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Informação:
Observatório
da Imprensa - 15/03/2005
Alan
Barreto Silva (*)
Bastasse
o pacote de entretenimento de qualidade duvidosa, imposto pelas
"grandes" redes de TV a suas afiliadas, eis que a
programação local de nossos canais abertos e fechados
se volta à produção e à exposição
do ridículo como forma de espetáculo.
Alguns
críticos de televisão, não confundir com
colunistas de TV, acreditavam que, com o advento dos canais
fechados, a programação tenderia a melhorar sua
qualidade, uma vez que o público assinante da programação
por satélite ou cabo, por ter um diferencial na formação
da educação, poderia representar na divisão
do bolo uma classe com poder de compra, portando de "alienação",
o que obrigaria no mínimo a uma programação
de qualidade superior à dos canais abertos.
Independentemente
de qual satélite o cidadão esteja assinando, a
proliferação dos "reality shows" vai
além-mar; um bombardeio visual a um público cansado
do óbvio, carente de uma programação nova
e que traga emoção a uma vida entediada e estressada,
imposta pela competitividade num mundo globalizado. Mas não
são democratizados valores como educação,
saúde, trabalho, que fazem parte de uma sociedade de
privilégios, não de direitos.
Os
grandes conglomerados midiáticos impõem ao mundo
uma programação sem diversificação,
sem criação, sem valores culturais, na qual a
imitação barata é a nova ordem, em que
nos limitamos a zapear de canal em canal em busca de algo que
nos entretenha, para descobrirmos alguns meses depois que entre
150 canais não assistimos a pouco mais de cinco, ou seja,
o universo prometido de variedade se resume a sucessiva repetição
de programas.
Baixaria
Mesmo
assim essa pequena elite dos "com-cabo" representa
um número de incluídos na grande mídia,
expondo uma grande massa dos "sem-cabo", a quem chamamos
de excluídos das duas grandes redes de satélite
que operam entretenimento televisivo no Brasil, embora o proprietário
seja o mesmo Murdock [o magnata de mídia Rupert Murdock,
que tem participação nas operadoras Sky e Direct
TV]. Na programação nacional de muito tempo, a
concorrência vem sendo uma "guerra" não
pela qualidade, mas pelos números de audiência.
Não
há limites, seja no horário de exibição,
seja no desrespeito às pessoas expostas como fantoches,
com a falsa promessa de se tornarem celebridades, de ganharem
fama e dinheiro, como num conto de fadas, que não tarda
em virar pesadelo. Tal exposição do ser humano
dá muito dinheiro às grandes redes, seja através
dos assinantes, dos comerciais ou daquilo que passou a se chamar
de forma errônea de "merchandising", os comerciais
de produtos "fabulosos", milagrosos e mentirosos,
tal qual a próxima atração a ser exibida.
Eis
que a televisão de "Sergipe Del Rey" não
poderia ficar de fora. Passando pela programação
esportiva, informativa e de entretenimento, o que temos visto
é a exposição do grotesco como opção
de programação local; a baixaria começa
na teatralização de seus apresentadores caricatos,
de criatividade, cultura e ética duvidosas, não
importando aí os valores humanos e esquecendo o alvo
básico do jornalismo e também do entretenimento,
que vem a ser o cidadão.
Marionetes
A
idéia é confundir cada vez mais jornalismo e entretenimento,
criando na cabeça das pessoas a falsa idéia de
que o mundo se resume num desfile de bobagens. O problema se
agrava no momento em que um pseudo-repórter, ao entrevistar
um suspeito de crime, por exemplo, age como policial, ou quando
determinado apresentador de um programa esportivo ou de variedades
se expõe como palhaço de feira, ou achando que
nós é que somos os palhaços.
A
"verdade", esta palavra tão mentirosa, é
que estamos reféns de uma programação que
beira os abismos da ignorância, que não respeita
a diversidade cultural e não respeita porque não
entende; para o ignorante, diante de todo o universo que ele
não compreende fica mais fácil ignorar do que
pensar para entender, saindo deste mundo escuro e confortável
que chamamos de ignorância compulsiva.
Nossa
intenção é que as pessoas saiam da confortável
posição da ignorância, saiam do torpor,
da demência, da comodidade, deixem de ser marionetes de
uma mídia dominada pela graça gratuita, pela preguiça
mental, e parem de se expor ao grotesco na televisão.
(*)
Jornalista, pós-graduado em Jornalismo Político
e Econômico, mestre em Comunicação e Cultura
pela ECO/UFRJ
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