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Informação:
Observatório
da Imprensa - 14/12/2004
Frederico
R. de Abranches Viotti (*)
O
artigo de Nelson Hoineff, "Telejornalismo e a crise do
velho modelo" coloca em foco um ponto muito importante
na discussão do telejornalismo atual. De fato, não
me parece haver dúvidas da existência de uma espécie
de "crise" axiológica rondando as redações
dos meios de comunicação – e não
apenas no telejornalismo. Nesse sentido, li o artigo com muito
interesse, visto que compartilhamos dessa mesma opinião
inicial. Todavia, no que diz respeito à interpretação
desse problema, que chamei de axiológico, nossas opiniões
divergem.
Utilizo
o termo "axiológico" não no sentido
de que os jornalistas se sentem desnorteados no mundo atual
– um mundo onde as transformações não
apenas são constantes, mas onde a própria constância
tem sido inconstante – mas sim que o mundo atual deixou
de lado as premissas dos jornalistas.
É
certo que muitos jornalistas também se sentem desnorteados,
mas não é esse aspecto que eu gostaria de comentar.
O principal fenômeno, a meu ver, não reside nos
jornalistas, mas na enorme transformação de um
público que, durante muitas décadas, aceitou pacificamente
a chamada imparcialidade jornalística, vendo-a como fonte
de informação confiável. Até esse
ponto, julgo que ainda estamos de acordo.
O
fim das ideologias
O
problema é que a argumentação ao autor,
feita do ponto de vista do jornalista, e não do público,
parece entender que é o princípio de uma mídia
isenta que está sendo questionado, e não a isenção
da mídia.
Parece-me
que já não é de hoje que a comunicação
jornalística, isto é, a comunicação
dos homens de comunicação, estava se tornando
um monólogo. Um monólogo que encontrava ressonância
num mundo cada vez menos ideológico, no qual as diversidades
se esvaziavam no nivelamento monocromático das massas.
A
imprensa, como uma mulher vaidosa, construiu seu templo no Olimpo
da informação, no ápice desse conhecimento
massificado. Do alto de sua montanha de informações,
transmitia não apenas a notícia, mas também
sua interpretação. Afinal, uma notícia
mastigada pelo âncora independente era sempre mais facilmente
absorvida.
Parecia
o coroamento de uma longa espera que chegava ao auge nos anos
90, a década em que alguns chegaram a defender um pretenso
"fim da história", como o fez Fukuyama, diante
do fim das ideologias. Desse auge a-ideológico, num mundo
onde os valores religiosos tinham sido relegados ao domínio
do subjetivo, deveria nascer forte a mídia independente.
O
caso Dan Rather
Todavia,
nem a imprensa tornou-se verdadeiramente isenta de ideologia
e nem a religião aceitou sua nova posição
na história. E aqui me parece que está o problema
que o artigo não analisa.
Não
é apenas a mídia tida como "isenta"
que está em crise (veja o caso do Libération,
na França, um jornal que nunca poderia ser chamado de
imparcial), mas toda a mídia que não entendeu
uma espécie de revanche ideológica da história.
Os
jornalistas ainda vivem nas premissas dos anos 90, enquanto
o público respira valores que poderiam ser classificados
como mais atuais... Ou seria melhor dizer mais antigos? Nesse
sentido, os telespectadores da Fox não mudaram de emissora
porque cansaram da "isenção" da CNN,
por exemplo. Eles cansaram foi da CNN, que se proclamava isenta
enquanto tinha uma clara opção ideológica.
Uma opção ideológica que eles mesmos não
percebiam nos anos 1990.
Vamos
analisar com mais atenção o caso de um dos âncoras,
Dan Rather, citado em seu artigo. Segundo sua tese, ele estaria
tendo problemas diante do fato de que um público cada
vez maior não buscava mais a isenção em
telejornais. Ocorre que Dan Rather foi desacreditado exatamente
porque não havia sido "isento" ao desacreditar
o serviço militar do presidente George Bush na Guarda
Nacional, no programa do dia 8 de setembro, feito ainda durante
a campanha eleitoral. Denunciado por blogs americanos, que provaram
a falsidade da acusação de Rather contra Bush,
a credibilidade dele ficou profundamente abalada, como consta
em matéria do New York Times reproduzida no dia 22 de
setembro pelo Estado de S. Paulo. Era um sinal claro não
apenas da parcialidade dos "isentos", mas de algo
ainda mais profundo: a imprensa perdera o monopólio da
informação com o advento da internet.
Parcialmente
"descolada"
Da
mesma maneira, diversos meios de comunicação acostumados
a dar a interpretação que julgavam isenta encontram
hoje um público cada vez maior a suspeitar dessa imparcialidade
e a defender princípios tidos como ultrapassados. E não
é por acaso que esses princípios são considerados
ultrapassados exatamente pelos que se dizem isentos (como se,
nesse juízo acerca dos princípios, não
houvesse uma clara posição não-isenta)...
Nesse
contexto, a Fox encontrou um público cansado de uma pretensa
e questionável isenção dos meios de comunicação,
um público ideológico, tendente à defesa
de valores conservadores e com a capacidade de divulgar esses
valores através de canais estranhos à mídia
convencional.
Poderíamos
dizer que a imprensa tida como "isenta" está
parcialmente "descolada" do público e esse
"descolamento" tende a crescer na mesma medida em
que ela demorar a entender essa mudança axiológica
e as conseqüências da perda de seu monopólio.
E, certamente, não será acusando seus "descolados"
de serem parciais que ela restabelecerá a confiança
perdida.
(*)
Cientista político pela Universidade de Brasília
e bacharel em Direito (http://www.angelfire.com/id/Viotti)
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