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Informação:
Observatório
da Imprensa - 08/11/2005
Robson
Sávio Reis Souza (*)
[A
mídia] "quando se apropria, divulga,
espetaculariza, sensacionaliza ou banaliza os atos de
violência está atribuindo-lhes um sentido
que, ao circularem socialmente, induzem práticas
referidas à violência. Se a violência
é linguagem – forma de comunicar algo -,
a mídia ao reportar os atos de violência
surge como ação amplificadora desta linguagem
primeira, a da violência" (RONDELLI, E. Imagens
da violência: práticas discursivas. Tempo
Social, S.P, v. 10, n. 2. p. 145-157, out.1998). |
O
aumento estrondoso da criminalidade violenta, nos últimos
anos, trouxe para a agenda social a questão da segurança
pública. Outrora, assunto restrito a poucos atores, agora
a temática da segurança pública alcança
o centro das discussões, numa sociedade aflita em meio
a um estrondoso incremento da violência e criminalidade.
O resultado do referendo sobre a proibição do
comércio de armas de fogo e munição amplificou
um evidente clamor popular que exige medidas consistentes, duradouras
e claras no combate e na prevenção ao crime. A
mídia, percebendo a importância do momento histórico
(e principalmente o poder de vocalização dessa
demanda pela classe média – sua maior consumidora)
tem aprofundado as discussões sobre a questão,
pautando de forma cada vez mais constante a cobertura acerca
da segurança pública.
A
violência (e seus efeitos perversos) fragiliza as instituições
sociais. Isso sem falarmos na corrupção –
que atinge todos os níveis da administração
pública produzindo uma generalizada falta de credibilidade
e de confiança nas autoridades. Esses dois ingredientes
explosivos têm motivado muitos indivíduos a defenderem
a tese da auto-resolução dos conflitos, através
de meios ilegais, e, o mais grave, a quererem fazer justiça
com as próprias mãos.
Ao
tratarmos da segurança pública estamos nos referindo
às formas de prevenção e combate à
violência: tema que sempre provocou muita polêmica.
Alguns acreditam que a violência tem de ser atacada "em
suas raízes": a miséria, a exclusão
social, a má distribuição de renda, o desemprego.
Por outro lado, cresce o coro dos que pleiteiam a adoção
de políticas de segurança pública eficientes,
que levem em conta os problemas específicos de cada realidade
e, não menos importante, a necessidade de reformas profundas
no sistema de justiça criminal.
Porém,
todos os que lidam com o fenômeno da violência devem
compreender sua complexidade e a dificuldade no domínio
de todas as suas variáveis. Um outro problema é
a confiabilidade dos dados produzidos sobre crimes. É
difícil construir indicadores estatísticos representativos
e confiáveis. Daí se pode entender porque pesquisadores
e operadores da segurança pública têm chamado
atenção para a necessidade de produzir estatísticas
confiáveis e garantir a transparência na divulgação
dos dados sobre a violência.
Ademais,
a representação da violência pela mídia
altera a percepção que temos do fenômeno,
pois a cobertura nem sempre é representativa do universo
de crimes e sim dos eventos extraordinários e muitas
vezes pontuais.
Neste
contexto, a mídia pode se tornar uma das mais contundentes
formas de se propagar e, em até certo ponto, exaltar
a violência.
As
múltiplas facetas da violência
Como
espectadores, leitores, ouvintes, cidadãos e operadores
da segurança pública devemos compreender que a
cobertura do cotidiano violento das grandes cidades não
é tarefa fácil. Por trás de eventos violentos
outras questões estão ocultas, e dificilmente
podem ser contempladas em cada matéria ou reportagem
que envolve a abordagem do tema, pela mídia.
Ademais,
é mister entendermos que na análise da questão
não existe verdade absoluta, nem ponto de vista inquestionável
e irrefutável. Neste sentido, os operadores da segurança
pública, os especialistas e os jornalistas devem levar
em consideração uma série de questões.
Afinal, todos esses profissionais têm se debruçado
na tentativa de explicações lógicas para
um fenômeno múltiplo e complexo. As dificuldades
em abordá-lo não justificam, porém, as
simplificações e generalizações
grosseiras e, muitas vezes, tendenciosas.
Apresentamos,
a título de ilustração, uma síntese
da complexa teia de fatores intervenientes no fenômeno
da violência e criminalidade. Para tanto, usamos o modelo
proposto pelo cientista francês Jean-Claude Chesnais,
conceituado demógrafo e especialista em violência
urbana. Ele traçou um estudo sobre a violência
criminal no Brasil, apontando seis causas como fatores responsáveis
pela atual situação:
**
Fatores sócio-econômicos: miséria, agravamento
das desigualdades, herança da hiper-inflação;
**
Fatores
institucionais: insuficiência e incompetência do
Estado, crise do modelo familiar, recuo do poder da Igreja;
**
Fatores
culturais: problemas de integração racial e desordem
moral;
**
Demografia urbana: as gerações provenientes do
período da explosão da taxa de natalidade no Brasil
chegando à vida adulta sem muitas referências éticas;
e o surgimento de metrópoles, sem a mínima infra-estrutura,
que receberem uma fortíssima migração nas
últimas décadas;
**
A
mídia, com seu poder, que colabora para a apologia da
violência.
**
A globalização mundial, com a contestação
da noção de fronteiras; e o crime organizado (narcotráfico,
posse e uso de armas de fogo etc.).
Acrescentaria
outro fator, característico e específico das grandes
cidades brasileiras. A organização do tráfico
de drogas (disputas pela ampliação de espaço
e poder, guerra entre gangues) e suas conexões com outras
modalidades de crimes (contrabando, lavagem de dinheiro, corrupção
de agentes públicos etc.).
Ora,
fica evidente a complexidade que envolve o fenômeno da
violência. E, por conseqüência, a dificuldade,
ou a quase impossibilidade, do profissional da comunicação,
cobrindo o pontual, abordar todas essas questões na apresentação
de cada notícia sobre o tema. Isso sem contar, obviamente,
com outras dificuldades de abordagem, como o reduzido espaço
ou tempo para apresentar a notícia; as pressões
vindas de editores e chefes de redação; os interesses,
nem sempre confessáveis, das empresas de comunicação,
dentre outros. Ademais, não podemos esquecer da rotina
massacrante das redações, que não permite
o aperfeiçoamento e o aprendizado contínuo por
parte dos profissionais da comunicação.
Quebrando
preconceitos e instituindo uma nova práxis
Existe
uma tradição muito arraigada dentro das redações
de que a cobertura dos temas envolvendo a violência e
a criminalidade é cobertura "de polícia".
Com o processo crescente de aprofundamento das discussões
sobre os problemas da segurança pública, esse
tipo de postura precisa ser revisto. Nessa empreitada todos
os atores envolvidos na temática (jornalistas, operadores
da segurança pública e pesquisadores) devem se
despir das "verdades absolutas" que os circundam,
caminhando na direção de uma nova relação
entre as partes, baseada principalmente no direito de todos
a uma informação qualificada, transparente e ética
sobre assuntos que envolvem os fenômenos da violência
e da criminalidade.
O
jornalismo policial, ainda, é uma área "marginal"
nos veículos de comunicação. E os profissionais
que cobrem essa área formam uma espécie de casta,
vista com ressalvas. Existe a presunção de que
é uma área pouco nobre (a classe valoriza mais
os assuntos ligados à política e à economia).
Muitos dos que fazem cobertura "de polícia"
são repórteres novatos ou os mais antigos, que
não se adaptaram à modernização
dos processos de comunicação.
As
editorias de polícia continuam sendo, com raríssimas
exceções, os berçários e os cemitérios
das redações. É preciso que os donos e
os operadores da mídia compreendam, de vez, que se foi
o tempo em que os crimes eram "assuntos de polícia".
São fatos que se encaixam na esfera da segurança
pública, portanto, influenciam a qualidade de vida dos
cidadãos e, como tal, merecem tratamento qualificado
e tão nobre quanto aos outros assuntos.
Uma
pesquisa reveladora
Considerando
o papel decisivo dos meios de comunicação nas
democracias para o agendamento de políticas públicas,
o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC)
da Universidade Candido Mendes, decidiu realizar um diagnóstico
sobre como os jornais cobrem a violência no Brasil, em
janeiro de 2004. [Leia
aqui matéria dada neste Observatório sobre
a pesquisa.]
As
coordenadoras da pesquisa, Silvia Ramos e Anabela Paiva, apontaram
alguns resultados do diagnóstico que analisou textos
veiculados pelos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo,
Agora São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, O Dia, Estado
de Minas, Diário da Tarde e Hoje em Dia ao longo de 35
dias, distribuídos por cinco meses do ano de 2004 (maio
a setembro). Em média, a circulação dos
nove veículos, somada, é de 1,2 milhão
de exemplares diários. [O estudo e outros dados da pesquisa
estão disponíveis na página
do CESeC]
Ao
analisar os 2.514 textos, as pesquisadoras perceberam que "os
jornais não cobrem a violência com a mesma intensidade.
O perfil dos textos analisados também indica que os jornais
têm abdicado de enriquecer a cobertura sobre violência
e segurança com alguns tipos de abordagem. O espaço
que os veículos analisados dedicaram a textos opinativos
sobre estes temas foi muito reduzido: durante o período
da pesquisa, houve pouquíssimos editoriais (1,4%), artigos
(1,2%) e colunas (0,3%) sobre o tema. Mais de um quarto (27%)
da cobertura é composta de pequenas notas informativas,
sem qualquer tipo de contextualização".
Sobre
os principais temas tratados pelas redações, as
pesquisadoras concluíram que "as forças de
segurança – nas quais se incluem as várias
corporações policiais (Federal, Civil, Militar
e Técnica), as Forças Armadas e as guardas municipais
– são as protagonistas do noticiário, sendo
o assunto de 40,5% dos textos. O outro tema dominante é
o ato violento em si, assunto de 21% das matérias. Os
desdobramentos e repercussões destes atos somam 16,2%
– ou seja, 37,2% da cobertura gira em torno de crimes.
Mas a análise das matérias deve ser considerada
não apenas por aquilo que foi abordado, mas também
pelo que não foi. Temáticas centrais como a violência
enquanto fenômeno sócio-cultural-político
(3,3%) e direitos humanos (2,4%) aparecem muito pouco. Também
chama a atenção o pequeno número de reportagens
e artigos baseados em estatísticas e pesquisas".
No
entanto, segundo as pesquisadoras, "é importante
reconhecer que em alguns estados brasileiros, como o Rio de
Janeiro, a mídia é uma fonte quase solitária
de controle externo da ação de polícia,
considerando que a Ouvidoria é virtualmente inexistente
e as corregedorias são extremamente frágeis. Em
síntese, pode-se concluir que há tendências
simultâneas em curso. Por um lado, o volume de notícias
sobre os temas da violência e da segurança publica
é expressivo, indicando o reconhecimento da importância
do assunto, especialmente nos jornais do Rio de Janeiro. Tudo
indica que a maioria dos jornais analisados deixou de praticar
as coberturas meramente criminais típicas das antigas
seções de polícia e passou a tratar de
violência e de segurança pública. Além
disso, nem mesmo os jornais de venda em banca se excedem no
sensacionalismo ou na apelação à dureza
contra o crime nos moldes clássicos e muito recorrentes
no passado. São muito raras as notícias que defendem
o endurecimento do tratamento com os criminosos ou a restrição
de seus direitos (0,4%) e é pequeno (5,6%) o número
de matérias que buscam enfatizar um sentimento de medo
da sociedade frente ao fenômeno da violência urbana.
Por fim, são desprezíveis os textos que deixam
transparecer a idéia de que é possível
fazer justiça com as próprias mãos (0,7%)."
O
papel da mídia
A
forma e conteúdo de exposição dos vários
tipos de violência pela mídia devem ser questionados.
Obviamente, não estamos tratando aqui de qualquer tipo
de censura; ao contrário, defendemos uma interlocução
cada vez mais consistente entre os profissionais da comunicação,
pesquisadores do tema e operadores da segurança pública.
Porém,
somos cônscios de alguns exageros. Por exemplo: uma pesquisa
da Unesco sobre a exposição da violência
na mídia e suas repercussões na vida das crianças
apontou que a função da mídia na percepção
e prática da agressão é apresentada em
um contexto compensatório. [Unesco, 2002. A amostra do
estudo foi formada por um núcleo original de 23 países
em todo o mundo, nos quais, em função do tamanho
de cada um, foram pesquisados entre 150 e 600 crianças
de 12 anos (de ambos os sexos) que freqüentam escola.]
Dependendo
dos traços de personalidade e das experiências
cotidianas das crianças, a violência na mídia
satisfaz diferentes necessidades: "compensa" frustrações
e carências em meio a ambientes problemáticos,
ao mesmo tempo em que oferece "emoção"
aos infantes que vivem em áreas menos problemáticas.
Apesar das inúmeras diferenças culturais, os padrões
básicos das implicações ligadas à
violência na mídia são semelhantes em todas
as partes do mundo. Os filmes, individualmente, não se
constituem o problema, mas a extensão e a onipresença
da violência na mídia contribuem para o desenvolvimento
de uma cultura global agressiva. As "características
de recompensa" da agressividade são mais sistematicamente
incentivadas do que as formas não agressivas de lidar
com a própria vida, fazendo prevalecer, dessa forma,
o risco da violência na mídia.
Em
combinação com a violência da vida real,
vivenciada por muitas crianças, é alta a probabilidade
de que orientações direcionadas para a agressividade
sejam mais intensamente promovidas do que aquelas que incentivam
comportamentos pacíficos.
Também
em áreas onde o nível de agressividade é
baixo, o conteúdo de violência da mídia
é apresentado em um contexto compensatório. Embora
as crianças lidem com esse conteúdo de formas
diversas em diferentes culturas, o traço transcultural
comum do problema encontra-se no fato de que a agressão
é interpretada como uma boa forma de solucionar os problemas
em várias situações.
Assim,
a onipresença da violência na mídia estimula
muito mais as ações violentas para a resolução
de simples conflitos cotidianos do que atos pacíficos
e de respeito aos outros e a si mesmo.
E
como tratar a questão?
A
mídia deveria ser o espelho fiel das contradições
e conflitos existentes na sociedade. Evidente, portanto, que
na sua pauta apareça a questão da segurança
pública como uma das principais demandas de discussão
da sociedade brasileira na atualidade.
Ponto-chave:
profissionais da mídia, operadores de segurança
pública e pesquisadores do tema devem conhecer os limites
e os interesses que envolvem o tratamento da temática
da segurança pública. Nesse terreno não
há espaço para improvisações e amadorismos.
É
preciso compreender, também, as dificuldades nas abordagens
de uma temática tão densa e complexa, como já
exposto anteriormente. Portanto, especializar-se nesse tipo
de cobertura seria o desejável e muitos profissionais
da imprensa têm percorrido esse caminho (com ou sem apoio
dos veículos). O Centro de Estudos de Criminalidade e
Segurança Pública da UFMG (CRISP), por exemplo,
ofereceu, no Rio de Janeiro, um curso para repórteres
de um jornal de circulação nacional, depois da
direção do órgão se convencer da
necessidade de uma especialização na cobertura
de eventos criminais naquela cidade. No mesmo caminho deveriam
trilhar os assessores de comunicação das instituições
do sistema de justiça criminal.
É
também fundamental que a divulgação e a
apuração das informações acerca
de estatísticas criminais sejam rigorosamente avaliadas:
quem produz a notícia de levar em conta a subnotificação
de vários tipos de ocorrências; os interesses políticos
que envolvem a divulgação das notícias;
os vieses evidentes em análises feitas por operadores
e especialistas.
Uma
notícia irresponsável pode causar danos irreparáveis
a uma comunidade. Por exemplo, o simples fato de se noticiar
um aumento de crimes num determinado bairro baseando-se na percepção
da população, sem verificar com mais acuidade
o que essa situação pode acarretar: diminuição
no preço dos imóveis naquele local; deterioração
da qualidade de vida da população em virtude do
medo e do aumento da percepção da violência
local; fragilização das relações
sociais, entre outras questões. Por outro lado, sonegar,
omitir ou maquiar informações sobre crimes pode
significar efeitos tão perversos ou até piores
do que os citados acima, incluindo riscos objetivos para a vida
das pessoas. Portanto, ao revelar dados, noticiar eventos criminais
e abordar determinados assuntos envolvendo violência e
criminalidade é preciso pensar nas conseqüências
desse tipo de informação.
Finalmente,
o papel da imprensa na cobertura da segurança pública
é de fundamental importância para o aprimoramento
das políticas públicas nessa área. Apesar
das eventuais limitações, observamos que a mídia
tem se esmerado no tratamento da temática, o que muito
contribui para a melhoria das relações entre os
operadores da segurança pública, pesquisadores
e os profissionais da comunicação.
(*)
Professor da PUC-Minas, filósofo, mestre em Administração
Pública, especialista em comunicação social,
em estudos de criminalidade e segurança pública;
coordenador de Comunicação e Informação
do CRISP (Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança
Pública da UFMG)
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