Informação:
Folha de São Paulo - Dinheiro - 16/10/2004
Impulsionado
por redes de TV e fabricantes, produto é visto como promessa
de novos e melhores mercados
Tim
Burt
Do "FINANCIAL TIMES", EM NOVA YORK
Nas
entranhas do Sony Plaza, a principal loja do grupo japonês
em Nova York, uma tela imensa serve como discreta demonstração
para o mais recente modelo de TV de alta definição.
Por trás das cortinas de pingentes de cristal e dos sofás
modernos, um pequeno cartaz revela o custo da experiência
visual cristalina: US$ 19.999 [cerca de R$ 57 mil]. O preço
disfarça uma silenciosa revolução nos hábitos
americanos de TV. Depois de anos de desenvolvimento, a TV de
alta definição ganha espaço no maior mercado
mundial de entretenimento.
A
despeito dos preços elevados dos aparelhos da Sony, a
demanda por TVs de alta definição (AD) deve subir
rapidamente nos próximos anos. Os analistas estimam que
quase um terço dos domicílios americanos terão
um televisor AD até o final da década, o que estimularia
crescimento similar, se bem que mais lento, em outras regiões
do mundo. Os preços das TVs AD mais baratos são,
em certos casos, pouco mais de US$ 1 mil mais altos que os comuns.
"Nós
ultrapassamos o ponto de adoção", diz Aditya
Kilgore, analista sênior de mídia e entretenimento
do Yankee Group, empresa de pesquisa de mercado sediada em Boston.
"Os televisores AD ficaram estagnados por um bom período
porque ninguém queria aceitar acordo quanto a um padrão
setorial. Agora estamos avançando porque todo mundo -
os fabricantes de televisores, as redes de TV, as autoridades
regulatórias e os produtores de programas- está
trabalhando com o mesmo objetivo".
A
TV de alta definição vem sendo promovida pelos
fabricantes de bens eletrônicos de consumo, em meio ao
crescente entusiasmo dos consumidores por televisores de tela
larga, que se prestam muito bem à exibição
de imagens e som muito superiores propiciados pelas transmissões
AD.
Segmento
premium
Em um setor de varejo no qual a forte competição
predomina e há risco de queda de preços, as TVs
AD oferecem aos fabricantes a promessa de um segmento premium.
De forma semelhante, os distribuidores de TV paga, via satélite
e cabo, vêem a programação AD como forma
de garantir os consumidores dispostos a pagar caro, aqueles
que se interessam por adotar novas tecnologias o mais cedo possível
e já adquiriram aparelhos como gravadores pessoais de
vídeo, que lhes permitem compilar uma programação
personalizada de TV para assistirem quando quiserem.
Para
seus defensores, a TV de alta definição e a qualidade
superior de imagem que oferece representam um salto nos padrões
de programação, usando sistemas de produção
de alto custo e câmeras sofisticadas para oferecer novos
ângulos, close-ups e imagens indisponíveis para
os televisores comuns. Os proponentes da tecnologia argumentam
que ela é capaz de promover as vendas de TVs e de serviços
por assinatura que ofereçam uma experiência visual
radicalmente diferente, acoplada a pacotes de serviços
como filmes a pedido e funções interativas para
grandes eventos esportivos.
O
custo de produção desse tipo de programa, porém,
é elevado, e as transmissões foram prejudicadas
pela capacidade de cabos requerida para conduzir os dados. Questões
como essas estão sendo resolvidas, agora, pelos avanços
nos sistemas de câmera e ampliação da capacidade
de satélite. Isso encorajou novas redes de TV a adotar
os serviços.
Surto
de crescimento
Ainda que a TV de alta definição tenha sido desenvolvida
inicialmente no Japão há mais de uma década,
a resposta inicial da maior parte das redes de televisão
e potenciais clientes foi morna. Falta de programas, baixa confiabilidade
e custos elevados eram poderosos obstáculos à
aceitação.
Hoje,
a televisão AD vem passando por seu primeiro surto real
de crescimento. A tendência foi alimentada por uma combinação
entre o desenvolvimento de TVs de tela larga realmente eficientee
e a busca ansiosa dos operadores de TV a cabo e via satélite
por novos clientes. Isso, por sua vez, encorajou o consenso
quanto aos padrões de transmissão e persuadiu
mais criadores de programas a filmar em padrão AD.
Os governos, começando nos EUA e passando por Reino Unido,
França e Japão, estão apoiando iniciativas
de TV de alta definição. Para eles, isso representa
uma promessa de avanço na aceitação da
TV digital pelos consumidores, o que permitiria aos países
desativar os canais de transmissão analógicos
e revender as freqüências ocupadas por eles.
Nos
EUA, a expectativa é de que mais de 30 milhões
de domicílios adquiram aparelhos de televisão
AD nos próximos três anos, e analistas da Data
Monitor, empresa de pesquisa sediada em Londres, dizem que o
número de televisores AD em uso na Europa deve aumentar
de 50 mil no final de 2003 a 4,6 milhões em 2008.
"Alemanha,
Reino Unido e França devem liderar na adoção
da televisão AD, com a Itália ocupando um distante
quarto posto", de acordo com a Datamonitor. "Recentemente,
a Sky, no Reino Unido, e M6, TPS e TF1, na França, anunciaram
planos para oferecer programação AD aos telespectadores
-a TPS a partir de 2005, a Sky, em 2006".
James Murdoch, presidente-executivo da British Sky Broadcasting,
que controla a Sky e é afiliada à News Corp.,
diz que a iniciativa reflete a mudança no gosto dos consumidores
e a batalha por assinantes dispostos a pagar mais caro. "Nós
o faremos com um pacote de canais e eventos para acelerar a
decolagem da televisão AD", disse. "A comunidade
de criação convergirá em torno do sistema,
porque é excitante."
A
Sky está seguindo os passos de redes americanas como
a Discovery, que vem produzindo programas AD há dois
anos. A HBO, o canal premium de TV a cabo da Time Warner, e
a rede de esportes ESPN, controlada pela Disney, também
estão levando adiante a iniciativa, na produção
de dramas e programas esportivos, respectivamente. TVs por assinatura
como a Cablevision e a DirecTV, coligada da Sky nos EUA, promovem
a tecnologia pesadamente.
Experiência
cinematográfica
O apelo da televisão de alta definição
está seu poder de fogo eletrônico. Os televisores
usam tubos de raios catódicos para criar imagens na tela,
disparando elétrons de um "canhão" localizado
na parte traseira do aparelho para uma tela dotada de carga
elétrica. Os padrões existentes de TV nos Estados
Unidos oferecem resolução de imagem (com base
no número de elétrons atingindo a tela) de 525
linhas. Na Europa, o padrão é mais alto 625 linhas.
Na
TV de alta definição, as telas oferecem ou 720
ou 1.080 linhas de definição transmitidas em velocidade
de até 60 quadros por segundo, criando uma imagem que,
segundo os fabricantes de televisores de alta definição,
é pelo menos cinco vezes mais clara do que os velhos
sinais analógicos. "É uma qualidade completamente
diferente", diz Murdoch. "Uma experiência cinematográfica,
é o que as pessoas desejam em suas casas. Basta observar
as vendas de DVDs para perceber o potencial da idéia".
Mas
embora as vendas de televisores AD e a produção
de programas venham ganhando ímpeto, o avanço
para o DVD de alta definição rasteja. O lançamento
do sistema foi retardado por um duelo setorial opondo a tecnologia
Blu-Ray, da Sony, ao padrão rival defendido pela Toshiba
e pela NEC.
Alguns
dos mais importantes executivos de mídia do mundo estão
monitorando o resultado de perto. Esperam que um padrão
único reanime o ímpeto dos DVDs, que já
geram mais receita para Hollywood do que as salas de exibição.
Da
mesma forma que os consumidores substituíram os envelhecidos
videocassetes por DVDs, presidentes de empresas do setor esperam
que os DVDs de alta definição sirvam para estimular
uma nova demanda.
Dick
Parsons, presidente-executivo e do conselho da Time Warner,
diz: "Acredito que a TV de alta definição
oferecerá o novo estímulo de crescimento se, e
quando, a demanda atual por DVDs se estabilizar. O número
de aparelhos de alta definição vendidos é
o maior já registrado, e a tecnologia poderia nos oferecer
métodos de conter a pirataria, porque a codificação
será renovável". Parsons vem instando seus
colegas da Sony, Toshiba e NEC a evitar uma guerra de formatos,
acrescentando que "se houver acordo, dentro de 24 meses
veremos a demanda virar do DVD para o DVD de alta definição".
A
falta de um acordo pode reduzir o apetite dos consumidores por
televisores AD, limitando a tecnologia a alguns poucos domicílios
mais ricos.
Luxo
inacessível
Uma análise recente do Leichtman Research Group, dos
Estados Unidos, sugere que a alta definição continua
a ser um luxo acessível a poucos. Nos EUA, a empresa
constatou que apenas 2% dos domicílios com renda anual
inferior a US$ 75 mil dispõem de televisores AD, ante
12% dos domicílios com renda mais elevada. Mesmo que
a demanda atinja a previsão de 40 milhões de aparelhos
no mercado americano até o fim da década, o total
seguirá a ser baixo diante do universo de 275 milhões
de TVs no país.
Essa
penetração pode ser restringida pela capacidade
que a TV de alta definição requer. A quantidade
de dados necessária a transmitir imagens AD ocupa espaço
vital nas redes de cabos e satélites.
Isso
é uma boa notícia para as empresas que vendem
essa capacidade. Mas existe um potencial gargalo, que poderia
retardar a chegada maciça dos televisores AD ao mercado.
Romain
Bausch, presidente-executivo da SES Global, maior operadora
mundial de satélites, considera a questão como
uma oportunidade. "Com a compressão digital, nossos
clientes estão acomodando entre seis e dez canais de
TV em um transceptor. Isso significa uma demanda potencialmente
enorme pela capacidade de transmissão de televisão
AD."
A
SES está se preparando para lançar três
satélites para a EchoStar, operadora norte-americana
de TV por satélite, e Bausch prevê demanda adicional
na Europa e na China. "Nossos parceiros na Ásia
nos dizem que por volta de 2005 a China gostaria de ter boa
penetração de TV de alta definição,
o que exigirá capacidade adicional... A Olimpíada
de 2008 na China será a primeira a ser transmitida mundialmente
via TV de alta definição."
Para
justificar o investimento nesse tipo de tecnologia e capacidade,
as redes mundiais de TV precisam ver retornos em termos de audiência.
Mudança
inevitável
Mesmo as redes públicas de TV acreditam que a mudança
seja inevitável. A BBC, maior rede pública de
televisão do mundo, planeja produzir todos os seus programas
em sistemas de alta definição dentro de seis anos.
John Varney, vice-presidente de tecnologia da BBC, disse que
a empresa adotará a televisão AD para atender
à demanda dos consumidores e enfrentar o desafio competitivo
oferecido pelos rivais no segmento de TV comercial.
Todas as quatro redes abertas de TV norte-americanas -NBC, CBS,
ABC e Fox- seguirão esse exemplo. Estão oferecendo
programas em formato AD, mesmo que não haja garantias
de que a tecnologia decolará. O motivo é que os
provedores de cabo e satélite o exigem, e a tecnologia
é tão superior à transmissão analógica
que pode melhorar a audiência. Executivos de canais como
HBO, ESPN, Discovery e TNT já estão transferindo
a maior parte de suas novas produções para o formato
AD.
George
Bodenheimer, presidente da ESPN, alega que sua rede "é
um catalisador importante tanto para vendas de televisores AD
quanto para assinaturas de pacotes que incluem transmissões
AD".
"Guerra
nas Estrelas"
Os produtores de cinema vêm usando a tecnologia AD para
criar peças promocionais para a série "Guerra
nas Estrelas" e para o controvertido documentário
"Fahrenheit 11 de Setembro", de Michael Moore. A Sony,
que fabrica câmeras AD, alega que mais de 300 filmes foram
produzidos usando sua tecnologia de câmera, além
de 42 programas de TV nos Estados Unidos.
Somadas,
alegam executivos do setor e analistas de investimento, essas
tendências apontam para a ascensão da TV de alta
definição, há muito aguardada: da produção
de programas à disponibilidade de aparelhos, capacidade
de satélite e, possivelmente, um padrão unificado
para os DVDs de alta definição.
Na
BSkyB, onde os acionistas se assustaram diante de alguns dos
planos de investimento necessários para a adoção
da TV de alta definição e outros serviços,
Murdoch não se arrepende da decisão de adotar
a tecnologia: "A aceitação pra valer da televisão
de alta definição vai começar agora".
Tradução
de Paulo Migliacci
Governo
Lula reduz ambição de criar tecnologia.
Informação:
Folha de São Paulo - Dinheiro - 16/10/2004
Laura
Mattos
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer estrear a TV
digital no Brasil na Copa do Mundo de 2006. Seria mais uma jogada
-em dose dupla- do nacionalismo que cerca seu governo: torcer
pelo hexacampeonato num sistema tecnológico brasileiro.
Em
discussão no país há cerca de dez anos,
a TV digital virou assunto de governo em meados de 1998. À
época, o dilema era escolher entre os três padrões
de TV digital disponíveis: japonês, norte-americano
e europeu.
As
emissoras de TV brasileiras fizeram lobby pelo Japão.
Europa e Estados Unidos não se cansaram de mandar representantes
de suas tecnologias para Brasília. E Fernando Henrique
Cardoso resolveu deixar a decisão para Lula.
O
petista deu um susto nos lobistas com o anúncio da criação
de um sistema nacional de TV digital. O país, disse o
governo no ano passado, enfrentaria os gigantes da tecnologia.
Foram
criadas três instâncias de comissão: comitê
de desenvolvimento, com nove ministérios, grupo gestor,
do qual faz parte a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações),
e comitê consultivo, com 26 entidades da sociedade civil.
O processo está mais lento do que previa o governo.
Além
disso, o Planalto já concluiu que seria inviável
-caro e desnecessário- criar um sistema brasileiro completamente
novo, sem tecnologia estrangeira. A idéia é mesclar
os padrões internacionais, inclusive o mais novo deles,
criado pela China. Algumas partes da digitalização
seriam nacionais, e Lula poderia estampar o selo "TV digital
brasileira".
Mas
a torcida pelo hexacampeonato na nova televisão deverá,
de acordo com especialistas ouvidos pela Folha, ficar só
no Planalto. O ano de 2006 seria apenas o lançamento
experimental, e a comercialização de fato pode
só acontecer a partir de 2010.
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