| Informação:
CARTA
MAIOR - Agência de Notícias - 20/11/2004
Marco
Aurélio Weissheimer
Em
períodos eleitorais, um velho fantasma assola a esquerda:
o papel manipulador da mídia. Nas derrotas, a gritaria
é grande. Passadas as eleições, tudo volta
ao normal e velhos vícios e ilusões sobre a relação
com a grande mídia realimentam uma tediosa rotina.
Em praticamente todos os períodos pós-eleitorais
um velho tema ressurge na agenda de debates e avaliações
da esquerda: qual o papel da mídia nas campanhas e nos
resultados eleitorais e como enfrentar o seu poder de influenciar
a opinião pública? O debate chega a ser tedioso
pela falta de conseqüências práticas. Em geral,
repetem-se acusações e denúncias sobre
o trabalho de manipulação e deformação
das informações. No entanto, passado o clima de
disputa eleitoral, nada é feito de concreto para construir
sistemas alternativos e eficazes de comunicação.
Pior do que isso, boa parte dos parlamentares, sindicalistas
e ativistas de esquerda permanecem privilegiando o contato com
grandes veículos midiáticos, como se isso não
tivesse um alto custo.
Que custo é este? Na verdade, ele se manifesta de diversas
formas. Uma delas é a ausência de iniciativas concretas
para construir um sistema de mídia crítica. A
crítica, neste caso, fica enclausurada em pequenos guetos
de resistência que, no mais das vezes, acaba falando para
si mesma, tentando convencer quem já está convencido
de que vale a pena transformar a vida em algo mais do que uma
expressão de consumismo conformista. Esse conformismo
é uma praga que assola mesmo muitos daqueles que estão
na linha de frente dessa luta. Temos aqui um fenômeno
político-cultural de raízes mais profundas do
que aquelas que são comumente apresentadas. A mera apresentação
de discursos em favor de uma mídia crítica não
vem acompanhada de gestos concretos e exemplares.
O
exemplo como critério
A exemplaridade que se exige aqui está, entre outras
coisas, ligada a um trabalho diário e sistemático
de construção de novos e minimamente eficazes
canais de comunicação. Todos os anos, assistimos
ao nascimento e morte prematura de iniciativas nesta direção.
O fechamento do jornal O Pasquim 21 foi uma das mais recentes.
Publicações como Caros Amigos, Brasil de Fato
e Reportagem sobrevivem a duras penas, com um futuro incerto.
Enquanto isso, a tão criticada grande mídia permanece
sendo privilegiada, tanto no aspecto da publicidade quanto no
estabelecimento de canais especiais de informação,
onde, muitas vezes, a fofoca e a intriga são transformadas
em categorias de disputa política. Nada disso é
novo. A ausência de soluções tampouco.
A
situação é tanto mais grave na medida em
que a grande mídia recusa de modo categórico qualquer
discussão sobre algum tipo de controle social sobre seu
trabalho, alegando que isso seria sinônimo de censura
e cerceamento da liberdade de imprensa. A recente polêmica
envolvendo a proposta de criação de um Conselho
Federal de Jornalismo é apenas mais uma prova disso.
As grandes empresas de comunicação, que investem
hoje em diversas áreas que não tem nada a ver
com comunicação (setor imobiliário, por
exemplo), recusam ter seus negócios submetidos a qualquer
tipo de controle. Seus veículos acabam se transformando
em ferramentas de negócios e a informação
torna-se uma moeda de troca. É óbvio, portanto,
por que recusam qualquer idéia de controle.
O
mercado das ilusões
Essas razões já seriam mais do que suficientes
para fortalecer a idéia de que investir em comunicação
é absolutamente estratégico para quem quer, de
algum modo, construir alternativas aos sistemas políticos,
econômicos e culturais e dominantes. No entanto, na prática,
a vida revela-se mais dura e implacável com certas ilusões
sobre a ocupação de espaços na grande mídia.
E essas ilusões não são um patrimônio
exclusivo da esquerda partidária, freqüentando também
outros movimentos políticos de esquerda. Em fevereiro
de 2004, durante o Encontro Internacional pela Paz a Contra
a Guerra, realizado em Porto Alegre, o jornalista e ativista
francês Bernard Cassen fez uma dura advertência
sobre os riscos da presença destas ilusões entre
o movimento altermundista.
As
palavras de Cassen podem se aplicar, sem maiores dificuldades,
à esquerda em geral. O diretor do jornal Le Monde Diplomatique
lançou, então, uma pergunta para provocar o debate:
por que a crítica ao sistema midiático teve um
atraso em relação à crítica da globalização
neoliberal? A resposta, segundo ele, passa pela constatação
de que uma parcela importante de atores desse movimento evita
críticas diretas à atuação da mídia
por acreditar precisar dela. Na época, a alfinetada dirigia-se
diretamente a alguns ativistas franceses, mas também
se estendeu para o movimento em geral. Para Cassen, muitas pessoas
que querem construir "um outro mundo possível"
mantêm relações privilegiadas com jornalistas
da grande mídia, desenvolvendo uma espécie de
conivência.
A
crítica é pra valer?
O filme é bem conhecido entre nós. As conseqüências
também. Na época, Cassen lembrou o óbvio,
um exercício sempre recomendado em tempos de esquecimentos
estratégicos. Os proprietários dos grandes sistemas
midiáticos são empresários transnacionais
que, na imensa maioria dos casos, têm negócios
diversificados em outros setores para além da mídia.
Ou seja, eles estão conectados ao mercado global e são
atores centrais do processo de globalização. Enquanto
tal, acrescentou o jornalista, esse sistema é um vetor
ideológico estratégico da globalização
do capital. Qual o corolário desse diagnóstico
do ponto de vista da luta política de quem quer mudar
esse modelo? A resposta é: se a crítica à
globalização é pra valer, a crítica
à atuação da mídia também
precisa ser a valer.
O
problema, concluiu, é que muita gente não encara
essa luta pra valer por temer perder espaço nessa mídia.
E os dias vão se passando, com a realimentação
permanente de relações privilegiadas com alguns
jornalistas da grande mídia que vai sendo generosamente
abastecida de informações, fofocas e intrigas.
Até que se perca alguma eleição ou luta
importante, para que todos se lembrem que essa mídia
tem lado e manifesta esse lado, de modo articulado e eficaz,
quando há uma disputa política estratégica.
Resta, depois, lamentar as derrotas e ficar acusando a mídia
de manipulação, como se isso fosse uma grande
novidade. A novidade, para muitos desses críticos de
ocasião, seria despertar deste torpor, abandonar convenientes
ilusões e passar a construir alternativas concretas.
Caso
contrário, seguiremos peregrinando por esse vale midiático
de lágrimas, mendigando espaços quando nos convém,
bajulando quando preciso, e esperneando quando o óbvio
se afirma mais uma vez. Enquanto isso, a grande mídia
olha os peregrinos desse vale com alguma comiseração,
lança algumas migalhas aos olhos e ouvidos famintos por
um pequeno espaço e recomenda: continuem assim!
Marco
Aurélio Weissheimer é jornalista da Agência
Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)
|