresas já estão mapeando o que os internautas
publicam em seus sites pessoais para detectar e tentar neutralizar
a proliferação de informações negativas
e boatos, que se espalham rapidamente nesses serviços.
Outras utilizam o próprio Orkut para divulgar produtos
e eventos.
Essas
novas tecnologias de internet também começam a
ser empregadas por grandes companhias. Na IBM, mais de 4 mil
funcionários publicam blogs em que divulgam informações
e opinam livremente sobre os mais variados temas. A empresa
avalia que isso facilita a troca de idéias, estimula
a criatividade e dá oportunidade de visibilidade a todos,
independente do nível hierárquico.
Blogs
ganham espaço em redes internas.
De
São Paulo
Mais
de 4 mil funcionários da IBM em todo o mundo, inclusive
no Brasil, compartilham informações e expressam
livremente suas opiniões sobre os mais variados assuntos.
É a rede interna de blogs da empresa, que surgiu desordenadamente
há mais de dois anos e transformou-se em um importante
canal de comunicação para quem trabalha na companhia.
Há
alguns meses, percebendo a dimensão que a novidade tomou,
a "Big Blue" sentiu a necessidade de estabelecer algumas
regras que norteassem o uso da ferramenta. Para preservar ao
máximo a liberdade de expressão - a essência
da prática de publicar blogs -, a empresa pediu que os
próprios funcionários sugerissem as normas.
Depois,
compilou tudo e publicou os 11 mandamentos de seus "bloggers".
As regras exigem que os adeptos desse recurso deixem claro que
suas opiniões não são necessariamente as
mesmas da companhia, sejam educados e evitem revelar informações
sigilosas. "Confiamos em nossos funcionários para
fazer a coisa certa. Não monitoramos o que as pessoas
publicam nos seus blogs", afirma James Finn, vice-presidente
de comunicação corporativa da IBM.
Renato
de Paula, diretor da agência de propaganda Ogilvy One
para a América Latina, concorda com o procedimento. "O
blog é uma excelente ferramenta de marketing interno
e promove um intercâmbio importante, mas há riscos
na comunicação", diz. "Estamos aprendendo
que as empresas precisam de regras, ou os funcionários
podem extrapolar."
Finn,
da IBM, acredita que os blogs trazem benefícios importantes
para os empregados - e, por extensão, à própria
empresa. Além de facilitar a troca de idéias e
a colaboração entre funcionários espalhados
por todo o mundo, o recurso garante um meio de dar visibilidade
a pessoas de qualquer nível hierárquico.
A
experiência da IBM mostra que os blogs e outras ferramentas
parecidas podem ser usadas para aumentar a produtividade das
companhias. "As intranets das empresas já oferecem
muitas formas de colaboração que permitem trazer
à tona uma espécie de inteligência coletiva",
diz Marcello Póvoa, da MPP Solutions, empresa especializada
em projetos de mídia interativa.
Com
esses recursos, as companhias podem resolver mais rapidamente
seus problemas internos e evitar a realização
do mesmo trabalho por diferentes equipes, principalmente no
caso de empresas muito grandes, com filiais espalhadas em vários
países.
"Vamos
supor que o executivo brasileiro de uma empresa de petróleo
não sabe como resolver um problema", afirma Póvoa.
"Pelas ferramentas de colaboração, é
possível fazer uma busca de pessoas por habilidades e
identificar alguém que já tenha passado por uma
situação semelhante na Índia, por exemplo.
Com isso, é possível ganhar tempo e reduzir despesas",
explica o executivo. (RC e JLR)
Brasil
é líder mundial em sites de relacionamento.
De
São Paulo
As
comunidades virtuais - serviços na web em que os usuários
agrupam-se segundo temas de interesse comum e publicam seu próprio
conteúdo - tornaram-se uma verdadeira febre no Brasil.
É o que mostra um estudo da Nielsen NetRatings, que atua
em parceria com o Ibope, segundo o qual 8,3 milhões de
brasileiros acessaram esse tipo de página em setembro
de 2005 - o equivalente a 70% do total de internautas residenciais
do país. Trata-se da mais alta porcentagem de acesso
a comunidades virtuais em todo o mundo.
O
grande destaque é o Orkut, pertencente ao Google: com
6,1 milhões de usuários, mais que o dobro do segundo
colocado, é o site de comunidades mais acessado do país.
Para se ter uma idéia de como o serviço contagiou
os brasileiros, nos Estados Unidos, sua terra natal, o Orkut
possui menos de 20 mil usuários mensais.
No
Brasil, as comunidades são mais populares entre adolescentes
e jovens. Quase 86% dos internautas na faixa etária entre
12 e 24 anos visitaram sites de comunidades virtuais em setembro.
Mas esse tipo de serviço também é utilizado
por pessoas com mais idade, sendo acessado por 62% dos usuários
de web com 50 anos ou mais nesse período.
Além
disso, as comunidades lideram em tempo de permanência
dos internautas domiciliares no Brasil entre todas as categorias
medidas. Em média, os usuários gastam cerca de
três horas e meia por mês em páginas de comunidades
on-line. O segundo lugar, com pouco mais de duas horas, fica
com os e-mails. Portais de interesse geral têm uma hora
e meia de permanência média mensal.
Outro
dado que chama a atenção é o elevado índice
de internautas com acesso via internet em alta velocidade entre
os visitantes de comunidades virtuais. No Brasil, aproximadamente
72% das pessoas que entraram no Orkut em setembro valeram-se
de uma conexão em banda larga para navegar pelo serviço.
Apesar
de todos os indicadores que mostram a força das comunidades
virtuais, as empresas ainda têm dificuldades de explorar
comercialmente esse produto. O Google, por exemplo, já
declarou que ainda não tem planos específicos
para ganhar dinheiro com o Orkut, que é gratuito.
Os
levantamentos da Nielsen também não permitem apontar
os motivos que levam tantos brasileiros a freqüentar as
comunidades on-line e permanecer um longo período nelas.
"O
que sabemos é que a internet está deixando de
ser um canal de distribuição de conteúdo
para tornar-se uma plataforma de serviços e relacionamento.
As comunidades crescem com isso", afirma Marcelo Coutinho,
diretor executivo do Ibope Inteligência.
Coutinho,
no entanto, tem uma hipótese pessoal para o fenômeno:
o perfil básico do usuário nacional de internet
é composto por cidadãos das classes A e B que
moram em centros urbanos. "Qual é o espaço
existente para socializar nas grandes cidades brasileiras? Com
a violência e a insegurança, as áreas públicas
de uso comum são cada vez mais escassas. As comunidades
virtuais são um substituto pobre para isso", diz
o executivo, que é mestre e doutor em sociologia. "Cada
vez mais pessoas usam a web para encontrar outras com hábitos
e interesses similares."
Para
monitorar o comportamento dos iternautas brasileiros, o Ibope
NetRatings - parceria do instituto de pesquisas com a Nielsen
no país - usa um software instalado em 4 mil computadores
de pessoas que formam uma amostra representativa da população
nacional com acesso à internet nos domicílios.
(RC)
Companhias
flertam com a blogosfera.
João
Luiz Rosa e Ricardo Cesar De São Paulo
Não
é de hoje que companhias de todos os setores têm
dito e repetido que o consumidor é rei. Mas com o avanço
dos novos canais de comunicação proporcionados
pela internet - especialmente os blogs, os sites de comunidade
e os bate-papos virtuais - parece que as empresas estão
mais atentas ao que a nobreza do consumo tem a dizer.
O
motivo é simples: com acesso imediato a milhões
de outros consumidores via web, um único cliente insatisfeito
ou mal-intencionado pode devastar a imagem de uma empresa. E
como os blogs não param de multiplicar-se - existem pelo
menos 9 milhões deles no mundo e 40 mil são acrescentados
diariamente, segundo dados de mercado -, as empresas não
querem correr riscos. O resultado é que um número
crescente de companhias tenta ingressar no mundo da blogosfera.
"Existe
uma dificuldade para controlar essas tecnologias, que têm
um caráter subversivo", afirma Abel Reis, vice-presidente
de tecnologia e projetos da AgênciaClick, especializada
em mídia digital. "É difícil impedir
que falem mal de uma marca, mas é possível criar
condições positivas que se sobreponham a uma ou
outra eventual crítica."
A
própria AgênciaClick já fez sua estréia
na área e está levantando tudo o que é
publicado no Orkut - o site de relacionamento do Google que
é adorado pelos brasileiros - sobre uma grande empresa,
cujo nome não é revelado. "Queremos detectar
conceitos não-desejáveis nas comunidade virtuais",
diz Reis. A agência está fazendo um diagnóstico
para, depois, sugerir uma lista de medidas ao cliente. Uma das
ações em estudo é destacar um profissional
para entrar no Orkut - eventualmente sem ser identificado como
alguém a serviço da empresa - para contestar eventuais
queixas e boatos.
Na
Redecard, que processa cartões de bandeiras como Mastercard,
um projeto diferente está em curso: a empresa começou
a catalogar blogs que fazem diferença para seus negócios.
"Estamos fazendo o trabalho de identificar os principais
blogueiros", diz Luiz Buono, gerente de planejamento da
Fábrica Comunicação Dirigida, uma agência
de marketing direto e relacionamento. Com o levantamento em
mãos, a idéia é oferecer patrocínio
e, quem sabe, propor a criação compartilhada de
conteúdo com os autores dos blogs.
Para
lidar com os blogs, é preciso ser ágil, recomendam
os especialistas. "Na web e nos blogs não existe
amanhã. A capacidade de fazer diagnósticos e responder
é que vão fazer as empresas vencedoras",
diz Fabiano Coura, também da Fábrica Comunicação.
Um
exemplo positivo vem da MTV, cita o executivo. Na entrega do
prêmio VMB, ocorrida no fim de setembro, o ator Selton
Mello usou a expressão "mongolóide",
enquanto apresentava o espetáculo. O uso provocou mal-estar
e protestos, o que levou a emissora a fazer circular um pedido
de desculpas que acabou reproduzido em blogs, amainando o problema.
Evitar
incêndios, no entanto, está muito longe de esgotar
a capacidade dos novos canais da web. Em vez de apenas reagir,
as empresas farejaram uma oportunidade de arrebanhar pessoas
de seu público-alvo por meio das comunidades virtuais.
Para
a vodka Orloff, a agência Ogilvy criou uma comunidade
na web voltada ao público jovem. O internauta tem acesso
a grupos organizados pelo tipo de música preferida e
locais favoritos, entre outros critérios. A comunidade
traz informações sobre festas e eventos, dicas
de como preparar drinks e outros serviços. "Para
a Orloff, o mais interessante é entender o perfil de
seu público. Qualquer ação de marketing
depois disso será mais eficiente", diz Renato de
Paula, diretor regional da Ogilvy One para a América
Latina.
Na
Unilever, para quem a agência trabalha em um programa
de relacionamento com os clientes, a iniciativa foi batizada
de "Diva" e está orientada ao público
feminino. O trabalho na internet complementa a ação
feita com uma revista impressa, enviada a clientes. Na web,
elas podem comunicar-se e trocar informações.
A
AgênciaClick também resolveu casar ações
convencionais com os novos recursos on-line. Para promover a
marca Fiat em Belo Horizonte, a agência contratou um ator
e criou um "persongame", o "Dr. Amor", que
circula em bares, festas e eventos. Em seguida, criou uma comunidade
para o personagem no Orkut.
De
olho no interesse das companhias, há empresas de tecnologia
que fizeram do relacionamento seu negócio central. A
Grupos Internet, que já administrava o site grupos.com.br
- que reúne 150 mil grupos de interesse, com 6,5 milhões
de usuários -, criou a divisão Enturma para ofertar
serviços a escolas.
As
instituições podem oferecer contas de e-mail aos
alunos, enquanto os professores conseguem armazenar material
didático em discos virtuais, de fácil acesso pelos
estudantes, diz Luis Fernando Pacheco Pereira, diretor comercial
do Enturma.
Mesmo
que maneira incipiente, as ferramentas on-line já estão
servindo até para elevar as vendas. É o que a
construtora e incorporadora Tecnisa experimentou com surpresa,
pela primeira vez, há cerca de dois anos. Na época
- como ocorre até hoje -, a empresa usava em seu site
uma sala de bate-papo para fornecer informações
aos interessados e coletar dados dos potenciais compradores
dos apartamentos.
Para
cada empreendimento é criado um personagem específico,
que ganha um nome próprio e fotos na internet, feitas
por um modelo com a aparência de uma pessoa comum. O usuário
tem a impressão de que está falando com um único
atendente, mas isso é ficção. Na verdade,
o atendimento é feito por uma equipe que segue um roteiro
feito por jornalistas, com a possibilidade de improvisar quando
necessário, explica Daniela Schmtiz, diretora de planejamento
da Sociedade da Comunicação, a agência de
relacionamento responsável pela estratégia.
No
caso mais marcante, a construtora estava com dificuldades para
vender os apartamentos de um prédio localizado em um
bairro nobre de São Paulo. Por meio do bate-papo virtual
ou chat, percebeu-se que os casais jovens - o público-alvo
do empreendimento -, interessava-se pelo edifício, mas
desistia por causa do preço. A sugestão foi direcionar
o empreendimento para outro público, com links em sites
voltados à comunidade homossexual. Deu certo e os apartamentos
logo foram vendidos.
Além
de colher dados, o chat ajuda a criar um relacionamento mais
forte com o consumidor. "Depois de fechar o negócio,
muitos clientes convidam o atendente para jantar na casa nova,
sem desconfiar de que ele não existe", diz Daniela.
"Há até caso de gente que já mandou
flores para o personagem".
Para
jornais, desafio é integrar-se com a web.
De
São Paulo
O
avanço dos blogs entre os usuários de internet
tem levado as empresas de mídia a perguntar-se com insistência
cada vez maior: os diários virtuais e as novas ferramentas
da web vão disputar espaço com jornais e revistas
e, eventualmente, substitui-los na preferência do leitor?
A
resposta, segundo especialistas em comunicação,
é negativa, mas isso não quer dizer que tudo vai
continuar do jeito que está. "A internet e os blogs
não são inimigos dos jornais diários, mas
só terão futuro as companhias jornalísticas
que forem capazes de integrar suas redações on
e off-line", diz o espanhol Juan Antonio Giner, diretor
da consultoria Innovation International Media. "Os 'monomídia'
vão desaparecer."
O
novo cenário será marcado por uma divisão
de tarefas, diz Giner: os meios on-line, por sua rapidez, ficarão
com as notícias do dia-a-dia, enquanto os jornais e revistas
se encarregarão de reportagens analíticas. "Como
no circo, é preciso matar os elefantes e recriar o espetáculo,
como fez o Cirque du Soleil", compara o consultor, numa
referência ao grupo canadense que deu novo alento aos
shows circenses depois de eliminar os animais e acrescentar
elementos do teatro às suas apresentações.
Sob
a lona da mídia, os blogs requerem cuidados adicionais.
"Um jornal sério não publica rumores ou,
se o faz, deixa claro tratar-se de um boato. Em um blog, um
rumor pode ocupar espaço nobre, o que é grave",
diz Mario Tascón Ruiz, diretor geral de conteúdos
da PrisaCom, empresa de distribuição digital do
grupo Prisa, que edita o diário espanhol "El Pais".
Tascón
recomenda aprender com os blogs - "eles são uma
ferramenta fantástica para a liberdade de expressão
e podem popularizar uma publicação" -, sem,
no entanto, copiar seus vícios. Vários jornais
europeus tentam seguir este caminho, diz o especialista. Um
dos mais adiantados é o francês "Le Monde":
o jornal já oferece uma ferramenta para que os leitores
criem seus próprios blogs, comentando as notícias
do jornal.
O
"El Pais" oferece um sistema pelo qual os leitores
podem "corrigir" os eventuais erros publicados e sugerir
correções à equipe de jornalistas. Um blog
também foi uma das opções escolhidas para
divulgar a emissora "Cuatro", um novo canal de TV
paga do grupo Sogecable, no qual o Prisa detém 24% de
participação. Três jornalistas alimentaram
o blog com vídeos, fotos e notícias para mostrar
passo a passo a montagem da emissora. "O canal saiu antes
na web do que na própria TV", diz Tascón.
(JLR)
Trocando
em miúdos
Blog - Trata-se de uma página individual na internet
ou na intranet (rede de computadores de uma empresa) em que
o responsável publica a informação que
desejar, como uma espécie de "jornal pessoal".
A atualização pode ser feita com a periodicidade
que o autor - o "blogger" - quiser, até várias
vezes por dia.
Comunidades
on-line - Serviços na internet que permitem que os usuários
criem páginas com informações pessoais
e agrupem-se conforme temas de interesse comum. Por meio do
serviço, os internautas criam comunidades específicas,
como "eu odeio a empresa x", que chegam a ganhar a
adesão de milhares de pessoas.
Chat
- Área de "bate-papo" na web em que os participantes
conversam em tempo real por meio de mensagens de texto. O que
é escrito por um internauta é lido e respondido
imediatamente.
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