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Informação:
Observatório
da Imprensa - 07/12/2004
Ivo
Lucchesi (*)
São
múltiplos os acontecimentos passíveis de serem
associados ao projeto da modernidade. O ciclo das "grandes
navegações", a arte renascentista, a pesquisa
científica e, enfim, tudo que, reunido, consolida o marco
da primeira Revolução Industrial. Entretanto,
uma – mais que qualquer outra – terá modificado
substancialmente a organização da vida nas cidades:
a imprensa. É ela que, primeiramente ainda tímida,
na forma de folhetos, se constituiu num acontecimento de radical
efeito modificador ao propiciar a circulação pública
da informação em seu sentido amplo, independentemente
de, à época, haver alta taxa de iletrados.
De
um modo ou de outro, o registro impresso logo se tornava conteúdo
oralizado, compensando por um lado o acesso restrito aos segmentos
alfabetizados e, por outro, potencializando a própria
deformação dos conteúdos, fenômeno
típico da oralidade. Seja como for, à imprensa
coube a tarefa de tornar o espaço público da cidade
em tema e experiência tanto gregária quanto conflitiva.
É
sob esse prisma que se pode creditar à atividade jornalística
a profunda associação ao exercício da democracia
e, aí sim, nesse sentido, a compreensão ampla
acerca do que seja a defesa intransigente pela liberdade de
expressão e, principalmente, de pensamento.
A
imprensa na origem
É
inegável que novos procedimentos para a veiculação
de informações terão injetado no processo
histórico "aceleração" e "velocidade"
ao ritmo dos acontecimentos, a exemplo do que sinaliza o pensamento
de Paul Virilio, notadamente em duas de suas obras (A arte de
motor e Velocidade e política, ambas publicadas pela
Estação Liberdade, em 1996).
O
pulsar permanente da imprensa, para bem e para mal – afinal
tudo tem sempre mais de uma face –, produziu novas impregnâncias
subjetivas, ao dar visibilidade pública à vida
como instância dramática. Algo que, particularmente,
começara, no berço do Ocidente, com o teatro,
foi capturado pela imprensa, o que também serviu para
a própria expressão teatral e literária
de desafio na procura por novas modelagens. A superação
do romance picaresco é um exemplo dessa transformação.
Notas,
notificações, notícias, entrevistas e,
por fim, reportagens foram descortinando, passo a passo, o que
antes estava confinado a ser cameral. Em síntese, a imprensa
produziu um "distúrbio" na relação
entre o "instantâneo" e o "eterno",
algo semelhante ao que, posteriormente, foi reforçado
com a fotografia.
Passados
séculos, a imprensa, na vida contemporânea, se
apresenta com preocupantes sinais de deformação,
perdendo progressivamente seu potencial quase exclusivo de efetiva
intervenção na pólis. Na ânsia, talvez,
de querer abarcar delirantemente a "totalidade do real",
parece caminhar na direção de um melancólico
hábito diário de "registros", destituídos
de maiores conseqüências. Cada vez mais "midiática",
a prática jornalística se confunde com "palcos
para exibições".
O
jornalismo que, na origem, forçou o teatro a reinventar-se
está ameaçado de se fazer refém, ou seja,
percebe-se acentuada tendência na fixação
de um modelo centrado na "teatralização jornalística"
– situação agravada pela concorrência
da mídia eletrônica, que, dotada de recursos mais
afeitos à "teatralização" e à
"dramaticidade" dos acontecimentos, intensifica o
processo de "espetacularização" da vida.
Na
rota dessa indiferenciada prática, enfraquece-se a própria
democracia como processo construtivo e realimentador da liberdade.
A saída possível aponta para a inserção
da criticidade nos veículos de comunicação,
sob pena de o jornalismo amargar inexpressivo lugar. Mudança
de mentalidade nas empresas jornalísticas não
deve ser projeto adiado.
A
imprensa, hoje
O
formato vigente beira o esgotamento. Proposições
destinadas a instalação de "conselhos",
"órgãos reguladores", ou equivalentes,
em nada alteram o quadro posto . A discussão dessa ordem
serve para outros fins. Estes dizem respeito às funções
reais das quais a atividade jornalística não pode
prescindir.
Comissões
e conselhos sempre interessam de perto a quem vislumbra oportunidades
para ocupação de cargos, cujo objetivo, com as
raríssimas exceções, é o uso estratégico,
trampolim para outros "saltos ornamentais" na vida
pública ou profissional. Jornalismo não é
ornamento.
Embora
o enfraquecimento da atividade jornalística seja alvo
de reconhecimento em âmbito internacional, há de
se registrar que, no âmbito nacional, o fato em muito
se amplia. É perceptível o grau de superficialidade
das pautas e coberturas, em absoluta contramão das complexidades
proliferantes tanto na esfera mundial quanto na vida brasileira.
O tratamento no campo político chega a ser sofrível,
seja pelos recortes de banalidade, seja pelo esforço
na falsificação das situações internas.
Uma
simples sintonia com a prática parlamentar, pelas TVs
a cabo (Congresso, Senado e Alerj), demonstra do quanto o público
majoritário fica radicalmente à margem. Os jornais
do dia seguinte ignoram (ou ocultam) temas, denúncias
da mais alta importância. Ao contrário, multiplica-se
o enfoque de variedades que pouco ou nada acrescenta para além
do tom meramente opinativo.
A
parceria jornalismo/democracia, para a desejada consistência,
tem de estar apoiada em forte densidade argumentativa. É
sabido que a "cultura opinativa" não cria raízes
nem produz desdobramentos. Ela se confunde com a "falação
cotidiana". Opinião não passa da emissão
de juízo, próprio da razão excitada. Seu
suporte, portanto, é eminentemente emocional. Já
o argumento é a formulação de juízo,
afinada com a razão analítica, cuja substância
é conceitual. Na vertente da opinião, vigora o
modelo midiático; na prática argumentativa, deve
predominar o modelo jornalístico. Muniz Sodré
está corretísssimo quando acentua que jornalismo
não é (ou não deveria ser) mídia.
O
perigo maior da conversão do jornalismo em mídia
reside na rede de dessubjetivação cuja conseqüência,
entre outros efeitos, consiste na ativação de
estados de vacuidade. A propósito do tema da relação
entre dessubjetivação e realidade midiática,
é oportuna a remetência à leitura de uma
das obras do já citado Muniz Sodré – Antropológica
do espelho (Vozes, 2002), em específico o item "Dessubjetivação
e integração sistêmica", págs.
158-167.
A
fragilidade do presente modelo jornalístico, na sua obstinada
estratégia contra a construção analítica,
afora o desvirtuamento de sua originária destinação,
potencializa a banalização da democracia na medida
em que a relação com a experiência democrática
passa a confundir-se com a atmosfera de emocionalização,
processo adequado a deformações de toda ordem.
Ignorar
o peso dessa responsabilidade significa colaborar para o esgarçamento
de todos os laços constitutivos de uma nação.
(*)
Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ,
professor titular do curso de Comunicação das
Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha, RJ)
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