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Informação:
Observatório
da Imprensa - 08/03/2005
Luiz
Weis
Na
sexta-feira (4/3), a Folha de S.Paulo publicou uma carta do
seu ex-secretário de Redação, o porta-voz
da presidência da República, André Singer.
Nela, além de desmentir que tenha comemorado a saída
do jornalista Ricardo Kotscho do governo, Singer escreveu:
"Também
acredito que Fábio Kerche, titular da Secretaria
de Imprensa e Divulgação, reúna
todas as qualificações necessárias
para dar continuidade ao trabalho desenvolvido por Kotscho". |
Nesse
mesmo dia, no que o Planalto chamou de "ajuste organizacional",
Singer assumiu o lugar de Kerche, sem deixar de ser porta-voz.
Dos
maiores jornais brasileiros, O Globo foi o único a ligar
o nome à p’ssoa, na provocativa (embora imprecisa)
chamada de primeira página: "Singer nega de manhã
e assume Imprensa à tarde".
Pêsames
para a Folha por ter passado batido pela estranha carta ao noticiar
os novos poderes do porta-voz. Pode ter sido distração,
mas parece ter sido proteção. Sendo o jornal o
que é, não poderá culpar o leitor que imaginar
que, fosse outro o missivista, a "coincidência"
não deixaria de ser apontada – e destacada –,
como fez O Globo.
Pois
é improvável, para dizer o menos, que Singer não
soubesse do defenestramento iminente de Kerche, quando deu a
entender, ao elogiá-lo, de que ele estava mais firme
do que uma rocha como substituto de Kotscho.
A
Folha informou, a propósito, que Kerche "não
participou dos trâmites da reformulação
da área nem da reunião de ontem [4/3], na qual
Lula tomou conhecimento do estudo" [que pediu para Gushiken
e Singer fazerem, depois da saída de Kotscho, em novembro].
A
colunista Tereza Cruvinel, do Globo, foi mais específica:
"Fábio
Kerche ficou sabendo quase ao mesmo tempo que os jornalistas
que cobrem o Planalto das mudanças na estrutura
de comunicação anunciadas pelo ministro
[de Comunicação do Governo] Gushiken". |
Partido
da treva
Pena
que não se perguntou a Singer o que teria a dizer sobre
o seu elogio epistolar – e gratuito, como logo se viu
– ao ainda secretário Kerche, a quem o ministro
comunicou a degola sumariamente minutos antes que se consumasse.
A
resposta talvez desse uma pista dos bastidores da decisão,
trocando em miúdos o que o ministro Luiz Gushiken –
apontado como o mentor e principal beneficiário da mudança
– entende por "racionalizar e simplificar as estruturas
de assessoramento de imprensa da Presidência, além
de assegurar mais agilidade nos processos diários de
atendimento aos profissionais da imprensa", como o citou
O Estado de S.Paulo.
No
governo passado, as coisas eram separadas. O porta-voz (Sergio
Amaral) portavozeava, a assessora Ana Tavares cuidava dos "processos
diários de atendimento aos profissionais da imprensa"
– e o arranjo funcionava satisfatoriamente.
Agora,
a ver. Primeiro se a centralização efetivamente
resultou do fato de o presidente Lula ter concluído que
"precisa melhorar a relação do governo com
a imprensa", conforme a versão otimista da Folha.
Segundo,
se esse "melhorar" significa o governo abrir-se à
imprensa – o que nunca fez nesses seus 25 meses, bem antes
ao contrário. A começar do próprio Lula,
avesso a entrevistas como nenhum dos seus antecessores, muito
menos o último, desde os generais-presidentes da ditadura.
E não será decerto por achar que o silêncio
é de ouro.
Terceiro,
a ver se Singer quer – e é a pessoa certa para
conseguir – que o presidente mude de atitude. O retrospecto
não anima. Não só porque o Singer é
"glacial" e Gushiken é "fóbico
a jornalistas", nas preocupadas palavras de Tereza Cruvinel.
Mas
porque, significativamente, no momento mais crítico da
relação deste governo com a imprensa, o caso Larry
Rohter, o porta-voz tomou o partido da treva, defendendo o equivalente
à expulsão do correspondente do New York Times.
O desastre só não se consumou, afinal, graças
ao bom senso do ministro da Justiça, Márcio Thomaz
Bastos. (O então secretário Kotscho também
saiu do episódio de cara limpa.)
Maus
modos
E
o retrospecto não anima principalmente porque não
se vislumbra no comportamento do presidente Lula qualquer sinal
de aggiornamento. Os jornalistas continuam "isolados em
cercadinhos durante cerimônias oficiais, para impedir
que se aproximem do presidente", escreveu Tânia Monteiro
no Estado de domingo, fazendo um balanço do exasperante
dia-a-dia do pessoal credenciado no Planalto.
A
reportagem compartiha com o público o que as redações
estão fartas de saber – que, da imprensa, Lula
quer mais é distância. A tal ponto que, "para
fugir do cerceamento", revela a matéria, "os
jornalistas têm um truque: escondem a credencial de imprensa
e se misturam ao povo para chegar mais perto de Lula".
É de passar vergonha.
E
quando conseguem que ele responda às suas perguntas,
correm o risco de levar um tranco. Em agosto do ano passado,
na República Dominicana, ouviram dos lábios presidenciais:
"Vocês são um bando de covardes mesmo, hein?
Não tiveram coragem de defender o Conselho Nacional de
Jornalistas [sic]".
Na
semana passada, no Uruguai, nova traulitada. Perguntado sobre
as suas declarações no Espírito Santo a
respeito de "corrupção" no governo Fernando
Henrique – o que levou a oposição representar
contra ele na Câmara dos Deputados e no Supremo Tribunal
Federal –, Lula devolveu com maus modos: "Um dia
vou perguntar à imprensa o que ela acha da repercussão
que foi dada ao assunto".
Seria
o caso de saber o que Singer achou dessa reação.
E, sobretudo, se ele está a fim de fazer o presidente
se compenetrar de que, nas sociedades democráticas, mandatários
não fazem perguntas à imprensa. Respondem às
dela.
[Texto
fechado às 18h25 de 07/03/05]
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