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Informação:
Observatório
da Imprensa - 21/12/2004
A
mídia dos países em desenvolvimento vive uma fase
de liberdade de expressão sem precedentes, o que tem
exposto mais jornalistas em perigo por desagradarem a poderosos,
mostra reportagem da revista Economist [16/12/04]. Segundo a
organização Repórteres Sem Fronteiras,
desde 1992, 625 profissionais de imprensa morreram no exercício
de sua profissão. Alguns deles caíram ao cobrir
conflitos armados, mas a maioria foi vítima de gente
que não gostou de algo que publicaram.
De
acordo com dados do Comitê de Proteção dos
Jornalistas, entre 1994 e 2003, algo em torno de 75% das mortes
devem ter tido este tipo de motivação. Em apenas
10%, os perpetradores foram parar no banco dos réus.
Não há dados precisos sobre os anos 80, mas isso
se deve provavelmente ao fato de que muito menos jornalistas
morriam em exercício naquela época, já
que a repressão que sofriam fazia com que não
contrariassem tantos interesses.
Agressividade
O
jornal nigeriano Punch ("soco" em inglês) ilustra
bem essa evolução. Ele faz sucesso com reportagens
agressivas, assim como vários de seus concorrentes locais.
No dia 18/10 deste ano, por exemplo, trazia uma matéria
sobre uma fraude cometida por 79 bancos, outra sobre o julgamento
de funcionários da marinha que haviam permitido a evasão
de um navio de contrabando de petróleo e uma carta do
novelista Chinua Achebe denunciando que seu estado, Anambra,
estava se transformando em um caos porque um bando de "renegados"
que ostentam conexões com figuras poderosas o estava
afundando num mar de corrupção.
Há
uma década, o Punch não tinha esse tipo de conteúdo.
Para ser exato, 10 anos atrás ele não tinha conteúdo
algum, pois havia sido fechado pela polícia. O governo
estava sob controle de Sani Abacha, ditador sanguinário
que só sairia do poder em 1998, graças a um enfarte
durante uma festinha com prostitutas. A instituição
de um regime democrático possibilitou o florescimento
da imprensa independente. Hoje, a Nigéria possui mais
de 100 jornais e revistas nacionais, além de 30 rádios
privadas.
No
meio do caminho
Processo
semelhante aconteceu em muitos países subdesenvolvidos
após o esfacelamento da União Soviética.
Capitalistas internacionais que antes financiavam ditaduras
anticomunistas passaram a exigir reformas democráticas.
Mas, é claro, nem tudo é um mar de rosas. Dos
ex-integrantes do bloco comunista, poucos se converteram em
democracias legítimas, onde a liberdade de expressão
é uma realidade concreta – caso da República
Tcheca e da Lituânia. A maioria está no meio do
caminho entre o antigo regime controlador e um possível
futuro de livre expressão. Os russos, por exemplo, têm
hoje fontes de informação mais diversificadas
que durante o período soviético. No entanto, o
presidente Vladimir Putin conseguiu estabelecer um controle
informal sobre as principais redes de televisão que torna
impossível dizer que a Rússia tem uma mídia
livre. Ainda assim, hoje são em menor número os
países em estado de repressão total – casos
de Cuba, Coréia do Norte e Turcomenistão.
Mesmo
na China acontece um processo de abertura, mesmo que lento.
As reformas econômicas que vêm sendo implantadas
pelo Partido Comunista têm trazido sopros de liberdade
para a imprensa. Hoje, os jornais já podem denunciar
corrupção praticada por autoridades locais, mas
críticas ao governo central ainda são tabu. Segundo
reportagem do South China Morning Post [14/12/04], o governo
chinês forçou recentemente a saída dos editores
de dois dos mais importantes jornais do país. No começo
do mês, o editor-chefe do Diário da Juventude da
China foi substituído. O jornal, controlado pela Liga
da Juventude do Partido Comunista, grupo que dá poder
ao presidente Hu Jintao, vinha denunciando a corrupção
de autoridades de forma muito agressiva. Alguns dias depois,
o semanário Xin Zhou Bao, que existia há menos
de dois meses, foi suspenso por três semanas. O governo
ordenou que seu editor-chefe fosse trocado e, ainda assim, não
há garantia de que voltará a ser publicado.
Até
os ricos
Nos
países ricos também existem problemas. Na Inglaterra,
há leis de difamação muito punitivas para
a imprensa. No Japão, é praxe entre as autoridades
só dar informações a jornalistas que façam
parte dos "clubes de imprensa", espécie de
associações de profissionais que cobrem determinados
setores. Isso dificulta a vida de correspondentes estrangeiros,
por exemplo, que, por cobrirem assuntos diversos, teriam de
se afiliar a inúmeras agremiações desse
tipo. A região em que a repressão à imprensa
é mais uniforme é o Oriente Médio. Mas
mesmo ali regimes como os da Arábia Saudita se mostram
incapazes de conter totalmente o acesso à internet e
a canais de notícia via satélite, como Al-Jazira
e Al Arabiya.
Acesso
precário
O
progresso da tecnologia tem ajudado muito no acesso da população
à informação. Um transmissor de rádio
com alcance de 1,5 quilômetro hoje custa a partir de US$
2 mil. Com US$ 20 mil é possível montar uma estação
de rádio que pode ser ouvida a até 100 quilômetros
de distância. A disseminação do rádio
à corda também é um fator importante nas
regiões mais miseráveis do mundo. Para o cidadão
ocidental urbano é difícil imaginar que ainda
há milhões de pessoas cujo único contato
com o mundo é um rádio, e que, para elas, é
difícil comprar pilhas. A pobreza é um grande
limitador do acesso à informação e da ampliação
da liberdade de expressão no mundo subdesenvolvido. Em
Guiné, por exemplo, é comum jornaleiros alugarem
os diários em vez de vendê-los, porque muitas pessoas
não têm dinheiro para comprar jornal todo dia.
Até 30 pessoas podem fazer uso da mesma cópia,
o que sem dúvida é lucrativo para o vendedor –
ou locatário – do jornal, mas não para quem
o edita.
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