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Informação:
Observatório
da Imprensa - 15/02/2005
Venício
A. de Lima (*)
Numa
tarde chuvosa de quinta-feira pós-Carnaval, quando a
Brasília oficial ainda ensaiava o retorno às atividades
normais, depois de cinco dias quase-parados, os presidentes
dos três poderes da República, em singela solenidade
realizada no Palácio do Planalto, assinavam um Acordo
de Cooperação que confirmava a criação
da TV Brasil – Canal Internacional, uma empreitada que
reúne a Radiobrás, a TV Senado, a TV Câmara
e a TV Judiciário.
O
primeiro passo para a criação da TV Brasil havia
sido dado no dia 27 de setembro do ano passado, quando o presidente
Lula assinou decreto criando o Comitê Gestor integrado
por representantes dos três poderes que logo começou
a funcionar na sede da Radiobrás, em Brasília.
Na verdade, a idéia da TV Brasil surgiu de uma conversa
entre o presidente do Congresso Nacional, José Sarney
e o presidente Lula, quando voltavam da posse do presidente
da Argentina, Nestor Kirchner, em maio de 2003.
A
primeira experiência de funcionamento da emissora aconteceu
durante o V Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Entre
os dias 26 e 31 de janeiro foi montada uma emissora-piloto que,
durante seis dias, produziu cerca de 90 horas de programação
com transmissão ao vivo das principais atividades. Foram,
em média, 12 horas diárias: entrevistas, debates
e telejornais. Tudo em espanhol-portunhol.
Segundo
dados da Agência Brasil, a programação foi
captada na Argentina (Canal 7), Uruguai (VTV), México
(Telesur), Estados Unidos (Reuters e APTN), Espanha (TVE e Canal
Vasco), Venezuela (Vive TV), Suíça (EBU) e Colômbia
(Caracol). Espera-se que a TV Brasil Internacional entre em
funcionamento definitivo ainda em 2005 e inicie suas transmissões
prioritariamente para a América do Sul.
Condições
necessárias
O
que representa a criação de TV Brasil Internacional?
Em
primeiro lugar, é uma iniciativa do Estado brasileiro,
tomada em conjunto pelos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
O próprio Presidente da República reconheceu na
solenidade no Planalto que "este não é um
canal de TV do governo. Pelo contrário, é um canal
de TV do Estado brasileiro (...)." Isso significa que a
TV Brasil nasce com uma expectativa de continuidade e, em princípio,
para além das oscilações político
partidárias dos eventuais detentores do poder. E isso
é muito bom.
Segundo,
a TV Brasil reafirma a necessidade – que vem sendo sentida
também por outros países não-hegemônicos
(emergentes?) no mundo contemporâneo – de terem
seu próprio canal de expressão internacional,
fora da unidirecionalidade do fluxo Norte-Sul dominante. Sobretudo,
expressa a possibilidade de uma comunicação internacional
alternativa à mídia privada comercial, prisioneira
da lógica do mercado, homogênea cultural e ideologicamente.
Precisamos mostrar o que somos e o que temos e também
precisamos aprender mais sobre os nossos vizinhos e aqueles
parceiros que raramente são mostrados na mídia
comercial privada.
Um
canal de televisão internacional, na verdade, é
o reconhecimento de que a política externa brasileira,
mais do que nunca, tem que disputar palmo a palmo o seu espaço,
não só com os outros estados nacionais, mas também
com as grandes corporações multinacionais, inclusive
– ou, sobretudo – com as grandes corporações
de mídia, que além de serem poderosos conglomerados
industriais, são responsáveis diretas pela construção,
em nível internacional, do pensamento único dominante.
E,
finalmente, a TV Brasil deverá alimentar uma discussão
que não pode mais ser adiada. Precisamos explicitar de
forma clara – e incorporar em nosso marco regulatório
– o que é um sistema público de comunicação.
Se não temos dúvida sobre o que são os
sistemas estatal e privado, carecemos de um conceito operacionalizável
do que seja um sistema publico. Sem isso não será
possível construir, internamente, um sistema que corporifique
o direito fundamental à comunicação e,
por outro lado, o Poder Executivo não poderá observar,
como determina o Artigo 223 de nossa Constituição,
o "princípio da complementaridade dos sistemas privado,
público e estatal".
O
funcionamento regular das emissoras que se associaram para colocar
a TV Brasil no ar – Radiobrás, TV Senado, TV Câmara
e TV Judiciário – e a experiência piloto
do Fórum Social Mundial 2005, embora não constituam
uma garantia, sinalizam no sentido de que existem as condições
mínimas – tanto técnicas, quanto profissionais
– para se fazer uma televisão de qualidade.
A
TV Brasil Internacional é uma necessidade do mundo contemporâneo.
Resta saber se teremos condições e competência
para disputar e conquistar o espaço que ela precisa ter.
(*)
Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia
e Política (NEMP) da Universidade de Brasília
e autor, entre outros, de Mídia: Teoria e Política
(Editora Fundação Perseu Abramo, 2ª. ed.,
2004)
TV
BRASIL
Idéia infeliz, arrazoado pior
Informação:
Observatório
da Imprensa - 15/02/2005
Alberto
Dines
O
lançamento da TV Brasil, na última quinta-feira
(10/2), deve provocar duas linhas de discussão, igualmente
importantes. Uma sobre o projeto em si, anunciado como instrumento
para "integrar a América do Sul", outra sobre
a manifestação do presidente da República
ao declarar que o novo canal não é uma iniciativa
do governo, mas do Estado, do Brasil.
O
presidente Lula exagerou na simplificação: o fato
de o canal ser compartilhado pelas emissoras dos três
poderes (TV Câmara e TV Senado, do Legislativo, TV Justiça,
do Judiciário e Radiobrás, do Executivo), não
significa que nele está representado o Brasil. Faltaram
dois componentes, nada desprezíveis: a sociedade civil
e a iniciativa privada.
Esta
visão do Estado como representação dos
poderes constituídos é maniqueísta, arcaica
e reacionária. O Estado moderno é muito mais do
que uma alegre reunião dos chefes dos três poderes.
Sobretudo considerando o objeto desta associação
– a comunicação social – necessariamente
participativa e aberta.
A
exclusão da rede pública de TV não é
apenas um lapso de memória, é uma opção
política com implicações preocupantes.
O menosprezo pela capacidade da TV privada em participar de
projetos, digamos, "cívicos", é um atestado
ostensivo das suas disfunções sociais.
Se
o Brasil, como Estado soberano, autonomeou-se "integrador"
televisivo da América do Sul, não faz nenhum sentido
que o processo seja feito à revelia das sociedades que
deseja integrar.
E
qual o público da futura TV Brasil – os poderes
constituídos dos Estados vizinhos ou seus telespectadores?
Neste caso, por que não participam da empreitada os telespectadores
brasileiros e os produtores de conteúdo televisivo nacionais
(públicos e privados)?
A
questão estende-se à data escolhida para o lançamento
formal da iniciativa. O presidente foi inequívoco ao
dizer que pretendia "prestigiar" os atuais presidentes
da Câmara e do Senado antes que deixassem os cargos na
segunda-feira seguinte (14/2).
Prestigiar
é um verbo eminentemente político. Prestigiar
os presidentes das duas casas do Congresso e não as instituições
que deixarão, mais do que isso, é ato de militância.
O Estado brasileiro não é partidário. O
contribuinte paga a um Estado apolítico. O contribuinte
quer ver primeiramente atendidas as suas necessidades –
a propaganda externa não está nas suas prioridades.
Artista
estadista
O
que nos leva a questão da TV Brasil em si. Os 8 milhões
de reais que serão investidos neste ano, antes de o canal
entrar no ar, não deveriam atender às nossas prioridades
em matéria de TV pública?
Um
investimento suplementar na TV Educativa (estatal na sua estrutura
mas efetivamente pública na sua destinação)
não seria uma opção mais útil, mais
sólida e verdadeiramente mais integradora?
A
Radiobrás (também estatal) desenvolve neste momento
esplêndidos projetos de integração nacional,
notadamente na área radiofônica; não seria
mais estratégico reforçá-los ao invés
de desperdiçar esta soma para mostrar aos vizinhos "nossas
coisas boas" (expressão do ministro do STF, Carlos
Veloso)?
Significa,
então, que a TV privada foi excluída do projeto
porque não apresenta "coisas boas"? Quem dará
o selo de qualidade à programação da TV
Brasil – o deputado, o senador e o magistrado que ocuparão
as chefias destes poderes? Qual a sua legitimidade nesta matéria?
E
se a nossa mídia eletrônica não atende aos
requisitos capazes de qualificá-la como coadjuvante no
projeto, por que razão o Estado brasileiro não
cumpre com suas obrigações constitucionais e obriga
os concessionários de TV a melhorar a qualidade da programação?
Comprova-se
novamente a validade do diagnóstico de Chico Buarque
quando disse que falta no governo alguém encarregado
de acender a luz vermelha e advertir: "Vai dar merda".
O
artista falou como estadista: o Estado brasileiro está
sendo desgastado em vão.
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