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Informação:
Observatório
da Imprensa - 30/11/2004
Nelson
Hoineff
A
Folha de S.Paulo publicou no domingo (28/11) uma ampla matéria
("TV barra obrigação de exibir independentes")
que poderia ser usada nas universidades para mostrar como informações
incompletas, ainda que inocentes, podem ser mais desinformativas
do que os esforços orgânicos de desinformação.
Um
grande esforço de desinformação, como se
sabe, vem sendo perpetrado por boa parte da mídia desde
que foi apresentado o projeto de criação da Ancinav
(Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), em agosto
deste ano. Começou por buscar os excessos que havia na
primeira versão do projeto (entre os quais algumas propostas
seguramente concentracionistas, que poderiam induzir indesejáveis
interferências no conteúdo) para torpedear todo
o seu teor.
A
maioria desses excessos caiu por terra logo na primeira reunião
do Conselho Superior de Cinema – e ao longo das dez outras
que se seguiram. Mas os ataques ao projeto continuaram, e nem
sempre no campo das idéias.
É
muito possível que uma rejeição tão
genérica se deva simplesmente à imagem que restou
de um projeto que acabou sendo preparado e lançado de
forma atabalhoada. Mas é possível também
que tal reação seja mais cerebral do que intuitiva
– e tenha como base o repúdio à intenção,
de fato contida no projeto, de se criar no Brasil alguma forma
de regulação à distribuição
do conteúdo audiovisual.
Controle
estrangeiro
É
preciso que se entenda que a regulação em si não
é fruto de uma agenda ideológica inventada pelo
governo brasileiro. Ela existe, solidamente implantada, em países
como os EUA, a França, a Grã Bretanha e a Alemanha,
para ficar só no grupo dos mais liberais.
Nesses
países a lei distingue o emissor do produtor, cria condições
para que as emissoras de televisão sejam impelidas a
buscar em produtores externos parcelas substanciais de sua programação,
estabelece porcentuais para isso e determina a participação
das emissoras de TV na produção dessas obras.
Trata-se, em quase todos os casos, de preceitos regulatórios
não restritivos, mas inclusivos. Não se tira de
um lado para dar ao outro. Apenas se preconiza direitos e oportunidades
isonômicas à produção audiovisual,
como é praxe em todas as demais indústrias.
Nos
mercados em que existe esse tipo de regulação
o resultado tem sido o fortalecimento da televisão –
que exibe uma programação melhor e mais diversificada
– e dos produtores que trabalham para prover o conteúdo
que as emissoras vendem ou distribuem. Essa é a regra
que vige nas relações entre emissores e produtores
de televisão em todo o mundo.
Há
diferenças entre os modelos. Mas o que não existe,
no mundo civilizado, são casos em que o produtor de TV
seja constrangido a não ter o direito de sequer disputar
o espaço de produção dentro do mercado
em que atua. Tal situação configura uma forma
de censura que as sociedades de todos esses países dificilmente
aceitariam.
Entre
os principais argumentos que as emissoras de televisão
brasileiras têm apresentado para fugir a qualquer forma
de regulação está o alto índice
de nacionalização de sua programação.
Elas agem como se o perigo estivesse nos empresários
estrangeiros que estariam dispostos a controlar de qualquer
maneira a programação vista pelo povo brasileiro.
Pontos
comuns
Durante
o III Encontro Internacional de Televisão, realizado
nos dias 25 e 26 de novembro, no Rio, o nome Rudolph Murdoch
foi um dos mais citados, obviamente em decorrência da
recente fusão Sky-DirecTV.
Para
muitos dos participantes do encontro, entre eles importantes
executivos de televisão, Murdoch parece ter entre seus
principais objetivos de vida o de exterminar a identidade cultural
da nação brasileira. A imagem insistentemente
vendida é que são as emissoras brasileiras que
estão lutando bravamente contra esse monstrengo do colonialismo
cultural, exibindo, apesar de todas as dificuldades, uma programação
altamente nacionalizada.
A
insustentabilidade dessa tese chega aos limites do humorístico.
Pastores evangélicos ou vendedores de tapetes, por exemplo,
também são brasileiros. E os programas que apresentam,
em muitas redes, são, ademais, produções
independentes. Pelo raciocínio exposto, quem montar uma
grade de programação composta exclusivamente por
pregações evangélicas e vendas de tapetes
"shiraz" terá o maior índice de nacionalização
e exibição de produção independente
do país.
As
sutilezas que existem no caso da televisão brasileira
– e é isso que o texto da Folha tem visível
dificuldade de captar – começam pelo fato de que
as emissoras de TV utilizam o mesmo discurso mas estão
falando de coisas diferentes. Exatamente por essa razão
é que foram obrigadas a dividir suas formas institucionais
de representação: desde a semana passada, a Abert
(Associação Brasileira de Emissoras de Rádio
e Televisão) interpreta os pontos de vista da Rede Globo,
enquanto a Abra (Associação Brasileira de Radiodifusores)
interpreta os de todas as outras, que são completamente
diferentes.
É
uma briga de cachorro grande, onde a produção
independente brasileira é o elo mais fraco – um
elo capilar dentro da cadeia, que pode ser rompido a qualquer
momento. Ocorre, então, que não é politicamente
cabível à produção independente
brasileira buscar confrontações irreversíveis
com as redes de televisão. O que ela deve fazer, em vez
disso, é buscar pontos de interesse comum que possam
levar a parcerias, não apenas comerciais mas principalmente
políticas. Nesse quadro, o clima de Fla x Flu pode ser
bom para render manchetes de página, dar a ilusão
do contraditório e despertar a atenção
de alguns leitores. Mas nem remotamente interpreta o que de
fato acontece na dinâmica da formulação
das políticas públicas para o setor.
Embrulhando
peixe
Não
há, nesse contexto, uma queda-de-braço entre produtores
independentes e emissoras de televisão. E não
há por várias razões. Em primeiro lugar,
seria necessário determinar se a disputa é com
a Globo ou se com o conjunto formado por todas as outras emissoras,
que são braços bem diferentes. Em segundo porque
qualquer dos braços seria mais forte que o dos produtores.
Em terceiro, porque nenhum produtor, seja lá do que for,
quer criar um ambiente de conflito permanente com seus clientes.
O
que o produtor independente de TV quer é abrir mercado
com esses clientes, e estabelecer alianças sólidas
que decorram do entendimento de que a pluralização
da produção televisiva é boa para todo
mundo. Ele quer provar que a comercialização da
produção independente é capaz de trazer
mais qualidade, mais competitividade e menores custos para as
emissoras.
É
isso que interessa aos produtores – e também à
sociedade brasileira. O que não interessa é a
idéia de que os produtores estão vencendo a queda
de braço, ou fazendo um a zero no Fla x Flu, e muito
menos empurrando pela goela das emissoras um produto que elas
não desejam.
O
mercado de televisão não é um reality show,
embora os jornais às vezes não percebam a diferença
entre uma coisa e outra. No mundo real, nenhum produtor pensa
em tornar-se inimigo a priori de quem compra e faz a difusão
dos seus produtos. Isso pode ser bom para um jornalismo sensacionalista,
que é efêmero como a duração de uma
manchete de página. A página estará no
dia seguinte embrulhando peixe, mas os produtores de televisão
permanecerão no mercado quando as manchetes já
forem outras.
Por
um mercado saudável
Vamos
aos fatos. O artigo do projeto da Ancinav a que o texto da Folha
se refere (o antigo artigo 90) rezava que as emissoras firmarão
anualmente um compromisso público para a exibição
de um porcentual mínimo de obras de produção
independente. Sua intenção é nobre, mas
resultaria inviável por um conjunto de razões.
A
primeira é de ordem prática: esse compromisso
não é para ser firmado por cinco ou seis redes
de televisão, mas por cada uma das emissoras no país,
que são mais de 2.000. Mais de dois milhares de emissoras
tão diferentes entre si que algumas não dispõem
sequer de equipamentos de gravação e reprodução
– e muito menos têm a autonomia das redes para firmar
acordos de programação. Não há como
obter dessas emissoras o compromisso de que estarão no
ar no domingo seguinte...
A
segunda razão é que um compromisso público
dessa natureza quer dizer pouca coisa ou quase nada. Não
existe a possibilidade de aplicação de sanções
para a quebra desse compromisso. Por conseguinte, não
existe compromisso algum.
Um
substitutivo apresentado no âmbito do Conselho Superior
de Cinema instituía simplesmente uma quota de tela para
a exibição de produção independente.
É uma alternativa bem melhor, seguramente a melhor entre
todas as apresentadas. A principal razão para que se
desconfie de sua eficácia, no entanto, está contida
na própria matéria da Folha, quando esta descreve
as quatro maiores produtoras independentes do país. Entre
elas está a O2 (a maior produtora de publicidade da América
Latina, e que produz Cidade dos Homens juntamente com a Globo)
e também a Gugu Produções – a qual,
segundo a matéria, está fechando o ano com faturamento
de 4,5 milhões de reais e que acaba de investir 11 milhões
de reais na construção de sua sede e outros 2
milhões de reais em equipamentos. Isso não é
investimento típico de produtora independente, mas de
emissora de televisão. Por outro lado, não seria
difícil imaginar de onde viria a cota de produção
independente do SBT, por exemplo.
Outra
razão para que se reflita sobre a aplicação
da quota de tela pura e simples está nas peculiaridades
da televisão brasileira e no entendimento do que deveria
ser a estratégia para modernizar a relação
viciada que historicamente ocorre entre emissoras e produtores.
O monolitismo do modelo brasileiro de televisão está
na raiz disso. Em nenhum outro lugar do planeta ele é
tão sólido. É como se estivéssemos
lidando com dois modelos de televisão que convivem sob
a capa de um só: o da Globo e o de todas as outras.
A
Globo bate na tecla de que está sendo punida por um crime
que não cometeu. Há dois erros nesse argumento.
O primeiro é que a regulação não
existe para punir ninguém, mas para criar um mercado
mais saudável – o que, em grande parte, a própria
ação da Globo vem preconizando. O segundo é
que não se pode legislar pontualmente. O que vale para
uma tem que valer para as outras.
Traços
de amadorismo
A
matéria da Folha cita Metamorphoses, novela que a produtora
Casablanca realizou para a Record, como um exemplo de produto
que conseguiu conquistar "uma brecha na programação".
A realidade, infelizmente, não é essa.
O
caso de Metamorphoses (ao qual este Observatório já
se referiu em outras ocasiões) exprime uma distorção
grave nesta relação, que cabe aos produtores e
à sociedade evitar que se repita. Uma situação
em que se transferiu para uma só parceira, a produtora,
todos os ônus financeiros de um fracasso anunciado. O
desastre em que o projeto (em si uma grande fogueira de vaidades,
intrigas e despreparo) se constituiu desabou inteiramente sobre
uma das partes, circunstancialmente a maior finishing house
do país – que, portanto, pôde bancar os altos
custos de uma idéia natimorta.
Mas
não é exemplo de conquista alguma e só
aconteceu por um capricho da própria Casablanca, bem
aproveitado pela rede que abrigou, quase de graça, um
produto concebido com traços constrangedores de amadorismo.
Não é exatamente isso que se está pensando
quando se fala da necessidade de implantação de
mecanismos de apoio à produção independente
de TV no país.
Choque
de culturas
Neste
ambiente corroído por tantas distorções,
a única forma responsável de ação
não está na busca do confronto predatório,
mas da oportunidade para a mudança da cultura vigente
no mercado televisivo.
Não
existe outra alternativa visível e ainda assim as dificuldades
são muitas. A primeira é que essa cultura (mais
especificamente a noção de que exibidora e produtora
são a mesma coisa) existe desde que a televisão
se instalou no país. É algo consolidado há
muito tempo, cristalizado pela ação inercial e
amparado pela falsa premissa de que as emissoras de televisão
não receberam do Estado apenas a concessão para
transmitir e comercializar programação, mas também
a licença para monopolizar a produção.
A
segunda dificuldade é o fato de emissoras com ideários
tão diferentes darem a falsa impressão de que,
pelo menos no que tange à relação com a
produção independente, estão falando em
uníssono.
É
difícil entender o que faz a Globo aceitar o papel de
defender o que ela própria não acredita, já
que sua relação com a produção de
conteúdo é bem distinta da relação
sustentada pelas demais emissoras. Trata-se visivelmente de
uma questão de princípio, mas que se torna cada
vez mais ruidosa. Basta interpretar com um mínimo de
seriedade a história política recente da televisão
brasileira para perceber que essa posição será
revista em breve – tal como no ano passado as circunstâncias
provocaram a mudança da postura da emissora em relação
às mudanças no artigo 222 da Constituição,
que trata da presença do capital estrangeiro nas empresas
de comunicação.
Quando
a Globo se tornar franca aliada das produtoras independentes
– e é inevitável que isso aconteça
em pouco tempo – então estarão criadas condições
básicas para a mudança da cultura em todo o ambiente
da televisão brasileira.
Enquanto
isso não acontece, a estratégia política
para fortalecer a produção independente junto
à televisão não consiste em confrontar
todas as emissoras de uma só vez, mas em criar canais
de intersecção (não apenas de diálogo)
entre as emissoras e a produção. É precisamente
nisso que consiste uma terceira proposta, que acabou contemplada
pelo comitê civil do Conselho Superior de Cinema. Criou-se
um Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento
da Indústria Cinematográfica e Audiovisual Brasileira)
para as emissoras de televisão – e descontos neste
Condecine para as emissoras que trabalharem com percentuais
superiores a 20% de produção independente.
Há
aí uma discreta analogia com o que aconteceu no artigo
39 da Medida Provisória 2228-1, que criou uma grande
taxação para as programadoras de TV por assinatura
e uma boa redução para as que aplicarem a taxa
na co-produção de obras brasileiras. O expediente
provocou muitas fraudes que ainda estão por ser corrigidas,
mas gerou 20 milhões de reais para a produção
e colocou o produto brasileiro em redes internacionais que não
cogitavam dessa possibilidade.
No
caso das emissoras abertas, o substitutivo aprovado ao artigo
90 pode numericamente não representar muita coisa. Mas
o foco da questão não está no volume de
dinheiro gerado para a produção, e sim na sua
significação política. O que é de
fato relevante é que pela primeira vez em mais de 50
anos de televisão no Brasil um preceito legislativo é
criado no âmbito da produção e distribuição
de conteúdo. Um vínculo é estabelecido
entre as taxações a que as emissoras estão
sujeitas e o volume de produções independentes
que elas estiverem comprando.
O
resultado pode ser menos visível e de menor impacto que
o estabelecimento da quota de tela, por exemplo. Mas será
muito mais eficaz e consistente. Além disso, é
notável o fato de que essa aprovação tenha
sido conseguida por consenso dentro do Conselho Superior de
Cinema, com o voto inclusive dos representantes das televisões.
Esse é um fato político que não pode ser
desprezado.
Nunca
se avançou tanto no sentido de quebrar resistências
e começar a mudar uma cultura entranhada há cinco
décadas, mantendo-se ao mesmo tempo um clima de cooperação
– não de guerra – entre os produtores de
televisão e as emissoras que serão as compradoras
e exibidoras de seus produtos.
Essa
foi uma das grandes conquistas do projeto de lei que será
entregue ao presidente da República para que ele o envie
ao Congresso. Resultou de uma costura política improvável
e que, sem alarde nem proselitismo, pode começar a mudar
uma relação viciada há meio século.
Quanto
às manchetes levianas, elas prestariam um favor ao leitor
se continuassem se ocupando do casamento do Luciano Huck.
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