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Informação:
Observatório
da Imprensa - 28/12/2004
Rodolfo
Fernandes (*)
A
propósito do artigo A guerra da Ancinav – A primeira
vítima é a verdade" [veja remissão
abaixo], gostaria de fazer os seguintes comentários e
dividi-los com os leitores do Observatório:
1.
A instituição de observadores da imprensa representa
um avanço para o permanente aprimoramento dos meios de
comunicação e, nesse sentido, o Globo tem estado
sempre atento às discussões inerentes a este processo;
2.
Entendemos, entretanto, que, por sua importância, a tarefa
de fazer crítica de mídia requer cuidados específicos,
sendo o mais básico deles o de ler o jornal que se pretende
criticar;
3.
Foi com surpresa, portanto, que tomei conhecimento dos comentários
de Nelson Hoineff sobre a cobertura do jornal O Globo nas discussões
da criação da Ancinav. Uma leitura mais atenta
do jornal, ou mesmo, na impossibilidade disso, uma pesquisa
sobre o tema, teria evitado algumas distorções
e muitas imprecisões;
4.
O autor cita apenas uma matéria e dois textos de colunistas
do jornal para julgar toda a cobertura do Globo sobre o assunto.
A matéria citada registrava a reunião de uma entidade
amplamente representativa do setor audiovisual, com órgãos
de classe legitimamente eleitos, e reproduziu os debates existentes.
A comparação feita pelo autor com matéria
do Estado de S.Paulo, que em vez de registrar a discussão
travada optou por um bastidor sem autoria ("Globo põe
artistas na trincheira contra Ancinav". E subtítulo:
"Num evento em São Paulo, que teve a emissora nos
bastidores, projeto do Minc foi dissecado. E enxovalhado"),
é capciosa e parte do pressuposto simplista de que alguns
dos maiores artistas brasileiros estão manipulados pela
TV Globo. Não é o caso aqui de entrar nessa discussão,
mas o fato é que a reportagem do Globo reproduziu fielmente
o que foi discutido naquele fórum. Detalhe: o Globo noticiou
que eram 17 entidades, representando 13 mil empresas, e não
que eram 13 mil entidades, como erradamente escreveu o autor;
5.
A citação a textos de dois colunistas do Globo
sobre a Ancinav chega a ser infantil. Supor que em pleno século
21 um jornal é capaz de manipular a opinião de
um dos mais experientes jornalistas políticos de Brasília
(Jorge Bastos Moreno) e da maior crítica de teatro do
Brasil (Bárbara Heliodora), é risível.
Quem acredita nisso seguramente não coloca os pés
numa Redação de jornal há muitos anos –
ou nunca colocou;
6.
A pesquisa que o autor do texto não fez poderia revelar
de forma mais precisa a cobertura que o Globo vem dando à
Ancinav. Ele poderia ter lido, por exemplo, a matéria
que o jornal publicou no dia do encerramento do Festival de
Cinema de Brasília (2/12/04), em alto de página,
com o título: "Candangos políticos/ Sob gritos
de ‘Viva a Ancinav!’, prêmios vão para
‘Peões’ e diretora do Vidigal". Se houve
exagero nesta matéria, foi justamente o de privilegiar
a discussão da Ancinav em detrimento da própria
produção cinematográfica do mais tradicional
festival do país. Detalhe para a chamada na primeira
página do Segundo Caderno: "Cinema: Apoio à
Ancinav marca o Festival de Brasília – página
2".
Não
é segredo que, em seus editoriais, o Globo tem criticado
a criação da Ancinav. Mas uma rápida pesquisa
no arquivo do jornal mostra diversas matérias registrando
outras opiniões sobre o assunto.
**
No dia 10/11: "Presidente defende projeto da Ancinav e
Gil"
**
No dia 29/10: "Cineastas pedem Ancinav com mais funções"
**
No dia 28./10: "Criação da Ancinav recebe
o apoio de 344 profissionais"
**
No dia 5/10: "Compositores foram ao MinC para pedir uma
`Ancinav´ da música"
**
No dia 22/9: "Ancinav poderá fiscalizar empresas
de telefonia"
**
No dia 30/8: Tema em discussão: Lei do audiovisual/ Nossa
opinião: "Retrocesso"// Outra opinião:
"A tela é nossa" (senadora Ideli Salvatti)
**
No dia 13/8: "Representante da Cultura acha que discussão
tem "mediação apaixonada da imprensa"
Da
mesma forma, o Globo publicou, com destacada chamada na primeira
página, artigo encomendado ao ministro Gilberto Gil defendendo
seus pontos de vista sobre a Ancinav;
7.
A cobertura do jornal tem sido, como se vê, pluralista,
registrando as diversas opiniões a respeito - não
obstante salte aos olhos a grande diferença de peso entre
os personagens envolvidos dos dois lados. Isso já ocorrera
na discussão do Conselho Federal de Jornalismo: embora
estejamos sempre atentos para dar o "outro lado" da
discussão, não há como encobrir o fato
de que alguns dos principais nomes da área cultural estão
contra a Ancinav, assim como os principais jornalistas do país
estavam contra a criação do CFJ;
8.
E, por fim, uma última curiosidade, que definitivamente
não ajuda a argumentação do autor do texto
do Observatório da Imprensa: o secretário do Audiovisual
do Ministério da Cultura, Orlando Senna, principal patrocionador
da Ancinav no governo, foi um dos três indicados, na área
do cinema, para o Prêmio Faz Diferença, que O Globo
organiza com as principais personalidades do ano. A escolha
é feita por jornalistas do Globo, em votação
livre. Ele acabou ficando atrás do cineasta Walter Salles,
mas a simples indicação demonstra que os argumentos
do autor do artigo do Observatório se devem mais a preconceitos
arraigados do que propriamente a fatos pesquisados.
(*)
Diretor de Redação do Globo
Nelson Hoineff responde
1.
O texto em questão não se referia à cobertura
do Globo em relação ao caso Ancinav. Comentava
especificamente o tratamento dado ao seminário promovido
pelo FAC dois dias antes. Explicitava o objeto de sua crítica
desde o início: "O texto diz respeito a um ciclo
de debates promovido desde o dia anterior pelo Fórum
de Audiovisual e Cinema (FAC)".
2.
A matéria publicada no encerramento do Festival de Cinema
de Brasília foi citada sim, assim como várias
outras publicadas na mesma ocasião – justamente
para demonstrar que inferir que a categoria está toda
contra o projeto Ancinav é tão absurdo quanto
supor o contrário. Cito o trecho: "Isto não
é verdade, assim como não seria verdadeiro afirmar
que a categoria inteira está fechada com o projeto –
o que várias coberturas das reuniões do CBC ocorridas
durante o Festival de Cinema de Brasília, realizado há
duas semanas, deixaram transparecer –, menos por compromisso
do que por falta de competência".
3.
Não existe a mais tênue insinuação
que o jornal estivesse manipulando a opinião de seus
colunistas e, francamente, não sei de onde o missivista
pode ter tirado isso. O texto referiu-se a uma piada de Jorge
Bastos Moreno (defendendo o próprio Ministro da Cultura)
e uma comparação do projeto da Ancinav a Zdhanov
e Goebbels feita por Barbara Heliodora (mas até agora
não explicada), que coincidentemente apareceram no mesmo
sábado. O texto do OI estranhou, isto sim, que a comparação
feita por Heliodora, que tomou apenas 11 linhas de um longo
artigo sobre outro assunto (a crise do teatro brasileiro), tivesse
assim mesmo merecido chamada na primeira página.
Leia
também
A
guerra da Ancinav / A primeira vítima é a verdade
– N.H.
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