Destaques

O ESTADO DA MÍDIA - Revistas pagam o preço da futilidade.


 

Informação: Observatório da Imprensa - 29/03/2005

Luciano Martins Costa (*)

Além dos jornais impressos, também para as revistas semanais o cenário não se mostra auspicioso. Depois de sofrer forte concorrência de títulos emergentes, as principais revistas dos Estados Unidos – US News & World Report, Times e Newsweek – enfrentam o desafio de manter as grandes tiragens que lhes garantiram durante décadas certa primazia no mercado publicitário.

Mas a julgar pela pesquisa The State of the News Media 2005, do Projeto Para a Excelência em Jornalismo, a estratégia de buscar assuntos genéricos e mais leves não está dando resultado. De um lado, ao aligeirar o noticiário, as revistas acabam perdendo os leitores que buscam conteúdos mais densos, e, por outro lado, ao alargar a temática, enfrentam uma concorrência mais ampla, como a das revistas especializadas e as publicações de entretenimento.

Para os pesquisadores, as revistas estão repetindo o modelo da televisão aberta, um meio que tenta cobrir todo tipo de acontecimento e acaba não oferecendo consistência em nenhum deles. "Em outras palavras, se alguém está procurando fofocas sobre celebridades, ou notícias sobre saúde ou ciência, qual a especialidade que as revistas oferecem?", questionam os analistas.

A queda nas vendas de revistas em bancas revela que essa variedade de temas, tratados sem profundidade, não está mais trazendo leitores para as semanais. Essa busca pelo que está "na moda" talvez explique a coincidência de duas semanas atrás, quando as principais revistas semanais de informações do Brasil escolheram o escritor Paulo Coelho como tema de capa, com matérias anódinas e desprovidas de criatividade.

Rejeição da moda

Como no relatório de 2004, há indicações de que existe no mercado americano de mídia uma demanda crescente por uma cobertura noticiosa mais séria e por uma imprensa de elite, isto é, destinada a públicos mais exigentes, que cruze as várias plataformas de mídia – TV a cabo, jornais, revistas e internet. Títulos como The Economist e The New Yorker parecem ter entendido essa tendência e estão anunciando seus conteúdos em outras mídias de elite.

Uma grande questão para essa nova mídia de prestígio é se o seu público será grande o bastante para abrigar mais títulos. Outra questão, especialmente relevante para as revistas semanais, é saber se esse público de elite estaria interessado na revitalização dos títulos já estabelecidos, ou se tenderiam a migrar para novas publicações declaradamente voltadas para conteúdo mais denso e exigente.

Em resumo, o público que forma tendência e não simplesmente compra um produto porque está "na moda" rejeita a mediocridade que lhe é oferecida pelos títulos estabelecidos, mas ninguém garante que esse público voltaria a ler revistas se elas se dedicassem a um jornalismo mais sério.

TV pela internet

A televisão aberta segue sendo um meio de ampla audiência, mas sua sustentabilidade corre risco na medida em que os principais ícones do jornalismo televisivo se aposentam e as novas caras não conseguem obter a mesma empatia do público.

Bordões e chamadas inventadas pelos departamentos de produção não conseguem o mesmo efeito e, no longo prazo, a perda de credibilidade tende a reduzir o valor do telejornalismo para os anunciantes no confronto com outros meios. Como a massa de telespectadores é imensa, a decadência demora a ser diagnosticada, mas há uma tendência a uma redução na percepção de valor dos anúncios, o que pode se tornar crítico em função dos altos custos de produção.

No caso da TV a cabo, há dois desafios. O primeiro é necessidade de crescimento, muito improvável, uma vez que o mercado americano está praticamente saturado e não há boas perspectivas de agregar grande número de novos domicílios às redes de cabos.

O segundo desafio é formado pela percepção de que a TV a cabo representa na verdade uma mídia de transição entre a TV aberta e a internet. De fato, a Microsoft já anuncia para este ano a liberação do sistema padrão para compactação de vídeo, que permitirá a transmissão de imagens de TV por internet em banda larga. O sistema, chamado de Broadband TV, está pronto, já é utilizado no Brasil em cerca de 80 cinemas e pode ser adaptado para uso doméstico. O alto custo da extensão dos cabos fecha a equação do setor.

O valor da seriedade

Quanto à internet, vista como o meio que origina a ruptura e cria novos paradigmas nas relações entre o público e o jornalismo, o debate se assenta sobre a ressignificação do jornalismo.

A partir de que ponto um blog se transforma em imprensa? Qual será o momento em que poderemos considerar o jornalismo online maduro, independente, desvinculado de um dos meios impressos ou televisivos tradicionais?

Uma das descobertas interessantes do estudo "The State of the News Media 2005" nos Estados Unidos é que, ao contrário da compreensão geral, a maioria dos sites de informação oferece aos seus leitores notícias de segunda mão. Exceto pelas notas urgentes, geralmente colocadas nas seções de "últimas notícias", a maioria é originada nos jornais, ou na TV, ou atualizada a partir de fatos já conhecidos de outras fontes. Em 2004, subiu de 42% para 58% a proporção de notícias simplesmente transplantadas para a internet sem qualquer trabalho de edição, em relação a 2003.

Isso significa, segundo as conclusões dos analistas da pesquisa, que os cortes nas redações afetam também as versões online da imprensa, e que o desenvolvimento de novos softwares tem eliminado postos de trabalho nas redações dos meios eletrônicos. Há hoje menos jornalistas trabalhando nos jornais online americanos do que no fim dos anos 1990.

Nos sites não vinculados a jornais, como Yahoo e America Online, a proporção de matérias próprias é mínima, e o conteúdo é, na prática, totalmente reproduzido de outras fontes. Ainda assim, esses concorrentes abocanham grandes fatias do público.

Uma das conclusões do estudo indica que, mesmo para um meio que vem montado numa tecnologia avassaladora, seriedade na apuração e no trato do conteúdo ainda são condições essenciais para a conquista de uma audiência fiel, qualificada e determinante para o sucesso do negócio.

(*) Jornalista

 

O ESTADO DA MÍDIA
Alerta vermelho para veículos de papel

Informação: Observatório da Imprensa - 29/03/2005

Carlos Castilho (*)

A grande imprensa pode estar perdendo uma das últimas chances de dar a volta por cima na crise que atinge o setor desde os anos 1990, segundo um alerta feito pelos autores do relatório The State of the News Media 2005 (O estado da mídia noticiosa 2005).

O documento divulgado em meados de março nos Estados Unidos qualifica como "ácido" o ambiente no qual as grandes redes de jornais, rádios e TV terão que buscar uma solução para a continuada perda de público, de credibilidade e de faturamento – a pior de toda a história da imprensa norte-americana e mundial.

O adjetivo "ácido" foi usado para definir o ambiente em que a maioria dos executivos de jornais, revistas e redes de televisão dos Estados Unidos está sendo criticada por uma série de decisões equivocadas em setores como atualização tecnológica, enxugamento das redações, política editorial e resistência em admitir uma maior participação do público no processo informativo.

Toda a análise e estatísticas mencionadas no documento referem-se à realidade da mídia dos Estados Unidos. Mas isto está longe de ser um alívio para a imprensa brasileira, porque seguimos basicamente o modelo norte-americano em matéria de estratégias corporativas e políticas editoriais. Daí a necessidade de uma reflexão sobre as advertências e conclusões do The State of the News Media 2005.

Orçamentos elásticos

Esta é a segunda edição do ambicioso levantamento anual do estado da imprensa norte-americana organizado pelo Projeto para a Excelência em Jornalismo, vinculado ao Comitê dos Jornalistas Preocupados (Committe of Concerned Journalists), com patrocínio da Universidade de Columbia, em Nova York, e do Pew Charitable Trust, uma fundação financiadora de pesquisas na área do jornalismo.

A parte mais polêmica do relatório é o capítulo intitulado "Cinco Tendências Predominantes" onde são listadas as seguintes preocupações:

1. Diversificação das políticas editoriais com duas linhas predominantes: o jornalismo online voltado cada vez mais para a participação do leitor e para a temática local, enquanto a imprensa convencional está cada vez mais voltada para o jornalismo superficial, pouco preciso e ligeiro. O jornalismo de verificação, preocupado com a veracidade e credibilidade está sendo substituído pelo jornalismo de afirmação, no qual os profissionais substituem a pesquisa pela opinião pessoal e pelo sensacionalismo.

2. O descrédito crescente na mídia reduz a ideologização do noticiário nos principais jornais e cadeias de televisão. As exceções são os talk shows radiofônicos e o noticiário do canal fechado Fox News, que apostaram no conservadorismo como forma de manter audiência. No relatório 2004 do Estado da Mídia havia uma previsão de aprofundamento da repartição ideológica dentro do público norte-americano.

3. O surgimento de um novo tipo de público, mais exigente e mais participativo, está obrigando os jornalistas a uma profunda revisão dos seus valores e rotinas na profissão. O público começa a cobrar transparência total dos profissionais e dos veículos, mais do que eficiência, rapidez e objetividade. É a resposta de quem perdeu a confiança na imprensa.

4. Apesar das estatísticas indicarem um crescimento rápido da audiência via internet, a grande imprensa continua demasiado cautelosa nos investimentos na informação online. Esta opção é determinada pela insegurança sobre um rápido retorno do capital aplicado, mas isto acaba deixando o terreno livre para empresas novas ocuparem espaços estratégicos na web, o que aumentará inevitavelmente as dificuldades da imprensa tradicional para sair da crise.

5. O noticiário na televisão aberta convencional está entrando num período de grande instabilidade por conta da aposentadoria de nomes famosos e pela continuada queda de audiência por conta da concorrência dos canais a cabo e da internet. O relatório destaca que, no caso norte-americano, a escolha parece ser entre um noticiário de qualidade baseado na contextualização das informações, o que pressupõe orçamentos elásticos, ou a transformação dos telejornais em programas leves, com entrevistas e transmissões ao vivo. O documento diz que 2006 será um ano crítico para o telejornalismo dos EUA.

Novo leitor

As estatísticas recolhidas pelos pesquisadores do Projeto para a Excelência em Jornalismo confirmam a queda, pelo décimo segundo ano consecutivo, da credibilidade do público nas notícias publicadas pela grande imprensa norte-americana. O índice de credibilidade caiu de 72% para magros 49% entre 1992 e 2004. No mesmo período, o número de pessoas que compram jornais diminuiu de 75% para 60%, enquanto o criticismo do público em relação aos jornais aumentou. Em 1992, apenas 13% dos leitores achavam que os jornais encobriam seus próprios erros – índice que disparou para 67% no ano passado.

As dificuldades que atingem a grande imprensa norte-americana contrastam com os dados otimistas que o relatório apontou em três segmentos da comunicação: aumentou o público que visita sites de notícias na internet (o Google News já está entre as cinco fontes de notícias mais procuradas; e o público dos blogs cresceu 58% e atinge 36 milhões de pessoas só nos EUA); cresceu o número de jornais voltados para comunidades étnicas (em 2004 foram criados 14 novos jornais hispânicos nos EUA) e, pelo segundo ano consecutivo, foi registrado um crescimento na quantidade e faturamento de publicações alternativas.

O relatório de mais de 500 páginas analisa a performance de oito segmentos da imprensa norte-americana, que são examinados sob seis perspectivas diferentes: conteúdo do material publicado, comportamento da audiência ou público leitor, situação econômica e financeira, posicionamento dos proprietários, novos investimentos e reações do público em geral. Há também um capítulo dedicado às percepções dos jornalistas em relação aos veículos de comunicação.

Tom Rosenstiel, coordenador geral do relatório, diz nas conclusões que a "grande imprensa norte-americana parece não compreender que está surgindo um novo tipo de leitor, baseado numa nova percepção de cidadania", na qual o público passa a encarar a imprensa como UM, e não mais O, componente do processo de informação.

(*) Jornalista e pesquisador de mídia online.