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TVs americanas tentam evitar desastre de 2000.


 

Informação: Comunique-se - 22/10/2004

Antonio Brasil

Segundo o todo-poderoso Tom Brokaw da NBC, âncora do telejornal mais assistido na América, este ano, tudo será diferente. Em um release divulgado esta semana pela rede de TV americana, Tom Brokaw faz questão de anunciar os novos planos e estratégias da divulgação dos resultados das eleições. “Aprendemos com os nossos erros em 2000. Este ano, ao invés de Flórida, Flórida, Flórida, teremos, Jornalismo, Jornalismo, Jornalismo.” Trata-se de uma promessa ambiciosa, considerando a perspectiva de uma eleição ainda mais apertada do que em 2000. Mas considerando as dificuldades que enfrenta o jornalismo de TV nos EUA, essa promessa é ainda mais importante e se transforma em uma “última oportunidade” para evitar que a TV e o seu jornalismo não sejam mais levados a sério.

De qualquer maneira, quem viver, verá. O importante é que as redes de TV americanas estão se preparando de alguma forma para evitar o verdadeiro desastre das últimas eleições. O relatório divulgado pela NBC inclui uma série de procedimentos a serem evitados pelos responsáveis pela divulgação dos resultados das eleições.

Em 2000, a pressa de ser a primeira rede a divulgar o “vencedor” das eleições ou “interesses” políticos e econômicos ainda pouco esclarecidos causaram um dos momentos mais humilhantes em toda a história do jornalismo de TV. Diversos estudos acadêmicos e análises profissionais foram produzidos sobre o verdadeiro “caos” que se tornou as horas que se seguiram à divulgação dos primeiros resultados pelos âncoras americanos. Um verdadeiro festival de incompetência jornalística, uma prova de revezamento para saber quem cometia mais erros ou falava mais bobagens. Uma verdadeira noite dos desesperados. As redes de TV americanas abriram mão dos preceitos mais básicos do jornalismo - a confirmação dos fatos e das fontes para se concentrar somente no lado competitivo de ser o primeiro a anunciar o novo presidente americano. E foi um tal de dizer e desdizer resultados durante a noite inteira. Os casos polêmicos de jornalistas plagiadores e mentirosos do NYT e do New Republic ainda trariam o jornalismo americano às profundezas jamais visitadas. Mas as promessas e as revisões de procedimentos profissionais de hoje podem ser um bom sinal para o futuro do jornalismo. Alguns pessimistas confirmam, e dizem que não poderia ser de outra forma. Não havia mais nada para piorar!

Pressa no telejornalismo: 2000 nos EUA e escândalo Proconsult no Brasil
As eleições presidências de 2000 foram tão trágicas para a credibilidade e seriedade das redes americanas de TV como certamente foi o escândalo Proconsult para o jornalismo da Rede Globo durante as eleições para governador do Rio de Janeiro. A grande diferença é que dificilmente investigamos de forma independente e mudamos de forma definitiva os nossos procedimentos jornalísticos. É muito mais fácil e menos traumático produzir uma “revisão” da história do nosso telejornalismo com historiadores contratados, jornalistas com cargos de confiança nas próprias emissoras que deveriam investigar.

Credibilidade e seriedade em jornalismo são um investimento a longo prazo e de alto risco. A qualquer momento, um tropeço ou deslize compromete o trabalho de muitos anos. E tanto o povo, como o público de TV não são bobos. A pressa em divulgar resultados eleitorais e a dependência de “esquemas” improvisados e milagrosos podem causar efeitos perigosos e indesejáveis.

Este ano, as redes americanos estão investindo pesado não só em “promessas” mas também têm produzido uma cobertura considerada “diferenciada”. Ao invés de se concentrar nas pesquisas, ou como preferem os analistas, no posicionamento de uma “horse race”, na “corrida de cavalos”, as TVs americanas estão produzindo matérias mais aprofundadas nessas eleições.

Jornalistas americanos estão insatisfeitos com a cobertura das eleições
Mas os problemas do jornalismo americano durante essa campanha presidencial não se restringem às redes de TV. Segundo outra pesquisa divulgada esta semana aqui nos EUA, os jornalistas americanos não estão satisfeitos com a própria performance na cobertura da campanha presidencial. A somente duas semana das eleições, somente 3% do 499 jornalistas entrevistados pelo Committee of Concerned Journalists deram à imprensa a nota máxima, A. Cerca de 27% dos colegas americanos entrevistados deram a nota B, mas quase a metade do total, cerca de 42% dos jornalistas entrevistados deram notas C (média minima para passar) e 27% deram notas entre D e F (reprovação).

O problema é que o pior ainda pode estar por vir. Mesmo com todos os cuidados em relação à cobertura dos primeiros resultados das eleições, as pressões para “bater” a competição e ser o primeiro a divulgar o vencedor ainda são suficientemente fortes para comprometer não só as “promessas”, mas condenar o próprio futuro do jornalismo.