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Informação:
Observatório
da Imprensa - 28/12/2004
João
Brant (*)
Um
exemplo ilustrativo. Se hoje uma associação de
bairro deseja montar uma rádio comunitária, ela
tem se adequar a uma série de normas limitantes (que
dificultam ao máximo a regularização),
entrar com um pedido de autorização no Ministério
de Comunicação e entrar na fila dos mais de 7000
processos que já estão lá. O governo diz
que só tem condições de analisar 1500 processos
por ano, o que significa que, se tudo der certo, até
o final de 2009 o pedido será analisado. Enquanto isso,
as rádios estão sob ameaça de fechamento
pela Anatel ou pela Polícia Federal. Para se ter uma
idéia, desde 1998, quando foi promulgada a lei de radiodifusão
comunitária, foram licenciadas 2.199 rádios comunitárias.
Enquanto isso, só em dois desses anos, 2002 e 2003, foram
fechadas 7.612 rádios. A prática da comunicação,
que deveria ser um direito, é hoje um delito para boa
parte dos brasileiros.
Foi
pensando em atuar sobre esse tipo de questão que cerca
de 40 entidades resolveram trabalhar na criação
da Cris Brasil. Essa articulação nasce para incidir
em diversos campos da área das comunicações,
desde a concentração da mídia até
a apropriação social das Tecnologias de Informação
e Comunicação (TICs), passando pela defesa e incentivo
da diversidade cultural e da busca por medidas de flexibilização
da propriedade intelectual que favoreçam a socialização
do conhecimento. Na pauta, a luta por políticas públicas
e pela sensibilização da sociedade brasileira
para esse tema.
A
proposta não é reinventar a roda, nem oferecer
soluções "originais" para questões
que já acometem o Brasil há anos. Essa nova articulação
bebe na fonte dos movimentos que já se organizam desde
as décadas de 70 e 80, como o Fórum Nacional pela
Democratização da Comunicação (FNDC)
ou as diversas entidades que articulam as rádios comunitárias,
e daquelas surgidas no bojo das novas tecnologias, como os movimentos
por inclusão digital ou em defesa do software livre.
Então por que uma outra iniciativa?
Em
primeiro lugar, porque só é possível interferir
no quadro absolutamente desigual da comunicação
brasileira se a sociedade civil buscar estratégias conjuntas,
na definição de uma agenda comum entre os diversos
movimentos. É necessário construir uma agenda
própria (não apenas reativa à agenda governamental)
que consiga identificar quais os elementos comuns em meio a
tantas especificidades.
Em
segundo lugar, porque a convergência de mídias
torna cada vez mais anacrônica a fragmentação
das lutas. É preciso aglutinar os setores que lidam com
a luta pela pluralidade e diversidade na mídia, os que
buscam o direito de apropriação das Tecnologias
de Informação e Comunicação, os
que defendem os direitos das rádios comunitárias,
os que se organizam pelo software livre, os que reivindicam
um sistema de propriedade intelectual que favoreça a
socialização do conhecimento e os que batalham
por diversidade cultural. Sempre respeitando as especificidades,
mas sempre reconhecendo os objetivos comuns.
Em
âmbito global
A
Campanha Cris (Communication Rights in the Information Society)
[cujo endereço eletrônico encontra-se na área
de Links Relacionados, ao lado] surgiu internacionalmente a
partir de um conjunto de ONGs e movimentos que já lutavam
pela democratização da Comunicação.
Redes globais e regionais como a APC, a ALAI, a GlobalCN, entidades
como a WACC, a AMARC, a ALER e a Nexus se juntaram para estabelecer
um campo de luta comum. São atores de todo o mundo, dos
cinco continentes, com focos de atuação diversos
dentro do mesmo campo. Como campanha, não há uma
relação de "solidariedade" (e portanto
de superioridade implícita) entre países do Norte
e do Sul. Há o reconhecimento de uma luta comum em torno
de objetivos comuns.
O
gancho para a criação da Campanha Cris foi a proposta
de uma articulação internacional para interferir
nos rumos da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação
(CMSI), realizada pelas Nações Unidas. A CMSI
teve sua primeira fase no final de 2003 e terá seu segundo
momento no final de 2005. A Cúpula, no entanto, acabou
sendo um pretexto para a organização de uma campanha
com objetivos mais amplos e duradouros.
No
Brasil, mais do que uma campanha, ela se configura como uma
articulação de entidades, redes e movimentos que
lutam pela efetivação plena do direito à
comunicação. Já são cerca de 40
grupos (a articulação está aberta a adesões),
com focos de atuação em áreas completamente
distintas. Entre eles estão Intervozes, Centro de Cultura
Luiz Freire, AMARC, GTA, Rits, WACC, Gestos, Sinos, Epcom, Rede
DAWN, Indecs, MNDH-PE, Origem, Observatório da Educação
- Ação Educativa, Informativo Eletrônico
Sete Pontos, Instituto Pensarte, IDCID, Cáritas, Geledés
e Cidade do Conhecimento. Todos unidos pelo objetivo comum da
"democratização da comunicação".
Definindo
o terreno
As
aspas não são à toa. "Democratização
da comunicação" é um conceito muito
amplo se enunciado apenas assim. Em uma definição
mais precisa, a luta da Cris Brasil é pelo direito à
comunicação. Se pudesse ser resumido em uma frase,
o direito à comunicação reconhece o direito
individual e coletivo de que sejamos todos produtores de informação,
para além de espectadores e leitores. Portanto, não
basta ter liberdade de expressão, nem ter acesso a uma
boa gama de fontes de informações, apesar disso
ser parte fundamental do direito à comunicação.
É preciso atuar contra as diferenças econômicas,
sociais e políticas que faz tão poucos terem condições
de ser produtores de informação.
A
noção de liberdade de expressão está
englobada, a noção de direito à informação
está englobada, mas a bidirecionalidade fica assim reforçada.
Essa noção traz o debate de que a comunicação,
em todos os tipos de mídia, não é um espaço
simplesmente de "mediadores que traduzem a realidade",
mas de realização do conflito e de disputa de
hegemonia na sociedade. Portanto, um espaço não
apenas de especialistas.
Também
é a partir da noção de direito que o papel
do Estado no debate fica mais claro. Se há a concepção
de direito, é preciso que haja uma malha de instituições
e regulações que possam garanti-lo. Sem essa noção,
podemos ficar num processo de regulação puramente
liberal, em que as leis de democratização funcionam
como "anti-truste", como é o caso do limite
de audiência potencial nos EUA.
No
Brasil, no entanto, nem mesmo do ponto de vista liberal há
leis que garantam uma "concorrência equilibrada".
O país pode discutir porque uma fábrica de chocolate
não pode monopolizar o mercado. Mas ainda não
se permite debater porque uma mesma emissora pode alcançar
99% dos lares brasileiros com uma programação
produzida quase que inteiramente no Rio de Janeiro e São
Paulo e sem ter que dar satisfação a ninguém.
Ainda
assim, a garantia de equilíbrio seria um olhar limitado,
ainda tomando a comunicação como um negócio
e a informação como mercadoria. Se entendermos
que a comunicação é um direito, a referência
é deslocada. Nessa linha, enquanto há impeditivos
(sejam eles sociais, políticos, econômicos ou até
técnicos) para a realização plena desse
direito, é preciso uma postura ativa do Estado de promoção
da pluralidade, da diversidade e da luta constante pela superação
dessas desigualdades.
Prioridades
e foco
A
Cris Brasil acaba de definir o seu plano estratégico,
e como uma das principais prioridades veio à tona a necessidade
de se batalhar pela constituição de um sistema
público de comunicação. A constituição
prevê a complementariedade dos sistemas privado, estatal
e público, mas a definição do que seria
esse sistema público nunca foi regulamentada.
Ao
se falar de sistema público, não se está
pensando apenas em mídias públicas fortes, mas
na idéia de apropriação da mídia
pelo público. Isso é mais amplo do que um sistema
público literalmente, e une políticas de aplicação
macro com políticas locais. Essa concepção
busca inverter o paradigma que está em mente ao pensarmos
nos meios de comunicação. Por vezes parece natural
que TVs e rádios tenham donos e que esses meios sejam
usados por eles da maneira como bem entendem, para fins comerciais.
Isso é justamente o que não deveria ser normal.
Assim como não deveria ser normal a idéia de emissoras
públicas que estão, na verdade, na mão
dos governos estaduais, que as colocam a seu serviço.
O Brasil, que passou tanto tempo sob censura estatal, encontra-se
hoje sob uma censura privada.
A
constituição de um sistema público, entendido
como um conjunto de mecanismos que favorecem a apropriação
da mídia pelo público, reconhece a necessidade
de sair tanto do controle estatal como do controle privado.
E favorece a reorganização da mídia no
Brasil sob outras referências, incentivando e garantindo
a promoção da diversidade cultural, outra prioridade
destacada para o ano de 2005.
A
busca pela diversidade significa a busca pela igualdade de condições
no tratamento de questões lingüísticas, regionais,
étnico-raciais, de gênero e de opção
sexual, entre outras. A diversidade só se realiza plenamente
com a prática da comunicação por todos
os diferentes setores sociais. Isso significa que não
basta, por exemplo, o negro aparecer na TV numa proporção
e tratamento equânime, mas é preciso ter negros
produzindo TV. É preciso ter o povo produzindo seus próprios
programas. Ter cada canto no país com condição
de produzir sua própria mídia.
Além
disso, essa idéia de diversidade não se dá
apenas no plano nacional, mas também quando se define,
por exemplo, em que condições o cinema nacional
compete com Hollywood para exibir suas produções
em seu próprio país. Em 2005, haverá uma
convenção da Unesco para tratar exatamente do
tema da diversidade cultural nesse plano internacional, em que
alguns países tentam bancar as comunicações
como "serviços audiovisuais", portanto negociáveis
como outros serviços, e outros buscam medidas de proteção
para a produção local.
Socialização
do conhecimento
Outros
temas também merecem destaque, como a discussão
sobre direitos de autor. As leis de propriedade intelectual,
da maneira como estão definidas, protegem mais quem comercializa
a obra do que o próprio autor. De um lado, as grandes
empresas que lucram em cima da exploração comercial
de determinada obra; de outro, o mercado da pirataria, que nada
mais é do que outra exploração privada,
sem autorização, também com fins comerciais.
Por fora dessa falsa dicotomia, exemplos da comunidade do software
livre e do Creative Commons evidenciam que há soluções
que estimulam a socialização do conhecimento,
em lugar de sua apropriação privada.
É
também nesse espírito que aparece a luta pela
apropriação social das TICs. Se a noção
de inclusão digital fortalece a visão de que é
preciso incluir os que estão de fora, a idéia
de apropriação social é justamente a da
potencialização de políticas públicas
para que a população tome as tecnologias para
si, produzindo conteúdo próprio e fortalecendo
o protagonismo e o uso autônomo das TICs. Com a convergência
tecnológica, essa deve ser a tônica inclusive para
pensar novos processos de digitalização, como
a TV digital.
Dado
o contexto, a definição, a conceituação,
a pauta e as prioridades, vale ainda um esclarecimento. A manutenção
do nome Cris na articulação brasileira não
se dá sem motivo. Boa parte das questões que hoje
afetam a democratização da comunicação
são decididas e executadas no plano internacional. Passam
por fóruns como a Organização Mundial do
Comércio, a Unesco e a UIT (União Internacional
de Telecomunicações) e, em muitos casos chegam,
a sobrepor as políticas nacionais. Portanto, se a pauta
é internacional, assim também deve ser a luta.
E nesse sentido é extremamente importante referenciar-se
num movimento global de resistência e luta pelo direito
à comunicação.
A
interlocução com outras seções nacionais
da campanha nos faz compreender que os obstáculos à
realização do direito à comunicação
na Itália, na Colômbia, nas Filipinas, no Quênia,
em Bangladesh e no Brasil têm muito em comum. Cris, ao
contrário de um estrangeirismo, é a marca internacionalista
da iniciativa.
(*)
Integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação
Social, uma das entidades que integram a Cris Brasil.
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