| Informação:
Observatório
da Imprensa - 03/05/2005
Renato
Janine Ribeiro (*)
Prefácio
de O afeto autoritário: televisão,
ética e democracia, de Renato Janine Ribeiro,
224 pp., Ateliê Editorial , Cotia, 2004; R$ 27,00;
título e intertítulo da Redação
do OI |
Fui
surpreendido, em meados de 2000, por um telefonema em meu celular:
era o jornalista Luiz Costa, que eu não conhecia pessoalmente
e me convidava a escrever uma coluna quinzenal sobre televisão
no jornal O Estado de S.Paulo. Relutei um pouco, mas o desafio
me agradou, até porque eu alternaria com alguém
que conhece a TV profundamente, o diretor Gabriel Priolli –
e que mais tarde, quando fui candidato a Presidente da SBPC,
em 2003, gravou comigo uma entrevista para a Internet, que ele
conduziu muito bem. Assim, Gabriel podia falar de dentro da
televisão enquanto eu falaria de fora, como espectador,
sem conhecer os andaimes ou os bastidores, mas só vendo
o resultado final, em suma como todo o mundo. E foi uma grata
surpresa, que agradeço a Luiz Costa, não só
tratar – durante um ano e meio – de questões
da comunicação de massas, mas também fazê-lo
numa linguagem dirigida a um público mais amplo que o
acadêmico [Luiz Costa Pereira Junior é o organizador
do livro A Vida com a TV – o Poder da Televisão
no Cotidiano (São Paulo, Editora Senac, 2002), uma antologia
do que saiu sob sua direção no Telejornal, incluindo
artigos meus, de Gabriel Priolli e de outros colaboradores.].
Interessado
que sou na questão da democracia, tenho me perguntado,
e a meus amigos, e a todos a quem eu falo, como fazer para que
os valores democráticos não fiquem apenas no plano
do juízo racional, porém ingressem no campo dos
afetos – que ainda é bastante regido por séculos,
milênios de autoritarismo. A linguagem dos que discutem
a democracia tende a ser mais pesada do que espontânea.
Contestei isso teoricamente, sugerindo que a democracia venha
do desejo – e portanto de baixo para cima. Vemos que os
autoritários, na política, sabem apelar mais diretamente
às emoções não elaboradas, toscas,
agressivas, repressivas. É preciso mudar isso: levar
a luta pela democracia das teorias e do discurso iluminista
para o terreno afetivo. É esse o terreno de batalha.
À
primeira vista, poderiam alguns até dizer que seria por
ela remeter a teorias algo densas, difíceis. Mas a verdadeira
resposta, estou convencido, é que a democracia contraria
um treinamento de nossas emoções que nos prepara
mais para o egoísmo, a prepotência, a subserviência,
do que para relações eticamente decentes e politicamente
emancipadoras.
Escrever
sobre TV, para um grande público, era então a
oportunidade de criar um estilo mais leve, mais rápido
– e que tentasse uma mescla de afetos e de razão.
É isso o que o leitor poderá conferir, em especial
na primeira parte deste livro.
Refinar
a crítica
Encerrada
minha colaboração no Telejornal, em novembro de
2001, continuei escrevendo sobre televisão e eventualmente
sobre cinema, mais esporadicamente, na revista Bravo, a convite
de Michel Laub, a quem agradeço: esta é a segunda
parte do livro. E a terceira consiste num ensaio mais longo
que redigi, num projeto coletivo intitulado Cultura e Democracia,
entre 1998 e 2000. O resultado final tem o seu quê de
curioso, porque na verdade são três estilos diferentes
que convivem no mesmo livro, do mais leve ao mais acadêmico,
porém girando em torno de alguns temas comuns –
a televisão, a cultura de massas, a ética, a democracia.
Mas
a maior satisfação que tive, de minha colaboração
no Telejornal, veio de um episódio tão inesperado
quanto o convite inicial. Em maio de 2001, comecei a receber
os trabalhos de conclusão de semestre de meus alunos
no curso de Filosofia da USP. Por questões de calendário
escolar, os prazos para a entrega de notas foram sendo ampliados
e, assim, demorei a corrigi-los. Só uns dois meses depois,
é que me sentei para ler a quantidade bastante espantosa
de redações com que atualmente se depara um professor.
Desde algum tempo, aliás, peço aos estudantes
que entreguem os trabalhos datilografados ou impressos. E me
incomodou ver que um estava escrito à mão. Comecei
assim mesmo a lê-lo – mas logo percebi que não
era um trabalho, e sim uma longa correspondência pessoal,
que por engano eu deixara, durante dois meses, misturada à
pilha das redações. O impacto foi tão grande
que não consegui voltar, aquele dia, à correção
dos trabalhos.
Era
a carta de uma jovem senhora, que eu não conhecia nem
vim a conhecer pessoalmente, de uma grande cidade do interior
paulista. Começava contando sua vida, o casamento jovem,
os filhos, a deterioração do relacionamento com
o marido, a obesidade, o divórcio, a volta à faculdade,
o regime para emagrecer, a luta demorada e finalmente bem-sucedida
para a conquista da auto-estima. E de repente aludia a algumas
colunas minhas no Telejornal que a haviam impressionado. Não
recordo exatamente quais – infelizmente, não localizei
sua carta em meio a minha bagunça habitual – mas
não importa. Esse é o melhor elogio que um autor
pode receber: o de sentir que aquilo que ele escreve faz uma
diferença, e em especial que pode reforçar as
convicções de alguém que está lutando
para ter uma vida melhor, superando um dos maiores déficits
de nossa sociedade, que é o déficit de amor.
Desejo
agradecer-lhe a carta, que me fez sentir que valeu a pena escrever
sobre televisão. E quero também agradecer a minha
amiga Mônica Carvalho, que discutiu comigo vários
dos assuntos que resultaram em colunas no Telejornal.
Para,
não concluir, mas começar o livro: ele tratará,
aproveitando o caso da televisão, de como a democracia
e a ética possam passar pelos afetos. Por isso, embora
boa parte da produção televisiva seja de baixa
qualidade (como, aliás, a de qualquer arte no momento
em que ela é produzida – só depois guardamos
os seus momentos altos), não gastarei tempo com as litanias
usuais que a denunciam. O mais interessante é pensar
em suas possibilidades. Isso exige criticá-la, claro,
mas refinando as críticas. E o ponto é este: quanto
pode o afeto, em favor de uma vida ética e democrática?
(*)
Professor titular de Ética e Filosofia Política
na Universidade de São Paulo
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