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Informação:
Observatório
da Imprensa - 01/11/2005
Nelson
Hoineff
O
tempo dos grandes âncoras dos noticiários de televisão
está se esgotando com mais rapidez do que se esperava.
Muitos dos sintomas que levam a isso estão relacionados
numa reportagem de Bill Carter para o New York Times –
"After CBS’s decision, networks face many more"
– publicada na sexta-feira (27/10).
A
matéria é sobre a indicação de Sean
McManus para chefiar a CBS News, mas sintetiza a perplexidade
das grandes redes abertas diante das alternativas para substituir
os grandes âncoras que, com pequena diferença de
tempo, deixaram seus noticiários principais: Peter Jennings,
da ABC, Tom Brokaw, da NBC e Dan Rather, da CBS.
Até
agora a questão se resumia em trocar as peças
por outras que se encaixassem na mesma função.
Rather, por exemplo, teve há 20 anos a missão
quase impossível de substituir a Walter Cronkite, que
havia se tornado, mais do que um âncora, a grande consciência
da América. Brokaw e Jennings cumpriram o mesmo papel:
representavam em suas emissoras uma voz acima de qualquer suspeita.
A "voz de Deus", nas palavras de Leslie Moonves, o
chefe da CBS.
A
questão agora consiste em saber se o espectador está
ansiando por outro Cronkite, por outro Rather, por outra voz
de Deus.
A
resposta aparentemente é não. Não há
mais indicações de que o espectador busque no
âncora um guia para formar sua própria opinião
– e a capacidade de uma só pessoa para ser fiadora
da qualidade de informação prestada por toda uma
organização é cada vez mais discutível.
Números
de faturamento
Uma
das razões para isso é que por qualidade de informação
não se pode mais entender apenas axiomas como o da isenção
jornalística, por exemplo.
Isenção
é um conceito relativamente recente, mas bem sedimentado
como um valor básico da atividade jornalística
moderna. Surpreendente hoje não é um noticiário
isento, mas a ausência de isenção num noticiário.
Qualidade
de informação em televisão é hoje
entendida na melhor das hipóteses pela capacidade de
apurar e desenvolver a notícia; e na pior, pela capacidade
de a emissora transformá-la em espetáculo. Uma
outra razão que decorre disso é que a televisão
sedimentou velozmente modelos grotescos de transformar tudo
num picadeiro, inclusive a informação. Basta acompanhar
uma pueril transmissão esportiva. Até o envolvimento
do espectador com o ataque do seu time é guiado pelo
soar de clarins.
Algazarra
de clarins e rufar de tambores acompanham sistematicamente a
transformação da notícia em espetáculo,
sua diluição em shows de consumo fácil.
Por essa razão, os noticiários matinais da TV
americana – Good Morning América e Today –
tornaram-se muito mais rentáveis que os telejornais principais.
Não é de se espantar que tenham se tornado mais
influentes também. "Os dias dos executivos das divisões
de notícias das grandes redes como emblemas da consciência
do jornalismo se foram há tempos", nota Carter,
no NYT. "O trabalho requer agora a capacidade de administrar
elenco e orçamento".
Modelo
passado
Se
por um lado os âncoras ainda investidos dos personagens
de guardiões da consciência não podem ser
levados a oferecer ao espectador o circo explícito dos
noticiosos matinais, por outro o espectador está mostrando
sinais de saturação no trato com tais personagens.
Prefere ser guiado pelos clarins.
O
sucesso da Fox News é uma das fortes evidências
de que o dogma da credibilidade está em crise. Além
disso, o espectador está se dando conta de que a televisão
está perdendo a cada semana a capacidade de ser sua fonte
primária de informação. Esse papel está
visivelmente passando para a telefonia móvel. Reverterá
para uma mídia intermediária logo que as plataformas
digitais estiverem assentadas e tiverem formado um ambiente
de convergência plena.
Se
a televisão já não é quem dá
ao público a notícia em primeira mão, e
se esse público não precisa da televisão
para ter certeza de que estão lhe dizendo a verdade,
então qual o futuro dos grandes noticiários de
TV?
"Tem
que haver um novo espírito", responde Leslie Moonves.
Uma nova era está claramente prestes a começar.
Sabe-se que o modelo encarnado pelos três grandes âncoras
que acabam de deixar seus postos pertence ao passado. Não
se tem a menor idéia do modelo que pertencerá
ao futuro.
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