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Imprensa - 13/12/2004
Por
Ricardo F. Moretzsohn*
Em
Baader-Meinhof Blues, Renato Russo ousou dizer que " a
violência é tão fascinante... e nossas vidas
são tão normais!...", retratando na canção
uma discussão que é de uma seriedade que perpassa
o estoicismo, cuja profundidade é maior do que se pensa
numa análise superficial: o universo mítico que
a televisão apresenta às pessoas, que , mais que
convence, seduz.
No
último dia 17 de outubro a sociedade civil e a Comissão
de Direitos Humanos da Câmara Federal promoveram o Dia
Nacional contra a Baixaria na TV. O dia, que permitiu uma redução
de pelo menos 14 pontos percentuais no Ibope das emissoras comerciais
na grande São Paulo , já pode ser visto como um
marco na história da televisão brasileira, embora
as emissoras comerciais esperneiem em minimizar a importância
do momento e contra-alardear, na efeméride do terrorismo
de que " se está querendo fazer censura" nos
meios de comunicação, sabendo, no expertise comercial
que têm, que, após os anos de calabouço
ditatorial, o povo brasileiro repugna esta palavra: censura.
Repugnamos mesmo. Todos.
Embora
o argumento seja bem planejado, é uma falácia.
O que os movimentos sociais têm buscado não é
– e não poderia jamais ser – o fantasma da
censura à televisão. E neste "decifra-me
ou devoro-te", podemos dizer que a palavra é controle
social. O movimento cresce, de um nascedouro que é a
própria sociedade civil organizada, alvo das emissoras
de televisão, estas concessões públicas
mas que, em nosso país, ganham ares de empresas privadas,
meramente comerciais, veiculando o que querem, da forma como
querem. E ainda cometem o descalabro de afirmar que, se baixaria
dá Ibope, é porque o povo gosta...
Não,
o povo não gosta de baixaria! Quando a própria
sociedade civil começa a se organizar, em busca de um
regramento ético para as televisões brasileiras
, é porque chegou a hora de se conter o excesso. É
porque a programação nas TV’s brasileiras
não tem tido medidas, não tem tido sequer cuidado,
está fora de controle. Extrapola, surpreende, excede,
prende os olhos em cenas das quais não podemos escapar,
porque vêm sem aviso-prévio. Estamos espantados,
horrorizados, de tal forma impactados que não conseguimos
sair da frente do aparelho, e às vezes nem nos damos
conta disso.
Não,
não gostamos de baixaria, não gostamos desse mundo
cão que vem sendo colocado dentro das nossas casas para
nos impactar: ah, o Ibope, claro! O que excede captura, deixa
o sujeito sem recursos para reagir.
De
forma mítica, sabemos, nos contam Hobbes, Rousseau, Freud,
dentre alguns, do por que de uma ordem social. A civilização
é o contraponto ao estado de natureza. No estado de natureza,
o homem bruto, o tempo da barbárie, do gozo sem limite:
da violência como forma única de se conseguir responder
ao perigo do estado natural para atingir um quantum de satisfação
da necessidade. A civilização então nos
vem enquanto recurso inventado pela humanidade, após
adquirir racionalidade, para enfrentar os perigos que vinham
da própria natureza humana, renunciando àquilo
que os aproximava do perigo, ou seja, seu gozo narcísico
antes de tudo. Por isso, renunciamos à barbárie,
sacrificando parte de nossas pulsões , e passamos a respeitar
a dimensão do outro enquanto semelhante. Em vez do matar
ou morrer, o pacto civilizatório que regra, oferecendo
a lei e civilizando as pulsões. Nesse espaço de
trocas simbólicas, o respeito. Para quem desrespeita
o pacto, a sanção.
Mas
a agressividade faz parte da nossa natureza. Então, como
fizemos um pacto, exige-se orientar o caminho das pulsões
dentro do trilho consentido pelas normas da civilidade: faremos
desvios para não violentar o outro, tendo o projeto de
civilização orientando as nossas vidas. E, nesse
contexto, quando um programa de televisão nos mostra
a cena bárbara que não deveria existir e nos prende
de tal forma que não conseguimos fugir ( e dá
Ibope!) é porque consegue, à revelia do público,
nesse momento, a suspensão do recalque civilizatório.
É como se, por um instante, a barbárie fosse de
novo consentida: pode ser mostrada, banalizada, como expressão
de uma possibilidade para a qual não há sanção.
Quando as cenas apresentadas na TV banalizam o pacto social
e invadem a nossa casa, provocam a manifestação
dos sentidos arcaicos que, milenarmente, a humanidade empreende
esforços para recalcar.
E
gostamos disso?
Não,
não gostamos dessa baixaria. Somos capturados por ela.
É diferente. Por isso paramos na frente da TV. Por isso
não mudamos de canal , e não é porque não
haja programação melhor . A banalização
da violência, da sexualidade, da própria vida,
ganha audiência , porque nos fala de algo da nossa natureza
humana que deveria estar recalcado , e não estar ali,
exposto num canal aberto. É preciso dizer não.
É preciso pôr um basta nessa compulsão pela
audiência a qualquer custo, que desrespeita o cidadão
e desrespeita a civilização. O que está
em jogo é o projeto de civilização que
temos construído. Se bem pensadas e planejadas, as programações
das TV’s são fundamentais para a transmissão
de valores, normas, cultura. Para nos fazer crer que um mundo
melhor é possível. E é isso o que queremos:
a concretização de um projeto civilizador que
seja plural e participativo, fonte inesgotável de possibilidades,
informações, entretenimento e o que mais couber,
com qualidade, que possa efetivamente contribuir para se viver
melhor.
*
Ricardo F. Moretzsohn , psicólogo, é presidente
do Conselho Federal de Psicologia, membro do Fórum Nacional
pela Democratização da Comunicação,
membro da Executiva da Campanha Nacional contra a Baixaria na
TV e conselheiro do Conselho de Comunicação Social
do Congresso Nacional.
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