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Os profissionais de comunicação e a interface do cooperativismo.


 

Informação: Comunique-se - 10/12/2004

Marcus Vinicius de Jesus Bonfim (*)

A Economia Solidária caracteriza-se por práticas e atividades organizadas de produção, renda, consumo e trabalho em torno do envolvimento das pessoas que, de maneira democrática, promovem essa mudança no modo como produzem e oferecem seus serviços e empregam suas técnicas, em um contraponto ao modelo capitalista que vigora em nossa sociedade.

E você pode (e deve) estar se perguntando: o que isso tem a ver conosco, profissionais de comunicação? O grande “xis” da questão, na verdade, reside em três fatores:

1. Em primeiro lugar, estamos vivenciando a expansão dos negócios para as agências de comunicação inversamente proporcional à abertura de postos de trabalho para os profissionais, ou seja, um profissional passou a atender contas de vários clientes, muitas vezes, sozinho, ou com equipes reduzidas. O lucro da agência, em geral, prevalece sobre a qualidade e a quantidade de profissionais envolvidos, em nome da relação custo–benefício.

2. O segundo fator é o crescente número de graduados em nível superior que pressionam o mercado a absorvê-los, e o mercado, dentro da lógica descrita acima, exige dos recém-formados elevado grau de qualificação, conhecimento técnico ou experiência profissional, sendo que a maioria sequer fez estágio durante o curso. Como exigir qualidade sem oportunidade? Essa resposta fica no ar...

3. Por fim, a saída mais comum e corriqueira nesses casos é o trabalho autônomo. Eis o terceiro fator! Porém, por não contarem com boa estrutura técnica e/ou tecnológica para fazer frente ao expertise das agências de comunicação, esses novos profissionais também têm dificuldades para atuar, dando margem a figuras como "PJ", fugindo do regime celetista (que carece, a bem da verdade, de revisões), e o colega não consegue ao menos operar profissionalmente utilizando as tabelas e pisos estabelecidos pelos Sindicatos de classe.

Sucintamente, esse é o panorama do mercado profissional que estamos vivenciando.

Longe de ser uma resposta conclusiva e definitiva para a questão apresentada no início do texto, existe a alternativa de se criar cooperativas de trabalho, voltadas estritamente para o perfil dos profissionais de comunicação. O propósito é simples: unir profissionais de comunicação dentro de uma organização social e operacional capaz de estar no mercado e competir com as agências de comunicação.

O universo das cooperativas de trabalho está ligado aos ideais da Economia Solidária pois permite um amparo conjunto e ao mesmo tempo concilia estrutura e conhecimentos em prol do coletivo. A gestão é participativa e envolve a todos, exigindo que o grupo se reúna, discuta e decida os rumos que a cooperativa deve seguir, desde estudos de mercado e planos de negócios até formas de atendimento ao cliente, criando vínculos e comprometimento.

Atuando dessa forma, pode-se oferecer ao cliente uma gama de serviços mais ampla, diminuindo custos. O histórico do cooperativismo na área de comunicação não é recente, há relatos de experiências entre jornalistas, especificamente, ainda nos anos 80, e há cooperativas que estão sólidas no mercado no Mato Grosso do Sul e no Rio Grande do Sul.

Existem vantagens em se criar uma cooperativa, e até um certo idealismo, no entanto é preciso fazer um alerta: não é tarefa fácil. Além de estudar minuciosamente a legislação sobre cooperativismo no Brasil, é preciso reunir profissionais bem qualificados e comprometidos com esta proposta e focar bem a atuação da cooperativa no mercado e em suas estratégias de ação.

(*) Relações Públicas, especialista (lato sensu) em Gestão de Processos Comunicacionais pela ECA-USP