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Informação:
Observatório
da Imprensa - 15/03/2005
Alfredo
Vizeu (*)
A
mídia hoje, em particular a televisão, é
a grande "praça pública" do país.
É a nossa "ágora eletrônica".
A diferença é que na Grécia alguém
era considerado cidadão não apenas quando sentava
na "ágora", praça de discussões,
mas sim quando tomava a palavra e apresentava seu projeto de
como pensava que a cidade devesse ser organizada e governada.
Essa é a verdadeira participação.
No
campo midiático não é assim. No entanto,
ele ocupa um lugar central na sociedade. Dá visibilidade
aos vários campos de conhecimento: a economia, a política
e a cultura. É por intermédio da imprensa que
ficamos sabendo das atividades do presidente da República,
do Congresso Nacional, dos movimentos sociais e do cotidiano
do Brasil. Dentro desse contexto, interessa-me, particularmente,
o telejornalismo.
Considero
que a mídia vem construindo um forte campo de influência
na sociedade desde a década de 1980. A Nova República
– o episódio Tancredo Neves – é paradigmático
nesse sentido. Eleito em janeiro de 1985, foi internado antes
de tomar posse e enfrentou lenta agonia até a sua morte.
Durante esse processo temia-se que o ex-presidente José
Sarney não assumisse. Nos bastidores a volta dos militares
era uma ameaça.
No
entanto, estranha ironia, comunicada a morte de Tancredo Neves,
as empresas de comunicação que contribuíram
decisivamente para o Golpe de 64 deram o aval para a transição
democrática com Sarney, insurgindo-se contra qualquer
perspectiva golpista. Começa aí, no nosso entendimento,
o processo de consolidação desse campo no Brasil.
Logo
depois temos as eleições diretas. A mídia
teve um papel importante na eleição do ex-presidente
Fernando Collor. O "caçador de marajás"
de Alagoas foi alçado como um forte candidato à
presidência da República diante da ameaça
do "sapo barbudo", o atual presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva. Outra ironia, a mesma mídia
que apoiou Collor também contribuiu decisivamente para
seu impeachment.
Balcão
de negócios
A
força extraordinária da mídia no Brasil
concretiza-se com a eleição de Lula. O presidente
da República é o "presidente empossado pela
mídia". Logo após as eleições,
Lula "rende-se" ao campo midiático e, mesmo
antes de ser oficialmente assumir a presidência, dá
uma entrevista ao Fantástico como "presidente empossado",
programa líder de audiência da Rede Globo aos domingos.
Mas a "cerimônia de posse de Lula" pelo campo
midiático não pára aí. Na segunda-feira,
27 de outubro de 2002, o novo presidente senta na bancada do
Jornal Nacional para conversar com o país.
Esses
exemplos mostram a força da mídia, em particular
do telejornalismo. É preciso refletir. No entanto, antes
da reflexão, acrescentemos aos exemplos mais um, a eleição
do deputado Severino Cavalcanti para a presidência da
Câmara dos Deputados.
Antes
das eleições o deputado não era considerado
nem o que se denomina de "azarão" – aquele
que tem poucas chances e corre por fora numa disputa. Eleito,
passou a receber um grande espaço na mídia –
que vai desde de um olhar preconceituoso por ser um nordestino
até a crítica às suas posições
conservadoras e corporativas, como propor um aumento absurdo
para deputados.
Não
pretendo discutir a postura política do deputado. Tenho
o maior respeito por Severino Cavalcanti. Mas, por uma questão
de princípio, considero importante deixar claro que não
compartilho do seu ideário político amplamente
divulgado por jornais, revistas, rádios e emissoras de
televisão de todo o país. Minha preocupação
é chamar a atenção para as relações
entre o telejornalismo e a sociedade. Para o dever do jornalismo
com a verdade. É de fundamental importância que
as empresas de comunicação e os jornalistas compreendam
que, de certa forma, são os "olhos da Nação".
Lembrando
Ruy Barbosa, num extraordinário livro reeditado recentemente,
A Imprensa e o Dever da Verdade:
"A
imprensa é a vista da Nação. Por ela a
Nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao
longe, enxerga o que lhe malfazem, devassa o que ocultam e tramam,
colhe o que lhe sonegam, ou roubam, percebe onde lhe alvejam,
ou nodoam, mede o que lhe cerceiam, ou destroem, vela pelo que
lhe interessa, e se acautela do que ameaça".
A
imprensa, em particular a televisiva, que é assistida
por milhões de pessoas neste país que praticamente
não têm acesso a nenhum outro tipo de informação,
deve investigar e denunciar, entre outros fatos, aqueles que
atentam contra o patrimônio público. O jornalismo
tem como obrigação inalienável combater
a corrupção e o clientelismo na política.
Este país não é um balcão de negócios.
(*)
Jornalista e professor do Departamento de Comunicação
Social da UFPE
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