Informação:
AESP - Associação
das Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de
São Paulo - 26/09/2004
O
Estado de S.Paulo - Espaço Aberto - Televisão
Fernão
Lara Mesquita
Mostramos,
na semana passada, o caráter antidemocrático e
os disfarces sob os quais vem escondido o "pacote da Ancinav"
para controlar todos os conteúdos de entretenimento e
informação veiculados por mídia eletrônica
num país onde ela é a única ferramenta
de comunicação de massas, e como isso se encaixa
no projeto de poder do PT.
Para
disfarçar suas intenções antidemocráticas,
o PT mistura com o pacote da Ancinav traços vagos de
uma política de fomento à produção
independente de conteúdos audiovisuais. Se o objetivo
fosse mesmo este, a primeira e mais poderosa medida a ser baixada
seria impor a obrigação de carregar ("must
carrie") todos os canais de TV que puderem pagar por esse
serviço aos concessionários de sistemas de distribuição
de TV fechada, por cabo, satélite ou que tecnologia for,
como acontece no mundo inteiro.
O
raciocínio é óbvio: a multiplicação
de canais, antes de mais nada, é que leva à multiplicação
do espaço de programação e, portanto, do
número de pessoas e empresas dedicadas a fabricar os
conteúdos a serem por eles exibidos.
Não
há limite técnico para a capacidade dos sistemas
existentes de carregar todos os canais que hoje querem espaço
no "dial" no Brasil. Em todo o mundo há uma
inflação de canais (de TV e de novos meios) e
uma escassez aguda de conteúdos de qualidade. Por isso,
em toda parte, menos no Brasil, a produção independente
está em explosivo desenvolvimento, movimentando bilhões
de dólares e sustentando milhões de empregos.
Aqui
a TV fechada não se expande graças a uma distorção
de regulamentação que só pode ser explicada
pela intenção compartilhada entre os donos das
grandes redes de TV aberta e seus sócios, as dezenas
de grupos regionais de comunicação pertencentes
a famílias que, graças a essas redes regionais
e à sua associação com as redes nacionais
de TV aberta, de audiência praticamente hegemônica,
dominam a política local, ganham espaço no Congresso
e se eternizam no poder.
Em
outras palavras, a definição da política
de TV fechada no Brasil foi entregue, juntamente com o próprio
sistema de carregamento, aos sócios das TVs abertas com
mandatos no Congresso e cargos nas comissões que decidem
a política na qual estão diretamente interessados
- e seu objetivo não é fomentar ou expandir as
TVs alternativas ou a produção independente nacional,
seus potenciais concorrentes, mas sim defender o monopólio
de audiência que as redes abertas hoje detêm.
Legisla-se
sobre TV, no Brasil, enfim, para fortalecer um esquema de dominação
política, e não para normatizar e fortalecer um
setor de negócios.
O
que o PT tenta fazer neste momento é fechar o esquema,
antes compartilhado por outros partidos e por sócios
privados, mais para si.
A
política em vigor no País estipula que somente
os canais geradores de programação têm,
obrigatoriamente, de ser carregados pelas operadoras de TV fechada,
e, mesmo assim, apenas para as praças em que estão
sediados. Assim, a NET é obrigada a transmitir uma TV
geradora sediada em Mogi das Cruzes para Mogi das Cruzes, mas
pode se recusar a exibir sua programação na vizinha
São Paulo, mesmo que o candidato se disponha a pagar
o preço justo pelo serviço. O cerco se fecha na
política que define alguns canais como geradores e outros
como retransmissores, o que também obedece muito mais
a critérios políticos - de conveniências
para o poder de conceder - do que técnicos.
Depois
de inviabilizada a condição para o surgimento
de conglomerados de canais a cabo no País pelos expedientes
acima descritos - basta não conceder ao mesmo grupo geradoras
suficientes em praças importantes -, os operadores dos
sistemas de carregamento jogaram a pá de cal na concorrência
trabalhando para elitizar a TV fechada, seja, além de
exibir os seus próprios, contratando apenas canais estrangeiros
já consagrados voltados para públicos de alta
extração, seja mantendo caras as tarifas de acesso
ao sistema de modo a restringi-lo a uma minoria.
Sem
o "must carrie" jamais haverá TV fechada competitiva
no Brasil e, portanto, jamais haverá concorrência
real para as redes abertas ou produção independente
e diversidade na mídia eletrônica.
Quanto
a fomento à produção audiovisual brasileira
- que vira quase distribuição de privilégio
num ambiente regulatório tão hostil -, só
existem medidas incipientes. As salas de projeção
têm obrigação de exibir filmes nacionais
63 dias por ano. A TV aberta não tem nenhuma obrigação.
Há esboços de "compromissos", jamais
implementados. Quanto às TVs fechadas, as operadoras
são obrigadas a "manter um canal que exiba majoritariamente
produção brasileira". Esses canais tendem
a se transformar em guetos isolados tanto pelo público
quanto pelo mercado publicitário...
Nos
Estados Unidos, até há dois anos, quando a legislação
foi alterada no sentido de maior liberação, havia
solução mais inteligente: todas as TVs abertas
tinham a obrigação de exibir um mínimo
de 60% de sua programação produzida fora de seu
sistema doméstico. Na França, a TV aberta é
obrigada a investir 10% de seu faturamento total e a TV fechada,
15%, em produções independentes ou co-produções
com produtores independentes. Na Espanha a legislação
se parece com a da França.
O
expediente de obrigar as redes e demais exibidores da TV fechada
a preencher uma parcela de sua programação com
produções independentes de sua livre escolha traz
dois benefícios: joga no processo um impulso poderoso
pela qualidade, já que os exibidores terão de
vender e faturar sobre esses produtos ou perder seu dinheiro,
o que promove a qualidade e a competição entre
os independentes. E, como o ponto de partida é a demanda
do mercado, e não a opção de um burocrata,
o governo não interfere minimamente nem no conteúdo,
nem na escolha sobre quem vai ou não vai produzir, segundo
pistolões.
No
próximo artigo desta série, veremos como nasceu
a associação entre os donos de redes de TV aberta
e os "coronéis eletrônicos" e como estes,
mesmo os corruptos e os que tinham servido aos militares, acabaram
sendo salvos do ostracismo político tornando-se donos
das repetidoras locais das grandes redes, no alvorecer da Nova
República. Veremos, também, como a má consciência
de ambos facilitou a apropriação "gramsciana"
dos conteúdos das "máquinas de produção
cultural da burguesia" pelos grupos ideológicos
que, teoricamente, não combinam com os dois grupos precedentes
e agora querem excluí-los do consórcio, e como
os políticos fisiológicos ganharam a parte que
lhes cabe nesse latifúndio. E veremos, por fim, como
o interesse numa mídia eletrônica pouco diversificada
os une a todos e por que este é o maior obstáculo
ao desenvolvimento político do Brasil.
Fernão
Lara Mesquita é jornalista
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