|
Informação:
Estado de
São Paulo - 29/11/2004
Ethevaldo Siqueira
No
passado, era Antonio Carlos Magalhães. No governo FHC,
foi a vez de Pimenta da Veiga. Agora, com o presidente Lula,
tudo se passa exatamente como nos governos mais fisiológicos
do passado – em especial os de Sarney e de Itamar –
que utilizaram largamente o Ministério das Comunicações
como moeda de troca ou barganha política.
-
No passado, era Antonio Carlos Magalhães. No governo
FHC, foi a vez de Pimenta da Veiga. Agora, com o presidente
Lula, tudo se passa exatamente como nos governos mais fisiológicos
do passado – em especial os de Sarney e de Itamar –
que utilizaram largamente o Ministério das Comunicações
como moeda de troca ou barganha política.
Desencantados,
os próprios petistas reconhecem que esse setor e sua
pasta não têm a menor importância nos projetos
do atual governo. Nesta altura, nem os mais sonhadores esperam
mudanças nesse cenário, pois o PT não dispõe
de quadros nem de programa digno desse nome para as comunicações.
Ignorados
e alijados pelo governo de Lula, os dois únicos líderes
petistas da área de telecomunicações –
deputados federais Walter Pinheiro (PT-BA) e Jorge Bittar (PT-RJ)
– não escondem seu desencanto com o desinteresse
total do presidente pelo setor. Reconhecem que este governo
nada tem feito em favor das Comunicações, especialmente
por escolher políticos totalmente despreparados para
ocupar o cargo de ministro, como Miro Teixeira (ex-PDT-RJ) e
Eunício Oliveira (PMDB-CE). Na mesma linha, os raros
petistas que entendem os conceitos básicos dessa área,
afirmam que o Ministério das Comunicações
continua inteiramente desprestigiado, esvaziado, levando o País
a caminhar para trás num setor vital da infra-estrutura
e do desenvolvimento social.
OS
MINISTROS
Ruidoso
e boquirroto, ao longo de sua gestão, Miro Teixeira polemizou,
atacou a Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) e invadiu as atribuições da agência
reguladora. Prometeu até a transmissão da Copa
de 2006 via TV digital e alta definição. Criou
um serviço inexistente no resto do mundo e que não
decolou até hoje: o Serviço de Comunicações
Digitais (SCD), nome que pode designar tanto a internet, quanto
qualquer transmissão digital de voz, dados ou imagens.
Seu
sucessor, Eunício Oliveira (PMDB-CE), negociador hábil,
está empenhado em fortaleceu o poder político
de sua pasta, recriando as diretorias regionais e tentando a
todo custo administrar os bilhões do Fundo de Universalização
das Telecomunicações, o Fust, ainda intocado desde
sua criação no ano 2000.
Definindo
o ministro com razoável precisão e ironia, assessores
do próprio Ministério dizem que “ele é
capaz de trocar uma reunião mundial da OMC sobre telecomunicações
em Genebra por uma reunião de prefeitos do PMDB no interior
do Ceará.” A propósito, a partir de amanhã,
se inicia, na Organização Mundial do Comércio
(OMC), evento destinado a rever as políticas comerciais
(Trade Policy Review), de grande repercussão e interesse
internacional, em especial no tocante à participação
de capital estrangeiro nas empresas de comunicações.
Para surpresa geral, nenhuma autoridade brasileira – nem
do Ministério das Comunicações nem da Anatel
– estará presente nesse evento.
A
REFORMA
Eunício
Oliveira deve ser substituído no Ministério das
Comunicações, embora possa ser aproveitado em
outra área considerada de maior potencial político
para o PMDB. Seu sucessor deve ser Aldo Rebelo, do PCdoB, atual
ministro da Coordenação Política. Como
num jogo de dominó, a saída de Carlos Lessa da
presidência do BNDES deu início praticamente a
uma nova reforma ministerial.
O
sonho do PMDB nessa nova reforma seria conquistar mais um ministério,
algo como o das Cidades, capaz de render ao partido e aos parlamentares
muito mais dividendos políticos e benefícios às
suas bases clientelistas.
Mas
o leitor não espere que, no novo ministério, Lula
escolha alguém que tenha lido uma única vez a
Lei Geral de Telecomunicações ou que entenda,
minimamente, a diferença entre empresa “concessionária”
e “autorizada”, no atual modelo regulatório.
COMO
EXCLUIR
Quando
se fala tanto em inclusão digital, nenhum País
adota procedimentos tão perversamente excludentes quanto
o Brasil na área de telecomunicações. Além
de não aplicar um centavo do Fust, o País adota
as mais elevadas alíquotas de impostos sobre telecomunicações
quanto o Brasil, em especial as do Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços (ICMS) que superam os 33% e,
somadas a outros tributos, podem arrancar do usuário
até 56% do valor da conta telefônica?
A
pergunta que temos repetido ao longo de anos é simples:
como baixar tarifas e universalizar os serviços com tributos
tão elevados? Como comercializar as 7 milhões
de linhas telefônicas excedentes que sobram desde 2001
no País, se o próprio governo encarece o serviço
e impede a redução de tarifas? Como falar em inclusão
digital, diante de uma política tributária deliberadamente
excludente?
E
A ANATEL?
Com
um projeto de lei inteiramente retrógrado no Congresso,
o governo Lula tenta esvaziar as agências reguladoras,
com o objetivo principal de reconquistar o poder político
perdido após a privatização dos diversos
setores de infra-estrutura. O mal que essas mudanças
podem causar ao Brasil é imenso. No caso da Anatel, a
simples substituição de conselheiros na diretoria
da agência leva meses e acaba trazendo quase sempre desapontamento
a quem esperava a elevação do nível médio
da diretoria do órgão regulador.
Embora
tenha promovido o concurso para consolidar o quadro efetivo
de pessoal da Anatel, o governo Lula vem esvaziando progressivamente
a agência. Para especialistas, como Renato Guerreiro,
ex-presidente desse órgão regulador, o País
está dando um passo atrás, pois “as agências
foram concebidas e implementadas nos últimos seis anos,
como fruto de um processo de amadurecimento de uma nova forma
de organização do Estado, inspirada nas experiências
bem sucedidas dos Bancos Centrais e de alguns reguladores mais
antigos.”
|