Informação:
Observatório
da Imprensa - 24/08/2004
Alberto
Dines
O
lançamento de Veja, em 1968, representou não apenas
um amadurecimento profissional do nosso jornalismo semanal com
também um importante passo no desenvolvimento da própria
imprensa brasileira. Completou-se o arco midiático que
passou a dispor de todas as opções informativas
– do flash instantâneo que os recursos da TV Globo
começaram a oferecer a partir de 1965 ao noticiário
mais referenciado dos jornais, agora acrescido da perspectiva
semanal refinada.
Apareceram
outros semanários – IstoÉ, CartaCapital,
Época – e hoje, 36 anos depois, ao invés
de um saldo positivo temos um quadro desolador e um segmento
em processo avançado de desqualificação.
Na direção contrária, os três grandes
diários nacionais, no seu conjunto, representam um setor
razoavelmente atento aos compromissos da imprensa com a sociedade.
Jornais
também enfiaram-se no vicioso denuncismo e deram decisiva
contribuição para a criação do jornalismo
fiteiro. Foram os artífices da grampolândia, tão
irresponsáveis quanto as revistas. Mais visíveis
e mais vulneráveis, no entanto, aprenderam – ou
foram obrigados a aprender – como comportar-se com mais
compostura. Os escorregões são mais discretos.
Ainda
é possível identificar nos grandes jornais as
"matérias de favor", as jogadas dos departamentos
comerciais, predileções e apostas tanto das empresas
como dos profissionais, sobretudo as deficiências noticiosas
decorrentes de uma semana artificialmente encurtada. Mas nos
seus contornos mais amplos o quadro do jornalismo diário
está menos deteriorado.
Estilo
de crítica
O
rififi entre Veja e IstoÉ, começado no fim de
semana de14-15/8 e levado ao paroxismo neste último (21-22/8),
flagra um segmento em pleno processo de degradação.
Na
qualidade de pioneira do jornalismo semanal moderno, Veja infelizmente
também estabeleceu péssimos paradigmas. E IstoÉ,
na condição de clone, repete-os integralmente.
Nesta arena onde só aparecem vilões somos obrigados
a testemunhar o deprimente espetáculo dos rotos engalfinhados
com os esfarrapados.
Se
Veja pertence a uma empresa rigorosa em matéria de separação
entre publicidade e informação, iguala-se a IstoÉ
em matéria de arrogância. Se Veja oferece aos leitores
um painel de colunistas qualificados, seus ressentimentos e
mesquinharias colocam-na no mesmo nível da principal
concorrente. Se a revista da Editora Abril equipara-se em matéria
de circulação às quatro maiores do mundo,
sua forma selvagem de reagir às críticas e aos
críticos colocam-na no mesmo patamar caudilhesco e provinciano
da rival.
Foi
na redação da Veja que inventou-se a técnica
de induzir os entrevistados a dizer aquilo que o redator já
colocara na matéria. Graças a ela a revista produziu
um dos mais pitorescos vexames, o "Caso do Boimate",
transgênico que combinaria os atributos do boi com o tomate.
O erro só foi assumido semanas depois, porque a infalibilidade
olímpica dos chefes da redação não
permitia o reconhecimento do deslize [conheça a história
no Portal do Jornalismo Científico, em http://www.jornalismocientifico.com.br/artigojornacientificowbuenoboimate.htm)
Veja
protegeu ao longo de duas décadas o ministro depois senador
Antonio Carlos Magalhães oferecendo-lhe uma blindagem
decisiva para a sua sobrevivência. Não significa
que IstoÉ seja imune às empatias político-jornalísticas;
as suas, porém, são rápidas, mutantes,
como o atesta a admiração do hebdomadário
pelo casal governador do estado do Rio de Janeiro.
O
semanário da Abril também inovou no jornalismo
literário. No meio do primeiro semestre era capaz de
afirmar que o livro do apaniguado era o "livro do ano"
e que o autor "antipático" deveria ser condenado
ao eterno ostracismo. Este estilo mafioso de crítica
literária, praticado com afinco ao longo de algumas décadas,
acabou por produzir enormes distorções na própria
literatura brasileira graças à formidável
penetração do semanário. Não foi
extirpado, embora os nomes no expediente da revista tenham sido
trocados.
Leitores
humilhados
Enquanto
a concorrência entre os jornais processa-se através
da diversidade de estilos, teores ou estratégias comerciais,
a concorrência Veja vs. IstoÉ dá-se através
de uma desvairada busca de semelhanças: não ousam
diferenciar-se, imitam-se, repetem-se e juntas se desmoralizam.
Veja
inventou o jornalismo de auto-ajuda com aquelas matérias
de capa sobre corpo, saúde, mente e sexo – e IstoÉ
foi na onda. Mesmo que Veja tenha mais recursos para investir
o resultado é o mesmo: os assuntos mais importantes da
semana são espremidos e os leitores de ambas são
empurrados para a alienação.
Nesta
semana exemplar, enquanto IstoÉ ataca pela enésima
vez a "Síndrome do Pânico", Veja investe
pela undécima edição no "Poder Interior".
Resultado da similaridade: o jornalismo semanal foi transformado
numa cultura de almanaque entremeada com mulheres seminuas e
frases de efeito, semiburras.
Exemplo
da atração fatal é o recente surto denuncista
– responsável direto pelo surto autoritário
do governo Lula. Iniciado irresponsavelmente pela IstoÉ,
numa clara jogada contra a ala do ministro Antonio Palocci,
teve a imediata adesão de Veja, em cujas páginas
mais nobres chegou-se a afirmar que numa sociedade democrática
é impossível defender a privacidade e a honorabilidade
dos homens públicos.
O
pivô da contenda foi o mea-culpa do repórter Luís
Costa Pinto (ex-Veja) no qual reconhece seu erro na matéria
que criou o clima para o massacre do então deputado Ibsen
Pinheiro. A matéria que deveria ser um libelo contra
o denuncismo irresponsável acabou transformada em peça
emblemática do jornalismo denuncista: a retratação
do jornalista foi publicada sem a sua autorização
e, na acusação à concorrente, IstoÉ
omitiu que na ocasião também embarcou na canoa
furada do vazamento sem investigação.
Em
compensação, a furibunda resposta de Veja é
um modelo de linchamento midiático contra um repórter
que ousou expor publicamente a sua falha. Ao invés de
crucificá-lo, cabia-lhe incentivar este tipo de comportamento.
É assim que se faz em ambientes civilizados [veja, nesta
rubrica, o artigo "Mídia reivindica desimportância"].
A
dupla exibição de impropérios e a idêntica
falta de decoro, embora constrangedoras, são oportunas.
Com ventiladores da mesma marca e igual disposição
para distribuir a lama, fica evidente que está na hora
de desmascarar este tipo de jornalismo: humilha os leitores,
desmoraliza os anúncios que sustentam estas revistas
e retira da imprensa a pouca credibilidade que lhe restou.
VEJA
vs. ISTOÉ
Mídia reivindica desimportância.
Informação:
Observatório
da Imprensa - 24/08/2004
Mauro Malin
O
Globo, a Folha de S.Paulo e Veja procuraram mostrar, no fim
de semana de 21-22/8, que a mídia não foi responsável
pela cassação do deputado Ibsen Pinheiro em 1993,
como pretendeu IstoÉ uma semana antes. Literalmente,
é certo que a mídia não cassou Ibsen. Seus
pares na Câmara o fizeram – por 296 votos, contra
139.
Para
atenuar o alcance dos desatinos que comete, a mídia não
hesita em reduzir sua própria importância no processo
político. Qualquer sociólogo de botequim identificaria
uma dose excessiva de "cretinismo parlamentar" na
idéia de que deputados e senadores votam sem levar em
conta as tendências da sociedade que a mídia espelha
e alimenta, alimenta e espelha. Sem mídia funcionando,
o Congresso perde o sentido.
Esse
esforço defensivo não tem nada de surpreendente.
Em lugar nenhum do mundo a mídia gosta de reconhecer
seus erros ou dar satisfações a quem quer que
seja. No Brasil, ganhou um bom pretexto para se esquivar à
crítica quando o governo federal encampou infeliz proposta,
feita por uma entidade sindical, de se criar uma autarquia capaz
de "orientar, disciplinar e fiscalizar" o trabalho
da imprensa no país.
Ibsen,
o volátil
Em
reportagem de Frederico Vasconcelos, a Folha ouviu Ibsen, sob
o título "Ex-deputado absolve mídia por sua
cassação em 1993". O lead é categórico:
"A cassação (...) não foi provocada
por distorções em informações publicadas
pela imprensa". Em seguida, a asseveração
ganha patronos: "Quem admite isso é o próprio
parlamentar cassado e o relator da CPI do Orçamento,
Roberto Magalhães".
A
opinião de Ibsen mudou. Em 19 de maio de 1994, a reportagem
da Folha sobre a cassação, votada na véspera,
citava:
"No
discurso [feito durante a sessão], Ibsen defendeu
a Câmara e atacou a imprensa. ‘Sempre fui
um defensor desta Casa. Não permiti que a polícia
entrasse aqui para investigar as denúncias de prostituição
e tráfico de drogas na Câmara’, afirmou.
As duas reportagens foram publicadas pela Folha. Ibsen
afirmou que a imprensa tem interesse em criticar o Congresso,
sem deixar claro que interesses são estes: ‘É
preciso intimidar a Casa, mantê-la acossada’.
Segundo o deputado, ao contrário da saúde
e dos livros no Brasil, a imprensa tem isenção
de impostos e uma ‘convivência espúria’
com as verbas públicas".
A
crítica da crítica
O
ombudsman da Folha, Marcelo Beraba, repete Frederico Vasconcelos.
"Não foi o erro do repórter – que,
segundo a Veja, nem sequer foi publicado – que cassou
o mandato de Ibsen Pinheiro". E, como Vasconcelos, refere-se
a fatos apurados pela CPI do Orçamento: "Ele [Ibsen]
foi cassado, segundo a representação da Mesa da
Câmara, porque ‘comprovou-se a prática de
atos passíveis de caracterizar incompatibilidade com
o decoro parlamentar, notadamente o enriquecimento sem causa
e prática de infração fiscal’".
Beraba
lamenta não ter tido condições de estudar
e analisar melhor o caso. Mas dá as informações
principais: Ibsen não teria conseguido explicar sua movimentação
bancária entre 1989 e 1993. Na mesma edição
dominical da Folha, Janio de Freitas, que classifica como farsa
o arrependimento de Luís Costa Pinto via IstoÉ,
relaciona denúncias contra Ibsen examinadas pela CPI:
transferência de recursos ao Uruguai para escapar ao confisco
de 1990; venda não documentada de uma caminhonete; não
ter agido, como presidente da Câmara, para permitir o
devido curso da primeira CPI do Orçamento, arquivada
em 1992; ter comprado um imóvel com "dinheiro levado
em mala". Resume: "Ibsen Pinheiro foi cassado pelo
conjunto de sua obra". E conclui: todos esses dados foram
publicados à época e jamais contestados. "Nem
mesmo pelo atual denuncismo contra o denuncismo da imprensa,
que preferiu ou precisou não os lembrar."
Veja
julga e condena
Veja
cobra de IstoÉ ("Uma farsa chamada IstoÉ")
uma "lição de casa" que não fez.
Os três jornalistas da Folha, com graus bem diferentes
de profundidade, fizeram. E também O Globo, na reportagem
"Ibsen foi cassado porque não explicou depósitos",
assinada por Ilimar Franco e Maria Lima (edição
de 22/8), onde há uma cifra – espera-se que bem
checada: "US$ 847.992 não foram explicados e eram
incompatíveis com seus vencimentos, que somaram, no mesmo
período, o equivalente a US$ 430.359".
Veja
usa um estilo lacerdista de combate. E, a folhas tantas do processo,
condena Luís Costa Pinto: "Sua carta a Ibsen cortou
definitivamente sua trajetória no jornalismo". Está
exarada a sentença. Veja dispensa conselho, tribunal
de ética, o que seja. O "crime", note-se, foi
ter escrito a carta.
IstoÉ
aproveitou-se: "Nem um stalinista Conselho Federal de Jornalismo
da velha União Soviética faria o que fez Veja".
IstoÉ
conseguiu a proeza de responder a Veja sem dizer uma palavra
a respeito da mais grave acusação que já
sofreu, a de ter vendido à Federação das
Indústrias do Rio de Janeiro uma reportagem de capa sobre
o Rio que favorecia politicamente a governadora Rosinha Mateus
e o ex-governador Anthony Garotinho.
Nenhum
dos veículos citados faz qualquer referência à
questão da propriedade concentrada dos meios de comunicação.
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