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Informação:
Observatório
da Imprensa - 14/12/2004
Alberto
Dines
O
melhor do projeto do Conselho Federal de Jornalismo foi a discussão
que provocou – a mais intensa, a mais ampla e a mais rica
dos últimos 50 anos. Seus desdobramentos foram tão
espontâneos e livres que chegaram à legitimidade
da própria Fenaj (Federação Nacional dos
Jornalistas) em assumir-se como patrocinadora da nova entidade.
Mesmo
bombardeado por jornalistas, juristas, parlamentares, acadêmicos,
empresários e organizações da sociedade
civil, o projeto serviu como catalisador de uma salutar controvérsia
que, embora tardia (deveria ter ocorrido durante os trabalhos
da Constituinte), já não pode ser disfarçada
nem adiada.
A
imprensa e a sociedade brasileira não precisavam nem
pediram a criação do CFJ, mas o acolhimento do
projeto pelo governo e o seu encaminhamento ao Congresso produziu
uma centelha que não pode ser desperdiçada.
Desarmar
este impulso, como pretende a Mesa da Câmara dos Deputados,
significa castigar a sociedade retirando-lhe o direito de participar
ou, pelo menos, conhecer questões fundamentais relacionadas
com o exercício do jornalismo e o funcionamento de uma
imprensa diversificada, livre de constrangimentos políticos,
econômicos e corporativos.
Pior
do que o arquivamento do projeto original é a manobra
para sepultar o substitutivo que a Fenaj foi obrigada a produzir
diante da enorme pressão que sobre ela se armou.
Ao
admitir publicamente que estava errada, inclusive em premissas
básicas como o nome, concepção, estrutura
e função do novo órgão, a Fenaj
indicou uma disposição que o Legislativo –
na condição de grande fórum nacional –
não pode ignorar. Se a Fenaj tem algo a acrescentar,
nada justifica a afobação para abreviar a inusitada
e utilíssima temporada de transparência dos últimos
quatro meses.
Compostura
perdida
Prova
da imperiosa necessidade de manter aceso o debate em torno da
imprensa e do jornalismo é a própria figura do
relator indicado para examinar o projeto que cria o CFJ –
agora apensado a outro, anterior, que cria a Ordem dos Jornalistas
do Brasil. O deputado Nelson Proença (PPS-RS) é
um dos campeões de desregulamentação da
mídia. Para ele, a FCC americana é coisa de comunistas.
O
mais grave, porém, é que o premiado com a relatoria
é também o feliz proprietário de uma rede
de rádios no interior do Rio Grande do Sul. A duplicidade
configura um gritante conflito de interesses e uma evidente
inconstitucionalidade. É líquido e certo: o concessionário
de um serviço público não pode ser ungido
para um mandato popular ou vice-versa. O legislador não
pode acumular funções, ser fiscal e fiscalizado.
Nelson
Proença não é exceção, é
a regra. Grande parte dos plenários da Câmara e
do Senado é constituída por parlamentares-concessionários
de emissoras de rádio e de TV. Alguns fingem um afastamento
protocolar ou licenciamento, a maioria nem se dá ao trabalho
de manter as aparências e o decoro. Se o presidente do
Senado, José Sarney, é um potentado da mídia
eletrônica regional, por que razão seus colegas
do baixo clero não podem gozar dos mesmíssimos
privilégios?
Esta
aberração não será coibida com a
criação do CNJ. Porém, mantida a discussão
suscitada pelo desastrado projeto, será possível
alcançar questões de grande magnitude que desfiguram
a democracia e prejudicam diretamente nossa sociedade em matéria
de informação, cultura e entretenimento. Quando
o legislador deixar de ser concessionário de rádio
e TV estará em condições para encarar a
concentração da mídia – mãe
de todos os problemas.
É
óbvio que ao Executivo não interessa criar mais
atritos na sua base parlamentar. Escaldado no primeiro round,
o governo certamente não vai querer repetir a dose. Melhor
assim. Este é um assunto que interessa principalmente
à sociedade: se o Legislativo perdeu a compostura, pode-se
recorrer ao Judiciário.
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