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Televisão - Reino do carioquês.


 

Informação: AESP - Associação de Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo - 05/12/2004

O Estado de S.Paulo TV & Lazer - Televisão

Do ponto de vista da diversidade cultural brasileira, a televisão é absolutamente discriminadora

Leila Reis
E-mail: leilareis@terra.com.br

Afe Maria, quando Maria do Carmo, personagem de Suzana Vieira na novela Senhora do Destino, entra no vídeo da Globo, uma considerável parte da belíssima audiência se arrepia com o sotaque dela. O nordestinês ostentado pela personagem, que chegou no Rio em 1968, intriga os que querem mais realismo na ficção de cada noite. "Afinal, os mais de 30 anos na cidade não serviram para provocar um certo aculturamento na personagem?", questiona uma turma.

Outra turma implica com o "pernambuquês" que, segundo os conterrâneos de Maria do Carmo, não é falado em Pernambuco nem em qualquer outro Estado do Nordeste. A verdade é que existe um jeito de ser nordestino na TV que não tem nada a ver com a realidade. Em todas as novelas e minisséries ambientadas na Bahia, Ceará, Maranhão ou qualquer outro paraíso costeiro o sotaque é o mesmo.

Na representação da TV, não há diferença no jeito de falar de baianos, pernambucanos, paraibanos, alagoanos, sergipenses, cearenses, piauienses, etc. Cabem todos no estereótipo que São Paulo e Rio de Janeiro fazem do nordestino. É o preconceito no ar toda santa noite.

Do ponto de vista da diversidade cultural brasileira, a televisão é absolutamente discriminadora. O nordestino entra nela pela porta do estereótipo, mas existem outros segmentos brasileiros que nem essa oportunidade têm. Paranaenses, goianos, mineiros, catarinenses, capixabas, mato-grossenses e uma multidão de telespectadores que ajudam a garantir o ibope jamais reconheceram o som de seu sotaque na TV. Somente no terreno do humor - e para atender ao fim específico de fazer rir - é que se encontra a representação de outros tipos brasileiros. Vide as piadas sobre gaúcho do Casseta & Planeta, e a ingenuidade mineira de Nerso da Capitinga, no Zorra Total e outros programas.

Tirando as exceções, a TV brasileira tem dois sotaques: o carioca e o paulista. Isso porque as chamadas cabeças-de-rede estão instaladas no Rio (Globo) e em São Paulo (SBT, Record, Bandeirantes e Rede TV!). É na sede das redes que é produzida e transmitida para o resto do Brasil a programação.

Assim, o que une este País de dimensões continentais é o veículo de massa que fala o carioquês (nas novelas e humor da Globo) e o paulistês dos programas de auditório e de entrevistas.

Há uma preocupação em buscar o sotaque neutro nos telejornais - o do William Bonner, Boris Casoy, Marília Gabriela, por exemplo -, mas o padrão é a língua falada na sede do poder. Assim, as redes nacionais mataram a produção local, confinando-a em uma fatia insignificante da programação.

Dessa maneira, a língua falada pela TV não representa a maioria do seu público e cria até complexos. Uma história contada pelo ator Paulo Betti ilustra bem. Quando interpretava Timóteo na novela Tieta, o ator recebeu carta de uma fã que morava na região em que a novela foi gravada. A mulher dizia que adorava o personagem dele, mas lá, na sua região, as pessoas não falavam como os atores. Mas dizia que ele não precisava se preocupar: "Nós estamos aprendendo."