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Informação:
Observatório
da Imprensa - 15/02/2005
Paulo
Lima (*)
Os
meios eletrônicos e o seu impacto sobre a educação
têm no professor Valdemar W. Setzer, da Universidde de
São Paulo, um dos seus mais obstinados críticos.
Em seu intenso trabalho de pesquisa distribuído por muitos
artigos e livros sobre o assunto, ele estuda a influência
que a TV, o computador e os jogos eletrônicos exercem
especialmente sobre as crianças. O aviso estampado em
seu site não deixa dúvidas quanto às posições
do autor: "Deixem as crianças serem infantis, não
lhes dêem acesso a TV, jogos eletrônicos e computador!".
Baseado
nos princípios da pedagogia Waldorf, desenvolvida pelo
austríaco Rudolf Steiner em 1919, e hoje utilizada em
mais de 800 escolas pelo mundo, Valdemar é taxativo:
não esperem da TV qualquer contribuição
educativa. Isto porque, diante da telinha, as imagens chegam
prontas, sem induzirem a qualquer esforço mental. A velocidade
e o bombardeio constante de imagens impedem que o telespectador
desenvolva qualquer tipo de raciocínio. No processo educativo,
o aprendizado resulta de uma atividade interior, da associação
de idéias, da contextualização daquilo
que se aprende. Na TV, as imagens já chegam prontas e
não exigem de quem as assiste qualquer esforço
de associação, atuando, para o professor, como
uma "antítese da educação". A
indução à violência é outro
ponto que depõe contra a TV, segundo Valdemar Setzer,
respaldado nos resultados de ampla pesquisa científica
sobre o assunto.
Mas
a "máquina de fazer doido", como já
se referia à TV o cronista Stanislaw Ponte Preta, nos
anos 60, faz mal não somente às crianças,
"mas a todas as pessoas", afirma Valdemar Setzer,
que diz não sentir falta da TV em seu dia-a-dia (só
foi comprar o primeiro aparelho quando a filha menor já
era adulta). Com sua presença maciça no cotidiano,
a TV determina um formato de show e de espetáculo que
acaba extrapolando para todas as formas de manifestações
culturais. Outros meios que não estejam sujeitos a esse
ditame são considerados "aborrecidos" e "chatos"
pelas pessoas.
Sem
otimismo
Na
sua crítica ao admirável mundo novo prometido
pelos meios eletrônicos, o professor identifica idêntico
perigo na relação precoce das crianças
com o computador. No contato com essa ferramenta, o usuário
está preso a uma linguagem formal, lógico-simbólica.
Nos seus primeiros sete anos, a criança está submetida
a outro universo, que privilegia a "imaginação",
o "ritmo" e a "imitação".
A pedagogia Waldorf, adotada por Valdemar Setzer em sua análise,
divide o desenvolvimento humano em três grandes fases,
ou "setênios". No primeiro "setênio",
o ensino deveria ser exercido em "jogos", "brincadeiras",
"histórias" e "trabalhos manuais simples".
Para Valdemar, pelo menos duas conseqüências podem
advir desse uso na infância: "Indução
de um pensamento rígido e de uma mentalidade materialista".
Um
conhecimento mais amplo das suas idéias pode ser obtido
com a leitura do seu último livro, Os meios eletrônicos
e a educação: uma visão alternativa (Ed.
Escrituras), um dos 11 que já publicou, além dos
artigos divulgados em seu site (www.ime.usp.br/~vwsetzer).
Professor
titular aposentado, desde 1992, do Departamento de Ciência
da Computação do Instituto de Matemática
e Estatística (IME) da USP, palestrante, músico,
estudioso e praticante da antroposofia, Valdemar Setzer foi
professor-visitante nas universidades do Texas, em Austin (EUA),
e de Stuttgart, na Alemanha. Nesta entrevista concedida por
e-mail, ele fala da influência da TV e dos computadores
na educação e não mostra qualquer otimismo
quanto ao paraíso futuro prometido pela tecnologia.
***
Por
que evitar que crianças vejam TV?
Valdemar
W. Setzer – Por que TV faz mal a todas as pessoas,
especialmente, e terrivelmente, às crianças.
Não
há chance alguma de a criança vir a aprender com
o que assiste na TV?
V.W.S
– Claro que, excepcionalmente, uma criança
pode aprender algo com a TV. Mas não é a forma
correta de aprendizado, pois educação é
um processo lento e participativo. A TV é rápida
e totalmente apassivadora, inclusive na consciência e
no pensamento. É importante saber-se que a TV não
tem efeitos informativo e educativo, caso contrário,
seria largamente usada nas escolas.
A
televisão é uma instituição onipresente
na cultura contemporânea. Os estados nacionais têm
perdido sucessivas batalhas para regulamentá-la. Essa
é uma guerra perdida?
V.W.S
– Sim, pois a TV comercial vende espectadores aos anunciantes;
qualquer coisa que atraia os telespectadores é válida
dentro desse contexto. Enquanto a mentalidade de selva capitalista
imperar, a batalha está perdida. Quanto à TV sem
fins lucrativos, esta precisa ter audiência, pois senão
não justifica sua existência perante o público
e os órgãos financiadores, de modo que cai no
mesmo padrão de atrair audiência. Como a TV deixa
a pessoa passiva tanto fisicamente (ações) quanto
nos pensamentos, sobram os sentimentos. Tudo o que atinge os
sentimentos de maneira emocionalmente forte e agitada é
bem transmitido e atrai os telespectadores. Daí a transmissão
de violência, desde os desenhos animados (terríveis
para crianças, pois apresentam sempre uma caricatura
do mundo) até crimes, passando por esportes excitantes
ou violentos. Se uma cena bucólica, lenta, carinhosa,
for transmitida, os telespectadores achá-la-ão
"chata" e vão mudar de canal (aliás,
nem para isso é preciso mais fazer um esforço...).
A
TV interativa pode vir a funcionar como um progresso, rompendo
a passividade do atual modelo de TV?
V.W.S
– Não. A interatividade será mínima,
e acontecerá durante poucos períodos de uso da
TV. Além disso, uma das piores coisas da TV (e dos joguinhos
eletrônicos, que são ainda piores do que ela) é
que tudo é apresentado sob forma de imagens, impedindo
a criação de imagens interiores (como ao ler um
livro, por exemplo), isto é, prejudica a fantasia (que
deveria ser propriedade de qualquer criança) e a imaginação.
Essa
nova TV poderá ser utilizada positivamente na educação?
V.W.S
– Não.
Pessoalmente,
como o senhor lida com a TV em seu cotidiano? Com qual freqüência
costuma assisti-la?
V.W.S
– Praticamente nunca. Mudei para um apartamento em 25/11/04
e até hoje nem adaptei os cabos para ligá-la na
antena coletiva (TV a cabo ou satélite, nem pensar; eu
não gastaria meu dinheiro com algo tão inútil
e tão prejudicial). Não me faz absolutamente falta,
e nem tenho tempo para perder com ela. Não tive TV até
minha filha menor tornar-se adulta. Foi o melhor presente que
dei a meus filhos! Por sinal, todos os quatro têm sucesso
profissional muito bom, em alguns casos até excepcional.
O
senhor vê uma associação entre a violência
e a programação mostrada pela TV. A violência
não seria fruto de um contexto maior, como falta de perspectiva,
desemprego, conflitos familiares etc.?
V.W.S
– Claro que não se pode isolar um único
fator; o ser humano e a sociedade são entes extremamente
complexos. No entanto, devido à minha conceituação
sobre os efeitos da TV, estou absolutamente seguro de que ela
induz violência. Além disso, há várias
pesquisas mostrando que a TV induz violência a curto,
médio e longo prazos. Um argumento intuitivo é
que o ser humano incorpora todas as suas experiências,
em geral de maneira inconsciente ou subconsciente (aliás,
padrão da gravação, no telespectador, de
todas as imagens e do som da TV). Essas imagens gravadas no
telespectador não passam em brancas nuvens, devem obviamente
influenciar o comportamento. É por isso que a propaganda
na TV funciona – caso contrário não se gastariam
os milhões que se gasta com esse meio nessa atividade.
A
cultura do show, do espetáculo, está presente
nas atividades culturais de uma forma maciça, e a TV
tem estado no centro dessa influência. O senhor acredita
que esse é um espírito de época, ou conheceremos
um novo estágio civilizacional?
V.W.S
– De fato, estamos caminhando para um novo estágio:
a degradação completa da dignidade humana. Os
meios eletrônicos são um instrumento fundamental
nesse processo.
De
que forma os processos educacionais podem trabalhar essa influência?
V.W.S
– É preciso educar em primeiro lugar os
adultos, mostrando-lhes que a TV é a maior tragédia
que aconteceu à humanidade (só pelo tamanho já
se vê a proporção: metade da humanidade
fica bestificada na frente da TV todos os dias!), que ela não
é necessária e é altamente prejudicial,
principalmente para as crianças. Infelizmente a escola
também não ajuda: em geral, quer ser moderninha
e embarca em qualquer coisa de alta tecnologia, quando não
é mercenária e usa a última para vender
matrículas.
O
senhor mantém também uma postura crítica
em relação ao uso do computador pelas crianças.
Por que o desaconselha?
V.W.S
– Porque ele força um pensamento algorítmico,
isto é, matemático, discreto, expresso por meio
de uma lógica simbólica. Isso é altamente
prejudicial às crianças, pois é próprio
só de adultos. Ele acelera indevidamente o desenvolvimento
intelectual das crianças e jovens. Observe-se uma criança
usando um computador: ela está numa atitude infantil
ou adulta? Como está em meu site: "Deixem as crianças
serem infantis, não lhes dêem acesso a TV, jogos
eletrônicos e computador!"
O
acesso ao mundo informatizado tornou-se o símbolo máximo
da modernidade. As crianças são iniciadas cada
vez mais cedo no universo dos computadores, da internet. Que
conseqüências físicas e psicológicas
poderão advir desse batismo precoce?
V.W.S
– Isso levaria a muito longe. Os leitores devem
ler meus livros e meus artigos. Mas vou adiantar duas conseqüências:
indução de um pensamento rígido e de uma
mentalidade materialista. É essencial que se reconheça
que o uso de computadores e da Internet por crianças
não apresenta nenhuma, absolutamente nenhuma necessidade.
Qualquer um aprende a usá-los rapidamente na idade adulta
ou quase adulta.
Oposições
como "apocalípticos vs. integrados", sugerida
por Umberto Eco, dão conta da complexidade relativa ao
uso atual da tecnologia?
V.W.S
– Não da minha maneira.
Os
defensores da tecnologia vêem um futuro completamente
dominado pela convergência de tecnologias inteligentes,
com ganhos para toda a sociedade. O senhor mantém o mesmo
otimismo?
V.W.S
– De modo algum. A sociedade tem melhorado? Claro que
temos mais saneamento básico, algo puramente tecnológico,
por exemplo. Mas as pessoas estão mais felizes, mais
seguras, com mais ideais, com mais perspectivas de realizar
seus objetivos, ou estão cada vez mais frustradas com
seu trabalho, com sua família e amigos, estão
cada vez com mais depressão, estão cada vez mais
cometendo suicídios a idades cada vez mais jovens, têm
cada vez menos respeito pelos seus semelhantes? O ser humano
está se degenerando – e sendo degenerado –
rapidamente. É preciso reconhecer as causas profundas
dessa situação: os meios eletrônicos são
algumas das mais importantes.
(*)
Formando em jornalismo da Universidade Tiradentes (SE) e editor
do Balaio de Notícias (www.sergipe.com.br/balaiodenoticias)
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