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Tesouros da pirataria.


 

Informação: AESP - Associação de Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo - 20/12/2004

Jornal do Brasil Caderno B - Televisão

Globo lança em janeiro DVD com melhores momentos do humorístico 'TV Pirata', marco da televisão

Carlos Helí de Almeida

Revolucionário, iconoclasta, revelador, politicamente incorreto, subversivo. Muitos foram os adjetivos atribuídos ao TV Pirata, humorístico que esteve na tela da Globo de 1988 a 1990 e em 1992. E muitos deles continuarão valendo quando a emissora carioca lançar, em janeiro, em DVD, uma compilação de oito horas com os melhores momentos do programa, primeiro de uma série de iniciativas que comemorarão os 40 anos da Globo. Quando estreou, o TV Pirata revelou redatores, renovou carreiras de atores e modernizou o formato do gênero praticado até então, abrindo caminho para atrações como o Casseta & Planeta, urgente! e Os normais. O TV Pirata foi um produto típico de sua época. O programa encontrou terreno fértil no clima de liberdade a todo custo dos primeiros anos pós-ditadura e nasceu da combinação do talento de redatores de publicações humorísticas alternativas em formato jornalístico, como Casseta Popular e O Planeta Diário, com o de uma nova geração de diretores de televisão determinada a trazer narrativas de outras formas de expressão para o veículo, como o teatro.

Sob a direção geral de Guel Arraes, que já havia introduzido a linguagem do videoclipe no seriado Armação Ilimitada (1985-1988), o programa contou com um equipe de redatores de origens tão distintas como Mauro Rasi, Vicente Pereira, Patrycia Travassos, Felipe Pinheiro e Pedro Cardoso (vindos do teatro), Luis Fernando Verissimo (da literatura), Hubert, Reinaldo, Bussunda, Marcelo Madureira, Helio de La Peña, Cláudio Manoel e Beto Silva (imprensa alternativa). O TV Pirata entrou na Globo no vácuo deixado por Jô Soares, que levou o Viva o gordo para o SBT, rebatizado como Veja o gordo pela emissora paulista. Curiosamente, as sementes do programa foram encontradas em um especial produzido pela TV Bandeirantes chamado Vandergleison show, criado por Cláudio Paiva e redigido pelos integrantes da Casseta e do Planeta.

- Naquela época, o Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, então vice-presidente da Rede Globo) estava querendo inovar a grade da programação. O Sérgio Mata, da Bandeirantes, que era amigo do Boni, o convidou para uma sessão especial de Vandergleison show, antes mesmo de o programa ir ao ar. O Boni gostou tanto da proposta que nos contratou ali mesmo - conta Madureira.

Com a infraestrutura técnica, logística e artística da Globo, o antigo e precário Vandergleison show ganhou as dimensões faraônicas do que ficou conhecido como TV Pirata. O programa se multiplicava em esquetes que envolviam cenografia cuidadosa e atores de primeira. O elenco inicial era formado por Regina Casé, Debora Bloch, Luiz Fernando Guimarães, Ney Latorraca, Cláudia Raia, Guilherme Karam, Louise Cardoso, Diogo Vilela, Marco Nanini e Cristina Pereira. A intensa interação entre redatores, diretores e atores permitiu o surgimento de personagens antológicos como Adelaide Catarina (Debora), a repórter de TV cheia de tiques; Barbosa (Latorraca), o octogenário gagá que costumava repetir a última sílaba pronunciada por quem falava perto dele; ou ainda o casal de âncoras (Regina e Luiz Fernando) de um telejornal que usava a própria casa como estúdio.

- A idéia inicial era de que seguíssemos à risca o que era determinado pelos redatores e pelos diretores. Mas todo mundo tinha tanta idéia, dava tanta sugestão ou fazia reclamações do tipo ''não, essa piada é preconceituosa'', ou '' isso aí eu não faço'', que acabamos estipulando uma reunião de criação às segundas-feiras, na minha casa, com a participação de todo mundo, atores e redatores - lembra Regina, que pegou cancha com os piratas para fazer um humorístico solo, o Programa legal.

Celeiro de criação e de experimentação dramatúrgica, o TV Pirata permitiu que artistas da casa se revelassem em outras praias que não o drama. Foi o que aconteceu com Debora, que andava cansada de viver mocinhas das telenovelas. O convite de Guel Arraes ampliou os horizontes da atriz, então com 25 anos.

- Foi no TV Pirata que eu encontrei a minha turma na televisão. Era uma linguagem com a qual eu me identificava e que tinha a ver com o que eu fazia no teatro, mas não tivera a chance de experimentar na TV ainda. O programa foi uma grande escola pra mim. Trabalhei com atores que eu mais admirava e com quem eu aprendi muito. Fazer tantos personagens por programa foi um grande exercício - reconhece Debora.

A TV zomba de si mesma

A ousadia do TV Pirata não se restringia apenas ao formato. O principal alvo da sátiras do programa eram as próprias fórmulas televisivas. Parodiava-se toda a programação do veículo, das telenovelas aos telejornais, passando pelos programas de auditório. Nem as vinhetas da própria Globo escapava do humor corrosivo da equipe de criadores. O sucesso da nova atração era comprovado pelos números do Ibope: o programa registrava uma média de 40 pontos - hoje, atrações da casa, como A grande família e até o Casseta & Planeta, urgente!, atingem média de 32 pontos.

Apesar dos números favoráveis, o TV Pirata foi sistematicamente atacado pelos humoristas veteranos.

- Diziam que o programa não emplacaria porque as piadas eram cheias de referências, tinha um humor intelectualizado - observou Guel Arraes durante um dos Encontros Com a TV Brasileira, série de simpósios promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio.

- Lembro que o Chico Anysio chegou a dizer que a empregada dele não entendia as piadas do programa, o que eu achei o maior preconceito. Era como chamar o público de ignorante. A grande sacada do Boni ao apostar no desenvolvimento do TV Pirata foi ter percebido que o público de TV daquela época, assim como nós, da equipe de criadores, fazia parte de uma geração formada pela televisão e seria capaz de absorver todas as referências do programa - explica Marcelo Madureira.

A realidade brasileira também era uma grande fonte de inspiração para o TV Pirata. Por causa disso, os criadores compraram briga com muitas personalidades da época. Durante o escândalo da Legião Brasileira de Assistência (LBA), presidida por Rosane Collor, o TV Pirata chegou a retratar a então primeira-dama com roupa de presidiária. Em outro episódio, Dom Elder Câmara, na época arcebispo do Rio de Janeiro, protestou contra um quadro em que um personagem contraia matrimônio com uma galinha. Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães não tiravam os olhos de Leila Cordeiro e Eliakim Araújo, os âncoras da TV Manchete que serviram de inspiração para o Casal Telejornal.

- Nós acompanhávamos tudo que tinha acontecido no Jornal da Manchete na véspera. Se a Leila tivesse mudado o penteado a gente mudava também. Se eles tivessem brigado a gente reproduzia no programa - conta Regina.

Programa volta também à telinha

Ulisses Mattos

Os verdadeiros fãs do TV Pirata não vão ficar apenas com o DVD do programa. Seu acervo ficará lotado de fitas VHS. Isso porque a partir de janeiro o Multishow exibirá 40 episódios do clássico programa, dando uma bela oportunidade aos apreciadores para gravar tudo no videocassete. A iniciativa faz parte das comemorações pelos 40 anos da Globo, que serão marcados pela reapresentação de minisséries e humorístico no canal pago, com início no dia 3 de janeiro.

Diferentemente do DVD do TV Pirata, que trará uma coletânea de quadros, no Multishow irão ao ar episódios completos. Serão dois capítulos por semana, às quartas e sextas, ao meio-dia e às 17h30, a partir de 5 de janeiro. No mesmo horário, TV Pirata se revezará com Armação Ilimitada, às terças e quintas, e Sai de baixo, às segundas, com os primeiros episódios, ainda com participação de Claúdia Jimenez no elenco.

Na programação de minisséries foram selecionados para janeiro Anos dourados, que estréia a faixa; Anos rebeldes, que começa no dia 17; e As noivas de Copacabana, dia 25. Em fevereiro vão ao ar, Sex appeal, a partir do dia primeiro, e Labirinto, com estréia dia 8. Em março, é a vez de O Auto da Compadecida, a partir do dia primeiro; A invenção do Brasil, com estréia no dia 7; e Presença de Anita, dia 10. Em abril chegam O quinto dos infernos, dia primeiro, e Cidade dos homens, dia 22. Todos serão exibidos às 16h e à 1h da madrugada.