| Informação:
Folha de São Paulo - Ombudsman - 12/12/2004
MARCELO
BERABA
A
imprensa brasileira é corrupta? Ela pode ser comprada
por forças políticas, por grupos econômicos
ou pelo poder público?
O
chamado cidadão comum, aquele que se dispõe a
parar na rua para responder a uma pesquisa, acha que sim. Não
tão corrupta como os partidos políticos, a polícia
ou as casas legislativas. Mas, tanto quanto outras instituições,
a imprensa está bastante sujeita à corrupção.
Essa
é a percepção dos brasileiros entrevistados
por uma megapesquisa, em 62 países, coordenada e analisada
pela Transparência Internacional (www.transparency.org).
O resultado foi divulgado na quinta-feira, Dia Internacional
contra a Corrupção, e teve pouca repercussão
entre nós.
Em
uma escala de 1 a 5, em que a nota mais baixa indica lisura
e a mais alta muita corrupção, os entrevistados
foram instados a avaliar 15 instituições e setores.
No
nosso caso, os resultados mostram que os brasileiros são
muito desconfiados e acreditam que a corrupção
é quase generalizada. Na escala de 1 a 5, os partidos
políticos (4,5), a polícia (4,4) e o Legislativo
(4,2) ficaram com as piores médias. Esses números
indicam que é muito alto o percentual dos que acham que
essas instituições estão muito afetadas
pela corrupção.
Na
outra ponta, entre as instituições mais bem avaliadas,
a média também é uma lástima e não
justifica nenhuma comemoração. As entidades religiosas
e as ONGs tiveram média 3, e as Forças Armadas,
3,4. Entre esses dois extremos mal avaliados está a imprensa
brasileira, com 3,6.
Não
é a imprensa mais mal avaliada: os peruanos deram 4,2
(ou seja, quase o máximo de sujeição à
corrupção), os venezuelanos, 4, e os guatemaltecos,
3,7. Depois vem o Brasil, acompanhado da Costa Rica, da Coréia
do Sul e do México.
No
conjunto dos 62 países pesquisados, os meios de comunicação
tiveram média de 3,3 e ficaram exatamente na metade da
escala.
E
por que os brasileiros desconfiam assim de seus veículos
de comunicação? A pesquisa não responde.
Essa é uma questão delicadíssima e difícil
de ser tratada com precisão porque faltam elementos.
Não
existe uma imprensa brasileira, mas várias. A situação
dos grandes diários do Rio e de São Paulo, das
revistas semanais e das grandes emissoras é bastante
diferente daquela vivida pela imprensa regional e pela imprensa
das pequenas cidades, onde jornais e rádios são
mais vulneráveis.
Mas
a desconfiança hoje parece generalizada -e por duas razões
principais. Primeira, a falta de transparência. Raramente
a imprensa se expõe e noticia seus próprios podres.
Segunda, sua manifesta fragilidade, enfraquecida que está
por uma crise financeira que se prolonga.
A
avaliação negativa captada pela pesquisa da Transparência
Internacional não pode ser tomada como concludente, até
porque não esmiuça as motivações
dos que responderam ao questionário. Mas é um
alerta. Mais um.
Marcelo
Beraba é o ombudsman da Folha
desde 5 de abril de 2004. O ombudsman tem mandato de um ano,
renovável por mais dois. Não pode ser demitido
durante o exercício da função e tem estabilidade
por seis meses após deixá-la. Suas atribuições
são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores,
recebendo e verificando suas reclamações, e comentar,
aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.
Imprensa
e corrupção
Informação:
Folha de São Paulo - Ombudsman - 12/12/2004
E
a imprensa brasileira, ela cobre bem os casos de corrupção
das outras instituições? Apelo para nova pesquisa,
esta um levantamento feito pela Transparência Brasil para
a coluna com base no arquivo "Deu no Jornal", um banco
de dados com o noticiário publicado em 66 jornais e revistas
de todos os Estados sobre a corrupção e seu combate.
"Deu
no Jornal" começou a arquivar reportagens em janeiro
deste ano e tem um banco com mais de 16 mil notícias
disponíveis na internet (www.deunojornal.org.br).
É o arquivo mais completo sobre o assunto.
O
levantamento feito para a coluna separou as coberturas realizadas
pelos três grandes jornais, Folha, "Estado"
e "Globo". No período de nove meses (de 15/2
a 15/11), esses três jornais acompanharam 290 assuntos
diferentes (4.334 reportagens) a respeito de corrupção,
aí incluídas as notícias sobre políticas
de combate ao crime. A Folha é o jornal que mais reserva
espaço para esse tipo de cobertura. Faz parte de sua
tradição. No período, acompanhou 195 assuntos
e publicou 1.787 reportagens, uma média de seis a sete
reportagens por dia.
Mas
o "Estado" e "O Globo" estão muito
próximos. O "Estado" acompanhou 177 casos e
publicou 1.395 reportagens; e "O Globo", 172 e 1.152.
As
coberturas dos três focam principalmente os casos que
ocorrem em São Paulo e no Rio, os que envolvem a esfera
federal e os que atingem o Poder Executivo (Presidência,
governos estaduais e municipais).
Isso
significa dizer que esses jornais cobrem mal os escândalos
em outros Estados e municípios e que ainda dão
pouca atenção para o Poder Judiciário.
O
campeão absoluto de interesse foi o caso Waldomiro Diniz,
com 523 reportagens (nos três jornais), seguido de longe
pela Operação Vampiro (237) e pelo caso Banestado
(CPI e investigações da força-tarefa).
E
aí se percebe outra falha: são raras as investigações
jornalísticas que se iniciam nas empresas privadas. Uma
exceção foi o caso Kroll, um dos capítulos
do enfrentamento entre a Brasil Telecom e a Telecom Italia.
Marcelo
Beraba é o ombudsman da Folha
desde 5 de abril de 2004. O ombudsman tem mandato de um ano,
renovável por mais dois. Não pode ser demitido
durante o exercício da função e tem estabilidade
por seis meses após deixá-la. Suas atribuições
são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores,
recebendo e verificando suas reclamações, e comentar,
aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.
ENTREVISTA
Informação:
Folha de São Paulo - Ombudsman - 12/12/2004
A
maioria cobre mal a corrupção
Claudio
Weber Abramo é diretor-executivo da Transparência
Brasil e coordena o arquivo "Deu no Jornal".
Ombudsman
- Muitos leitores reclamam do excesso de reportagens com denúncias
de corrupção. Dizem que parece que todo mundo
é corrupto. Há excesso?
Claudio
Weber Abramo
- Não creio que haja excesso de cobertura. Na verdade,
o que o levantamento do "Deu no Jornal" mostra é
o contrário: a maioria dos 62 jornais brasileiros acompanhados
cobre corrupção muito mal, pouco freqüentemente
e com pouca constância. Os jornais que cobrem o tema com
regularidade -que são a Folha, o "Estado",
"O Globo", os veículos dos Diários Associados
e alguns poucos outros- reagem à importância que
o público confere ao tema. Em todo levantamento de opinião
que se faz, a corrupção aparece entre os primeiros
lugares na pauta de preocupações das pessoas.
Os jornais que cobrem pouco a corrupção erram
por não atenderem às expectativas de seus públicos.
Ombudsman - Os jornais têm alguma influência
na inibição da corrupção?
Abramo
- Sim, indiretamente. Ao apresentar os assuntos ao público
e aos formadores de opinião, a imprensa estimula reações
e cobranças. Caso os temas não fossem cobertos
pela imprensa, não haveria tal reação,
e os agentes públicos não seriam pressionados.
Quanto aos jornais cumprirem bem esse papel, não o fazem
uniformemente. Há Estados em que as oligarquias locais
dominam tudo, da política à imprensa. Nesses casos,
a imprensa não é independente e funciona como
sustentadora dos interesses dessas oligarquias. Já os
jornais com influência nacional e as revistas semanais
cumprem um papel importante.
Marcelo
Beraba é o ombudsman da Folha
desde 5 de abril de 2004. O ombudsman tem mandato de um ano,
renovável por mais dois. Não pode ser demitido
durante o exercício da função e tem estabilidade
por seis meses após deixá-la. Suas atribuições
são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores,
recebendo e verificando suas reclamações, e comentar,
aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.
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