| Informação:
AESP - Associação
de Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de
São Paulo - 20/12/2004
O
Estado de S.Paulo Economia - Telecomunicações
TECNOLOGIAS
DA INFORMAÇÃO - ECONOMIA DIGITAL
ETHEVALDO
SIQUEIRA
esiqueira@telequest.com.br
O
Brasil acaba de quebrar a barreira dos 100 milhões de
telefones. Há exatamente dez anos, em dezembro de 1994,
eram apenas 14 milhões: um aumento da ordem de 600%,
portanto. A rigor, esses 100 milhões de acessos telefônicos
se dividem em 62 milhões de celulares e 38 milhões
de linhas fixas.
A
densidade porcentual subiu de 9 para 56 acessos telefônicos
por 100 habitantes. Esse é um dos melhores exemplos de
inclusão digital obtidos pelo Brasil em dez anos. E é
bom lembrar que 80% dos usuários de celular pertencem
às classes C, D e E, que optam pela modalidade de celular
pré-pago, gastando menos de R$ 20 por mês.Nenhuma
outra área de infra-estrutura experimentou crescimento
tão expressivo na história recente do Brasil.
Na maioria das cidades brasileiras, quem quiser uma nova linha
telefônica pode obtê-la em menos de uma semana e
pagar menos de R$ 100 pela instalação. Em 1994,
a escassez de telefones era tão grande na Grande São
Paulo que o mercado paralelo chegava a oferecer linhas em alguns
bairros a preços equivalentes a US$ 10 mil. Repetindo:
dez mil dólares.
Mesmo
reconhecendo a existência de muitos problemas nas telecomunicações
brasileiras, é inegável que elas avançaram
muito em uma década. Fernando Xavier, presidente da Telefônica,
disse à imprensa na quarta-feira passada que essa fase
de expansão acelerada é uma etapa já superada:
"Cabe-nos, agora, cuidar com mais atenção
da qualidade, do conteúdo, dos padrões de atendimento
ao usuário".
Enquanto
não chega o melhor atendimento, reconheçamos que
avançamos quantitativamente em diversos pontos. Os brasileiros
quase não se comunicavam em 1994: em vez de pouco mais
de 80 milhões de ligações telefônicas
diárias, daquele ano, fazemos hoje mais de 900 milhões
de chamadas por dia. Esse aumento tão expressivo do tráfego
telefônico deve ter tido conseqüências positivas
na economia, nas exportações, nas relações
entre as pessoas, na aproximação de famílias,
de grupos sociais, de empresas e de instituições.
No País, os internautas eram apenas 150 mil. Hoje, são
20 milhões - o que ainda é muito pouco, mas houve
um bom avanço. Há cidades brasileiras - como Brasília
e Ribeirão Preto - que têm mais telefones do que
gente.
QUANTO
VALE ISSO?
Levo a sério as pessoas que me contestam. Por isso, gostaria
de analisar com o maior respeito os argumentos de dois colegas
e amigos - Paulo Markun e Mônica Teixeira - numa entrevista-debate
na TV Cultura. Na verdade, prefiro acreditar que, ao longo do
diálogo, esses queridos interlocutores só tinham
como objetivo fazer provocações para aquecer o
debate, pois disseram frases parecidas com esta: "O uso
do celular é inteiramente supérfluo e não
melhora muito a qualidade de vida das pessoas". Ou ainda:
"Tudo que se cria nesse campo das tecnologias da informação
e da comunicação - celulares, laptops, palmtops
ou internet - parece ter como único objetivo fazer negócio,
negócio e mais negócio. Será que a tecnologia
só existe para isso?"
Havíamos
concordado com a premissa de que, diante da tecnologia, não
poderíamos ser nem deslumbrados nem apavorados. Com a
provocação inteligente, no entanto, o debate ficou
bem mais aquecido - o que é sempre bom na TV. Mas, logo
saltamos para as posições extremas. Eu virei deslumbrado.
Eles, apavorados - embora com o discreto charme dos humanistas
e intelectuais de esquerda, que desancam sistematicamente a
tecnologia e se recusam a reconhecer o impacto social e os benefícios
das telecomunicações, do computador, da internet,
da multimídia ou da convergência digital.
TRANSFORMAÇÃO
Agora, refletindo mais calmamente, gostaria de lembrar que tecnologia
é ferramenta, instrumento de transformação
do mundo e da sociedade. Assim aprendi com a saudosa professora
Gioconda Mussolini, uma das grandes mestras de Antropologia
Cultural que tive no curso de Ciências Sociais, na Faculdade
de Filosofia da USP, ainda nos tempos da Rua Maria Antonia,
nos idos de 1960. É com essas ferramentas e inventos
- fogo, roda, alavanca, sílex, arco e flecha - que o
hominídeo atua sobre o mundo e vira gente e passa a viver
em sociedade. Por outras palavras, é a tecnologia e o
trabalho que transformam o Pithecanthropus em Homo sapiens.
Ciência
e tecnologia têm muito a ver com as transformações
da história. Esse processo civilizatório está
diretamente relacionado às novas ferramentas e tecnologias
criadas pelo homem. Assim, as chamadas grandes invenções
no final da Idade Média - como pólvora, papel,
imprensa, bússola, astrolábio ou caravela - vão
tornar possíveis as grandes navegações,
a Reforma, o Renascimento e a Contra-Reforma. A máquina
a vapor deflagra a Primeira Revolução Industrial,
da mesma forma que o motor a petróleo e a eletricidade
a ampliam no que se convenciona chamar de Segunda Revolução
Industrial. Por que, então, não reconhecer o impacto
do transistor, do computador, do celular, dos satélites,
da fibra óptica ou da internet nesta emergente Sociedade
da Informação em que ingressamos?
Aos
que estudaram, pelo menos na juventude, o marxismo, valeria
a pena lembrar a magnífica análise do papel da
tecnologia que Marx e Engels fazem do nascimento e da evolução
do capitalismo e do desenvolvimento da burguesia, no Manifesto
Comunista, de 1848. Ou recordar que Lenin, por volta de 1921,
afirmava: "Sem eletricidade não haverá socialismo".
Talvez fosse melhor dizer que, "sem tecnologia, fica muito
difícil construir uma sociedade desenvolvida, mais justa
e mais democrática ".
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