| Informação:
Folha de São
Paulo - Opinião - 08/12/2004
José
Paulo Cavalcanti Filho
Na
televisão, Jota Silvestre fazia perguntas embaraçosas,
a candidatos assustados, sobre um tema qualquer, de formigas
a listas telefônicas. O céu, nesse programa, tinha
limites modestos. Em cruzeiros. Tão diferente do de hoje,
escrito em inglês -Sky- e que até dono tem: a News
Corporation, do magnata Rupert Murdoch. Já controlava
a DirecTV, agora compra a Sky brasileira. E é só
o começo.
Informação
é soberania. Meios de comunicação devem
estar a serviço dos interesses do país.
Na
Guerra do Golfo, a versão da CNN encontrou contraponto
em grandes redes árabes, Al Jazira e Al Arábia.
Deve ser também assim conosco. Precisamos ser ouvidos
pela comunidade internacional quando se discutir energia atômica
ou preservação da floresta amazônica. Produção
de conteúdo deve estar em mãos de brasileiros.
Mas vamos na contramão da história, em uma teia
como que tecida pela omissão.
O
problema remonta a 1996, quando o então ministro das
Comunicações, Sérgio Motta, em portarias,
deferiu (graciosamente) as duas primeiras concessões
de TV por satélite -à Globo e ao Grupo Abril.
Ambas já operando, desde 1992, sem ato formal que as
amparasse. Como as concessões beneficiaram dois grupos
brasileiros, ao menos não se quebrou a regra de reserva
de conteúdo em mãos brasileiras, soberanamente
definida pelo Congresso Nacional -jornais, 100%; rádio
e televisão aberta, 70%; TV a cabo, 51%. Sem lei que
fixe limites diferentes destes para qualquer outro meio de comunicação.
Informação
é soberania. Meios de comunicação devem
estar a serviço dos interesses do país
No
ano seguinte é criada a Anatel. E os problemas se agravam
quando ela passa a deferir concessões para transmissões
de conteúdo. Sem poder para isso; traindo o Congresso
Nacional, ao deferir essas outorgas a grupos estrangeiros. Para
a Anatel, "Bom Dia Brasil" na Globo, às 7 horas,
é televisão; enquanto o VT desse mesmo "Bom
Dia Brasil", no GNT, deixa de o ser. No caso das concessões
entendendo que, em ausência de lei, é livre para
entregar a transmissão de conteúdo a multinacionais.
Não
é. No Brasil, durante décadas, o transporte aéreo
se fez com base na legislação de transporte marítimo
-adaptado, apenas, às óbvias diferenças
entre um corpo que flutua (e, vez por outra, afunda) e outro
que voa (e cai). Outorgas para outras tecnologias de comunicação,
quando admitidas, deveriam necessariamente se fazer com leves
adaptações decorrentes de um novo meio técnico
-no caso, satélite ("direct to home", DTH),
e não cabo. Em qualquer cenário, mantidas as regras
estruturais do serviço. Entre elas, aquela fundamental
de garantir o controle brasileiro na produção
de conteúdo. Palavras ao vento. Pouco a pouco se convertendo,
nosso país, em pasto de transnacionais. Banda C (Brasilsat),
telefones, internet e tantos outros meios novos já estão,
quase todos, em mãos estrangeiras. Afrontando a lei quando
produzem (e não apenas veiculam) conteúdo.
A
idéia de que possa haver "direito adquirido"
nessas concessões não tem respaldo na experiência
internacional. A Federal Communication Comission, FCC, aprovou
em 1970 uma Cross-Ownership Rule vedando o controle cumulativo
-nos 212 mercados comerciais em que, para esse fim, dividiu
os Estados Unidos- de "broadcast" (televisão
e rádio) e "newspaper" (imprensa escrita).
Por essa época, 256 jornais diários pertenciam
a grupos que tinham estações de rádio,
dos quais 160 também de televisão -entre eles
o "Daily News", de Nova York; o "Tribune",
de Chicago; e, na capital, o "Post Dispatch" e o "Washington
Post". Boa parte simplesmente fechou. A maioria foi vendida.
Nenhum grupo conseguiu manter a "propriedade cruzada"
vedada por essa "order".
O
próprio Murdoch conhece disso muito bem. Em 1987 o Congresso
americano aprovou lei (proposta pelos senadores Hollings e Kennedy)
vedando a concessão, pela FCC, de "temporal waivers"
(autorizações temporárias), permitindo
a acumulação de meios de comunicação.
Em que era ele, precisamente, o maior beneficiário. Acabou
tendo que vender boa parte desses veículos. Como o "New
York Post", 700 mil exemplares, transferido a Peter Kalikow,
para poder ficar, naquele mercado, com o Canal 5 (Fox TV); ou
o canal 25, de Boston, mantendo o "Boston Herald"
(280 mil exemplares). Passado um ano, nesse último caso,
e não o tendo feito, a emissora acabou assumida por interventores
da FCC, que a dirigiram e acabaram por transferir seu controle
a um time de basquete, o Boston Celtics.
O
jogo agora é outro. E se joga no Brasil. Os riscos de
aumento dramático da presença estrangeira na mídia
brasileira são reais. Na Inglaterra, a popularização
da televisão paga se deu com a distribuição,
a baixos custos, de decodificadores de banda KU, incorporando
canais locais. Isso poderia ocorrer também aqui. Outras
possibilidades virão com a digitalização.
Capital, para essa gente, não falta. Tudo levando à
urgente necessidade de proteção democrática
do conteúdo, em mãos brasileiras.
Com
esses fundamentos, o Conselho de Comunicação Social
aprovou, anteontem, recomendação ao Congresso
Nacional, Anatel, Cade e Ministério das Comunicações
para que atuem na defesa de nossa soberania. Logo. Porque ignorar
os riscos de desnacionalização, nesse campo, é
um erro grave.
José
Paulo Cavalcanti Filho, 56, advogado, é presidente
do Conselho de Comunicação Social do Congresso
Nacional. Foi presidente do Cade (Conselho Administrativo de
Defesa Econômica) e da Empresa Brasileira de Notícias,
além de secretário-geral do Ministério
da Justiça (governo Sarney).
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