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Informação:
Observatório
da Imprensa - 29/03/2005
Leneide
Duarte-Plon, de Paris
De
acordo com uma série histórica de pesquisas, os
franceses passam cada vez mais tempo diante da TV – que,
diga-se a tempo, pode ser tão imbecilizante quanto a
brasileira. O meio parece se prestar à mediocridade e
à vulgaridade, e no mundo inteiro Sílvios e Berlusconis
usam a TV para se comunicar com a massa, fazer fortuna e levar
entretenimento para platéias que não exigem mais
do que o riso fácil ou a ilusão de ganhar milhões.
O
tempo que o francês passa (ou perde?) diante do aparelho
de TV tende a aumentar com a inauguração, nesta
quinta-feira (31/3), da TNT, sigla explosiva que significa Télévision
Numérique Terrestre (televisão digital terrestre).
A TNT oferece uma qualidade de imagem e de som muito próxima
do DVD.
Não
é nova na Europa essa forma de transmissão em
que os sinais de vídeo e de áudio são digitalizados
antes de serem organizados num fluxo único, chamado "multiplexagem".
Itália, Inglaterra e Espanha já a conhecem há
alguns anos. A novidade é que em vez de sete canais hertzianos
gratuitos os franceses terão mais opções:
disporão, num primeiro momento, de mais outros sete pela
tecnologia digital.
Os
pessimistas, que detestam de uma maneira geral a TV, lembram
que os catorze canais abertos (oito privados e seis públicos)
podem entrar numa competição feroz pela audiência
e se nivelarem por baixo. O que lhes daria 14 boas razões
para não ligarem a TV.
Nesta
primeira fase, a partir de 31 de março, 35% da população
(as grandes cidades como Paris, Marselha, Lyon, Bordeaux e Rennes)
terão acesso aos novos canais. Em setembro, metade do
país será coberto pela nova tecnologia. Até
2009, praticamente toda a França receberá os canais
digitais e em menos de dez anos o sistema analógico de
TV será completamente extinto, segundo o presidente do
Conselho Superior do Audiovisual, Dominique Baudis.
Alto
nível
Os
atuais canais abertos vão ter esses novos sete concorrentes
nos seus pés, além dos canais por assinatura já
presentes em um terço dos lares franceses. Num primeiro
momento, os canais abertos levam vantagem pois têm programação
conhecida de todos e uma audiência conquistada, além
de cobrirem todo o país. Futuramente, terão de
brigar para manter a audiência e as fatias de publicidade
atuais. Esse é um dos fatores que podem levá-los
a melhorar o nível dos programas.
Na
França, graças ao imposto chamado "redevance",
pago por toda pessoa que possui um aparelho de TV, o governo
financia os canais de televisão públicos. Menos
engessados pelas leis do mercado, os canais públicos
podem se dar ao luxo de oferecer programas literários,
de debate político ou de jornalismo investigativo de
alto nível – como Envoyé spécial
(enviado especial), graças aos recursos da "redevance".
Entre
os novos canais abertos oferecidos com a tecnologia digital
estão dois canais públicos: o Canal Parlamentar,
do Senado e da Câmara dos Deputados, que pretende levar
o debate e a compreensão das decisões políticas
a todos os cidadãos; e o France 4, um canal genérico,
isto é, não dirigido a um público específico,
que terá como objetivo ser europeu e dedicar o máximo
de seu tempo aos espetáculos e acontecimentos artísticos
de uma maneira geral, com um espaço privilegiado para
a música.
Entre
os sete canais "históricos", o franco-alemão
Arte – que garante a qualidade incomparável de
sua programação graças ao fato de não
estar preocupado com audiência de massa e nem presa ao
binômio audiência-publicidade – ocupará
um canal à parte, o canal 7, deixando de dividi-lo com
France 5, que passa a funcionar no 5 com uma programação
de 24 horas.
Financiado
pelos governos francês e alemão, o canal Arte pode
se dar ao luxo de exibir programas culturais de alto nível
degustados por um público pequeno, mas exigente. A emissora
participa também da produção de documentários
e de filmes não-comerciais.
O
primeiro canal
No
domingo (27/3), depois de assistirem ao filme As aventuras
de Heckleberry Finn, os espectadores do Arte se deliciaram
com um documentário de Ken Burns sobre Mark Twain. O
diretor faz um magnífico perfil do pai-fundador da literatura
americana usando textos do próprio escritor, além
de entrevistas com um de seus biógrafos e com os escritores
americanos Russel Banks e Arthur Miller.
Ainda
este ano o Conselho Superior do Audiovisual vai escolher entre
27 emissoras os candidatos aos 8 canais gratuitos disponíveis
na TNT. Mas o Conselho não é obrigado a preenchê-los
todos.
Um
dado histórico: a televisão francesa era totalmente
pública até a década de 1980, quando foram
privatizados alguns canais e criadas as primeiras redes privadas.
O
primeiro canal privado de televisão, Canal + (Canal Plus),
foi criado em 1984. A privatização da TF1, em
1987, foi a consagração definitiva de uma TV privada
lado a lado dos canais públicos.
Em
1949, quando foi criada a estatal RTF (Radiodiffusion et Télévision
Française), a França tinha 297 aparelhos de televisão.
O primeiro canal emitiu sozinho até 1964, quando foi
criado o RTF 2, seguido do RTF 3, em 1972.
A
televisão em cores foi introduzida em 1967.
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