|
Informação:
Observatório
da Imprensa - 01/11/2005
Leticia
Nunes e Larriza Thurler
Pesquisa
realizada no primeiro semestre deste ano pelo Instituto Projor,
entidade mantenedora deste Observatório da Imprensa e
de suas versões na TV e no rádio, revelou que
pelo menos 51 dos 513 membros da Câmara dos Deputados
são concessionários diretos de canais de rádio
e TV. O mais grave, segundo este estudo, é que muitos
destes parlamentares participam das reuniões que tratam
das renovações e homologações dessas
concessões na Comissão de Ciência, Tecnologia,
Comunicação e Informática da Câmara
(CCTCI).
Conflito
de interesses? A procuradora do Estado de São Paulo Vera
Nusdeo, mestre em direito administrativo pela USP com a dissertação
"O direito à informação e as concessões
de rádio e TV", acredita que o atual sistema de
concessões a parlamentares é absurdo. "A
meu ver, as concessões feitas diretamente a deputados
ou a empresas das quais eles participem de alguma forma é
flagrantemente ilegal", afirma.
Na
terça-feira (25/10), o presidente do Projor, Mauro Malin,
e a advogada Taís Gasparian entregaram ao vice-procurador
geral da República, Roberto Monteiro Gurgel Santos, documentação
que contesta esse sistema de concessões. Mais que um
conflito de interesses, as concessões a deputados e senadores
ferem o artigo 54 da Constituição Federal, segundo
o qual eles não podem ter contrato ou emprego remunerado
em empresas concessionárias de serviço público.
"Essa
representação é extremamente importante
e uma grande contribuição no sentido de se combater
fraudes à Constituição Federal", afirma
o deputado Orlando Fantazzini (PSOL-SP). Assim como a procuradora
Vera Nusdeo, ele também utiliza a palavra "absurdo"
para classificar a prática destas concessões.
Voto
a voto
Os
casos identificados pela pesquisa do Projor se referem a parlamentares
que possuem concessões diretas. Segundo a representação
entregue à Procuradoria Geral da República, há
casos em que as concessões são atribuídas
a terceiros – espécie de "camuflagem"
que torna mais difícil a verificação dos
dados. Mais uma vez aparece o conflito de interesses.
"Talvez
o ideal seja garantir que não só os parlamentares,
mas também seus parentes diretos, não possam ser
concessionários de emissoras de radiodifusão",
defende a associação civil Intervozes
– Coletivo Brasil de Comunicação Social,
em mensagem eletrônica enviada a este Observatório
na quarta-feira (26/10). "Além disso, é preciso
encontrar mecanismos que impeçam que contratos de gaveta
sejam usados para esconder a verdadeira identidade dos concessionários.
E garantir que a propriedade dos meios de comunicação
– ou seja, os nomes daqueles que receberam concessões
de rádio e TV – seja divulgada de forma ampla,
assim como os prazos de vencimento dessas concessões",
continua a mensagem da Intervozes. A transparência sugerida
pela associação é endossada por Fantazzini.
"É preciso uma fiscalização séria,
isenta e com controle social", diz o deputado.
O
fato de que estes parlamentares privilegiados com uma concessão
pública de radiodifusão tenham acesso às
sessões que decidem o futuro dessas mesmas concessões
é ilícito, de acordo com os regimentos internos
da Câmara e do Senado. Além do mais, a prática
é, no mínimo, antiética. "Não
é possível ter isenção na fiscalização
de um concessionário público se o fiscalizador
é o próprio concessionário", ressalta
a Intervozes. Nas reuniões da CCTCI, "eles concedem
para eles mesmos e decidem se eles mesmos vão ter a concessão
ou permissão não renovadas – em votação
nominal, ou seja, aberta, voto a voto. É um total absurdo",
lembra Vera Nusdeo.
Atitude
cívica
Na
representação do Projor, dois deputados são
citados nominalmente. Corauci Sobrinho (PFL-SP) e Nelson Proença
(PPS-RS), respectivamente presidente e membro titular da CCTCI,
teriam participado e votado favoravelmente nas reuniões
em que foram aprovadas as renovações de suas concessões
de rádio.
O
Observatório procurou o deputado Nelson Proença,
concessionário das Emissoras Reunidas, de Alegrete, no
Rio Grande do Sul. Eis o que declarou o parlamentar:
|
"Sou
membro titular da Comissão de Ciência,
Tecnologia e Comunicação da Câmara
dos Deputados há 15 anos. Esta comissão
permanente do Congresso ocupa-se, majoritariamente,
das questões de ciência, tecnologia, telecomunicações
e também comunicação social –
como, por exemplo, as outorgas de comunicação
social (rádio e TV).
Conforme
pode ser comprovado pela minha atuação
ao longo destes anos, minha participação
se dá, por formação profissional,
principalmente nas áreas de tecnologia –
onde fui relator de matérias relevantes para
o país como, por exemplo, a lei de informática
e biotecnologia, entre outras.
As
renovações de concessões de rádio
e TV são meramente homologadas pela comissão,
que atém-se às questões formais
(documentação, prazos etc), já
que todo o trabalho de análise, julgamento e
decisão é do Ministério das Comunicações.
Cada
renovação tem um relator indicado pela
presidência da comissão, a quem cabe este
trabalho.
Portanto,
a votação no plenário da Comissão
se dá sobre o parecer do relator e é feita
em bloco, o que significa que vota-se uma única
vez todos os relatórios, às vezes dezenas
deles e sempre simbolicamente, sem votação
nominal com pouca ou nenhuma discussão.
A
rádio Alegrete, que tem participação
da minha família, foi adquirida há 16
anos, em uma transação privada, e tem
56 anos de existência.
Na
sessão que decidiu a renovação
em questão, seguiu-se a tradição
da Comissão: muitos relatórios votados
em bloco, voto simbólico sem discussões
e, como eu não fui chamado a me manifestar, não
achei necessário, nem me ocorreu declarar o meu
impedimento.
Estes
são os esclarecimentos que considero devidos." |
Procurado
pelo Observatório, o deputado Couraci Sobrinho, concessionário
da Rádio Renascença, de Ribeirão Preto,
afirmou na segunda-feira (31/10), por intermédio de seu
chefe de gabinete Wesley Arantes, que não designou o
relator para a sessão em que foi votada a matéria
da renovação de sua concessão. Quem o fez
foi o vice-presidente, que também presidiu a reunião
em questão.
O
Projor tem como finalidade estimular o debate sobre os meios
de comunicação, com ênfase em seus aspectos
éticos e de responsabilidade social. Como organização
civil, entretanto, não possui nenhum tipo de poder regulatório
para propor medidas legais sobre temas que conteste ou denuncie.
Esta é a razão pelo qual o documento sobre o sistema
de concessões a membros do Congresso foi entregue à
Procuradoria Geral da República.
"Iniciativas
como esta deveriam ser multiplicadas e divulgadas, para que
a população – que hoje sequer conhece o
mecanismo de concessão de outorgas no país –
pudesse democraticamente se sentir representada neste processo",
defende a Intervozes. "É uma atitude cívica
que busca zelar pela prevalência do interesse público
nas decisões relacionadas à radiodifusão
no Congresso e garantir que não existam interesses conflitantes
no exercício da atividade parlamentar."
|