Informação:
AESP - Associação
das Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de
São Paulo - 24/09/2004
O
Globo - Opinião
Jayme
Monjardim
Mais
uma vez, reacende-se o desgastante debate sobre “linguagem
de televisão” e “linguagem de cinema”.
Um debate medíocre (comum) e ignorante, além de
peremptório, que revela desconhecimento e um rancor típico
de quem se percebe aquém da empreitada de realizar.
É
preciso deixar claro aos que alimentam este debate de poucas
luzes, como o fez brilhantemente o cineasta Jorge Furtado (“Zero
Hora”, 23/8/2003, “Como se faz não é
como se vê”), que não existe linguagem de
televisão e linguagem de cinema. Por definição
da Língua Portuguesa, linguagem é “todo
sistema de signos que serve de meio de comunicação
entre indivíduos”.
Os
signos e elementos utilizados nas obras para televisão
ou cinema são os mesmos e compõem a linguagem
visual. Não há duas linguagens, mas dois meios.
Dois veículos distintos especialmente pelo comportamento
que impingem ao espectador. No cinema, a pessoa paga e se arma
de paciência para assistir (até o fim, quem sabe)
a um filme numa grande sala escura. Na televisão, o sujeito
recorre ao controle remoto e tem poder sobre a exibição.
Dois meios, dois comportamentos. Uma única linguagem,
que comporta, é claro, milhares de estilos e liberdades
artísticas, mas esse debate não chega a empolgar
alguns críticos, que acham mais produtivo estabelecer
o que pode ou não pode ser feito em duas coisas que simplesmente
não existem, a linguagem de televisão e a linguagem
de cinema.
Para
piorar e acentuar a ignorância do debate, estão
em voga, além dos argumentos falaciosos, que tentam associar
filmes à fictícia linguagem de televisão
ou à fictícia linguagem de cinema, os argumentos
prepotentes e que escondem um profundo rancor com o público.
Não é à toa que, usualmente, filmes que
batem recordes de público são rejeitados por alguns
críticos. Há, neste desencontro de interesse e
percepção, a premissa de que o que é feito
“para uma audiência massiva” é necessariamente
ruim.
No
mesmo país em que pagar ingresso ainda é luxo
para milhões de pessoas, alguns críticos utilizam
o termo “televisivo” para depreciar uma obra. E
“cinematográfico” para enaltecê-la.
Como se houvesse, de fato, diferentes linguagens. Para piorar
definitivamente a ignorância do debate, percebe-se um
perigoso tom ditatorial no discurso.
Afirmações enfáticas sobre o que “se
pode” ou “não se pode” fazer num filme.
Como
se houvesse um tribunal (militar?) a julgar as liberdades, as
escolhas e as visões artísticas de cada realizador
— seja ele cineasta, diretor, produtor, roteirista, ator,
enfim. Como se houvesse um juiz onipotente (a crítica,
esse pequeno e seleto e alheio grupo de pessoas que têm
o conhecimento?) a permitir ou não que se sinta uma história
da maneira que se pretende senti-la.
Aliás,
a irrelevância do debate é tamanha que exclui dele
o sentir.
Todos
os sentidos ficam de fora da análise ignorante, tipicamente
política, que divorcia a técnica da percepção
sensorial. E é exatamente aí que reside o único
interesse de um realizador: o momento do encontro do espectador
com a obra.
Jayme
Monjardim é cineasta e diretor de novelas na televisão.
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