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Roberto Marinho, o livro.


 

Informação: Direto da Redação - 08/12/2004

Eliakim Araujo

Apesar da grande promoção da mídia em torno do lançamento de “Roberto Marinho”, de autoria do jornalista Pedro Bial, creio que o livro já nasce sob o signo da suspeição.

A começar pelo seu autor. É inegável o mérito de Bial como repórter, e acredito mesmo que ele tenha produzido uma reportagem em forma de livro. O que não dá para acreditar é na total “independência” que ele apregoa ter recebido dos herdeiros do Dr. Roberto para pesquisar os tais quatro mil documentos anunciados. Bial é funcionário de prestígio na Globo há mais de vinte anos e, como não podia deixar de ser, retrata seu personagem de maneira extremamente simpática e, até, parcial.

Na entrevista que deu ao repórter Darlan Alavarenga, do Ultimo Segundo, Bial mostra toda sua devoção pela empresa que o acolhe há tantos anos. Quando o repórter lhe lembra o bordão popular “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, Bial retruca “o povo não é bobo, só vê a Rede Globo”. Tá certo, ele tem que defender quem lhe garante o sustento. Agora, então, com o livro, Bial assegura mais vinte anos na emissora dos Marinho.

O livro “Roberto Marinho” faz parte do Projeto Memória, que já produziu “Dicionário da TV Globo” e “Jornal Nacional - A Notícia faz História”. Trata-se de uma verdadeira força-tarefa criada para contar a versão da emissora sobre sua participação em momentos decisivos da história recente do país e, assim, tentar conquistar a credibilidade arranhada durante tanto tempo.

“Roberto Marinho” fica na periferia desses episódios. Bial limita-se a dar a versão oficial da emissora à parceria ilícita com o Grupo Time-Life, logo nos primórdios do império, ao caso Proconsult, recentemente dissecado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, à proibição de noticiar ou mesmo citar a palavra "Diretas” em seus noticiários, à edição do debate entre os presidenciáveis Lula e Collor, em 1989. Acredito que os grandes acordos e conchavos e o tráfico de influência muito natural entre os barões da mídia e o poder jamais virão a público e esses certamente não passaram pelos pesquisadores do livro. Normalmente não deixam vestígios.

Em compensação, é rico em contar passagens amenas da vida pessoal de Roberto Marinho. Através do livro de Bial, ficamos sabendo que Marinho foi “um cara ultranamorador, boêmio, que nem os filhos imaginavam”, que era chamado de Deus, por alguns funcionários (entre eles o próprio Bial), que quase naufragou num barco em chamas, que teve uma decepção amorosa com uma moça chamada Elsa, que usava pó de arroz “em razão de um certo desconforto com a cor da pele”, que possuía uma coleção com 5.328 gravatas (?), que tomava apenas um copo de Romanée-Conti quando ia à casa do Boni, que voltou a montar a cavalo aos setenta anos e levou muitos tombos…enfim, em matéria de fofocas, aventuras e namoros o livro merece ser lido. Afinal, o povão que não tem onde cair morto alimenta enorme curiosidade em saber como vivem (ou viveram) os grandes milionários brasileiros.

À parte esse festival de amenidades – que está mais para “Caras” do que para uma obra séria -, penso que “Roberto Marinho” deve ser lido com cautela. Não se lhe pode conferir o peso de uma obra de valor histórico, uma vez que os pontos capitais da ligação de Marinho com o poder e o impressionante crescimento da empresa durante a ditadura militar são assuntos “tabú” , que Bial tenta explicar, mas não consegue convencer, pois limita-se a dar a sua interpretação ou aquela que lhe foi pedida. São episódios duvidosos que a Globo, com o tempo, vai acabar impondo à opinião pública a sua versão, atropelando muitos fatos verdadeiros vivenciados por funcionários que já não estão na emissora e por alguns que ainda lá trabalham.

Sobre o autor: Ancorou o primeiro canal internacional de notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi âncora dos Jornais da Globo, da Manchete e do SBT e noticiarista da Rádio JB. Mora com a família em Miami onde presta assessoria de jornalismo e marketing.