Informação:
Folha de São Paulo - Ilustrada - 23/08/2004 Laura Mattos
Para
juiz, Alô Band, Portal de Voz do SBT e programa da Syang
são irregulares; redes negam
O
Portal de Voz do SBT, o Alô Band, o "Swing com Syang"
(Gazeta) e outros programas e comerciais de chats (bate-papos)
telefônicos estão na mira da Justiça.
São
sistemas nos quais o telespectador liga para um número
de celular divulgado pelas emissoras a fim de participar da
programação, concorrer a prêmios ou conversar
com outros usuários.
As
TVs colocam todo o custo dessa nova forma de interatividade
-usada para diversificar os programas, elevar o Ibope e até
realizar pesquisas com a audiência- na conta telefônica
do telespectador. E o preço é de ligação
para celular local ou até de longa distância (no
caso do SBT).
Para
o juiz Aroldo José Wa- shington, da 4ª Vara da Justiça
Federal de SP, o uso desses celulares é uma manobra para
driblar a proibição do antigo sistema 0900, determinada
por sentença assinada por ele em 2003. As linhas iniciadas
por 0900 foram largamente utilizadas para sorteios de carros
e outros prêmios na TV, além de telessexos, em
meados dos anos 90. Washington afirmou à Folha que os
celulares interativos ferem o direito do consumidor e estão
suspensos até esclarecimentos formais à Justiça.
Na
última quinta, ele acionou o Ministério Público
Federal para que sua sentença seja cumprida, e TVs e
operadoras telefônicas que estão desrespeitando
as normas, punidas. Na opinião do juiz, as emissoras
deveriam, no mínimo, dividir o custo da interatividade
com o telespectador. "Cobrar tudo do usuário a preço
de celular é quase estelionato. As TVs são as
grandes interessadas em receber essas chamadas. Deveriam, ao
menos, utilizar telefones fixos, cuja ligação
tem custo mais baixo. E o ideal, do ponto de vista da defesa
do consumidor, é que a participação seja
gratuita, por 0800."
A
responsável pela tecnologia do Alô Band é
a britânica One World Interactive, presente em mais de
70 países e instalada no Brasil desde o início
deste ano.
A
empresa é também produtora do "Swing com
Syang" e do "Happy Line", no qual meninas de
pouca roupa conversam com telespectadores por telefone e comandam
jogos de perguntas e respostas. Os programas são exibidos
na TV Gazeta, em horários arrendados pela companhia.
A
One World produz ainda comerciais de outros chats telefônicos
de "namoro e amizade" por celular e compra as madrugadas
de emissoras para exibi-los.
O
lucro se dá da seguinte forma: o telespectador paga a
ligação em sua conta telefônica (como qualquer
outra chamada), e o valor é repassado para a operadora
de celular da qual faz parte o número interativo (os
da One World são da Claro). Por contrato, a operadora
de celular divide o bolo com a empresa dona da tecnologia. A
TV recebe parte do valor ou, no mínimo, usa o serviço
de interatividade sem nenhum custo.
A
sentença é resultado de uma ação
civil pública do Ministério Público Federal
gerada por denúncias de órgãos de defesa
do consumidor, em 97. A decisão impõe limites
ao uso de números telefônicos para os chamados
Serviços de Valor Adicionado (SVAs).
Determina,
por exemplo, que o usuário pague, no máximo, por
cinco minutos de ligação para linhas iniciadas
por 0300 (que custa quase o triplo de um pulso normal). O sistema,
hoje mais controlado, já foi amplamente utilizado para
informações por telefone, como saldos bancários,
e para interatividade na Rede TV! e Band, em 2001. Na Globo,
serviu para votação em "reality shows"
como "Big Brother Brasil" e "Fama".
De
acordo com a sentença, é proibido cobrar ligações
por tempo (ex: R$ 4 o minuto) e é obrigatória
a criação de uma linha 0800 (ligação
grátis) para que o usuário possa bloquear chamadas
para esses números. Segundo o juiz, é um modo
de evitar que crianças e adolescentes, "mais suscetíveis
aos apelos da TV", façam longas ligações
sem autorização dos pais, que "depois se
assustam com as contas telefônicas".
OUTRO
LADO
Emissoras
dizem apenas cobrar pela ligação.
Informação:
Folha de São Paulo - Ilustrada - 23/08/2004
O
principal ponto de toda essa polêmica é que o Portal
de Voz do SBT, o Alô Band, o "Swing com Syang",
Happy Line e outros que utilizam celulares cobram pelo custo
normal da ligação (local ou de longa distância).
Essa é a defesa das emissoras e das empresas donas desse
tipo de tecnologia interativa.
A
assessoria do SBT afirmou que seu Portal de Voz não se
enquadra na sentença do Serviço de Valor Adicionado.
"Cobramos ligação normal, e não serviço."
Marcelo
Parada, vice-presidente da Bandeirantes, tem o mesmo argumento.
"O que o consumidor paga é a chamada telefônica,
e isso existe em qualquer lugar do mundo. Não é
a mesma mecânica do 0900. Se amanhã vier uma determinação
judicial de que não se faça mais uso desses celulares,
nós a seguiremos. Mas até hoje isso ainda não
aconteceu."
Lacunas
Guilherme Ieno Costa, advogado da One World Interactive, afirma
que no modelo 0900 se cobrava pelo SVA. "Hoje, cobramos
apenas o valor da chamada."
Segundo ele, a sentença é "confusa, genérica
e possui lacunas". "Na interpretação
literal do que está no texto, até os chats de
internet estariam proibidos, já que o acesso a eles é
feito por meio de ligação telefônica",
diz.
O
juiz Aroldo José Wa- shington nega e afirma que a internet
não está contemplada na decisão, "restrita
a serviços pelo telefone".
O
advogado da One World Interactive afirma que, diferentemente
do que diz o juiz, o uso de celulares interativos não
está suspenso, mas apenas o de alguns determinados chats
telefônicos, como Papo Legal, Disque Amizade e Alô
Galera.
Ele
ainda diz que a decisão não é clara quanto
a quem deve cumprir as normas -se emissoras de televisão
ou apenas as operadoras de celular. Segundo Costa, outro problema
é que a decisão entra em contradição
com a Lei Geral de Telecomunicações, que daria
liberdade para a realização dos Serviços
de Valor Adicionado.
Ao
menos em um ponto a Justiça, as operadoras, as TVs e
as criadoras dos chats concordam: esse é o mais quente
capítulo da interatividade na TV dos últimos anos.
Chats
das TVs abrigam papos com teor sexual.
Informação:
Folha de São Paulo - Ilustrada - 23/08/2004
Os
chats telefônicos veiculados pelas TVs não têm
o controle dos bate-papos dos telespectadores, que, não
raro, adquirem tom sexual. A Folha ouviu conversas do chat do
"Swing com Syang". Em várias, eram ditos palavrões
e expressões chulas, como "eu sou o língua
de ouro e quero te lamber".
No
"Happy Lyne", as apresentadoras usam roupas sensuais
e estimulam o clima de erotismo. Telespectadores disseram gastar
até R$ 900 com esse tipo de entretenimento e já
marcaram encontros com pessoas que conheceram nos bate-papos.
Uma garota de 17 anos foi a um shopping encontrar um rapaz que
conheceu no chat da Syang durante a madrugada.
O
juiz Aroldo José Washington disse já ter tido
acesso ao conteúdo dos chats. Para ele, são serviços
que podem ferir o Estatuto da Criança e do Adolescente
e precisariam, pelo menos, ser controlados. "Para participar,
seria preciso, por exemplo, comprar um cartão pré-pago."
Essa é, segundo ele, uma forma de os pais controlarem
o acesso dos filhos a esses serviços. A sentença
assinada por Washington proíbe os telessexos e "outros
que atentem contra a moral da sociedade e o Estatuto da Criança
e do Adolescente".
Guilherme
Ieno Costa, advogado da One World (produtora do "Swing
com Syang" e do "Happy Lyne"), diz que a empresa
e a operadora realmente não têm controle do conteúdo
dos chats. Para ele, no entanto, se o juiz quer enquadrar os
bate-papos na sentença, "tem de ser claro".
"O que atenta contra a moral da sociedade e o Estatuto
da Criança e do Adolescente? Enquanto isso não
for esclarecido, a sentença perde o poder de ser aplicada."
(LM)
LIGAÇÕES
PERIGOSAS
Juiz
questiona sorteio de carro da Band.
Informação:
Folha de São Paulo - Ilustrada - 23/08/2004
O
juiz Aroldo José Washington, da 4ª Vara da Justiça
Federal, afirma que todos os sorteios pela televisão
estão proibidos, a não ser que sigam as regras
de sua sentença, que impõe controle às
ligações telefônicas.
De
acordo com sua interpretação, o sorteio de um
carro realizado na programação da Olimpíada
pela Bandeirantes está irregular. Para concorrer ao carro,
o telespectador tem de ligar para o celular do Alô Band,
sistema que também está provisoriamente suspenso,
segundo o juiz.
Para
Washington, ações como essa são uma recriação
dos antigos sorteios de carros e de outros prêmios por
meio das linhas iniciadas por 0900, hoje proibidas.
Marcelo
Parada, vice-presidente da Band, afirma que a emissora não
faz nada que seja irregular. O sorteio, diz, não segue
os mecanismos do 0900, principalmente porque a chamada tem custo
de ligação normal para celular. "Nós
seguimos todas as regras para esse tipo de sorteio, de modo
que o carro seja um presente da Band para o telespectador",
diz Parada. Segundo ele, a Band não foi notificada e
não está desrespeitando a sentença. "Não
vamos discutir algo que seja opinião do juiz. A Justiça
fala pelos autos." (LM)
Telefônica
bloqueia chamadas, fala em fraudes e gera "guerra".
Informação:
Folha de São Paulo - Ilustrada - 23/08/2004
A
Telefônica bloqueou as ligações para celulares
interativos das TVs, tornando impossível as chamadas
de aparelhos fixos de São Paulo para o Alô Band,
Portal de Voz do SBT e programas de chats.
A
operadora afirma estar cumprindo a sentença judicial.
O juiz Aroldo José Washington diz não só
que a Telefônica agiu corretamente como declara que a
mesma atitude tem de ser tomada por todas as operadoras do país.
Responsável
pelo Alô Band, "Swing com Syang" e outros, a
One World acusa a Telefônica de abuso do poder econômico.
Diz que a operadora bloqueia só ligações
para números da concorrência e permite chats de
empresas de seu conglomerado. "A sentença é
confusa, e a Telefônica se aproveitou disso para barrar
números aleatoriamente e evitar a concorrência
com a Claro, por exemplo, na qual nossas linhas estão
hospedadas", diz o advogado Guilherme Ieno Costa.
Na
próxima semana, a One World estudará reação
à Telefônica e poderá entrar com processo
na SDE (Secretaria de Direito Econômico), no Cade (Conselho
Administrativo de Defesa Econômica) ou na Anatel (Agência
Nacional de Telecomunicações).
A
Telefônica afirma bloquear todos os chats e ter, inclusive,
acabado com um bate-papo de sua propriedade. Diz que, se há
algum número não bloqueado, é porque ainda
não foi detectado.
Segundo
a Telefônica, os celulares interativos costumam estar
envolvidos em fraudes, o que teria lhe custado prejuízo
de até R$ 6 milhões/mês. Afirma ter encontrado
um orelhão no qual um "gato" (ligação
clandestina) disparou ligações ininterruptas a
celulares de chats ao longo de 21 dias. A chamada teria custado
cerca de R$ 15 mil. E, mesmo quando não recebe do usuário
(o que ocorre em "gatos"), a Telefônica tem
de pagar 90% do valor às operadoras de celular. De cada
cem ligações para celulares interativos, diz a
companhia, 72 são de inadimplentes ou de fraudes.
A
One World duvida dos dados e diz que a Telefônica deve
mostrar números auditados. (LM)
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