| Informação:
Observatório
da Imprensa - 05/04/2005
Ulisses
Capozzoli
O
teatro de espetacularização da morte encenado
em escala planetária envolvendo o caso Terri Schiavo
deve alcançar índices astronômicos com a
morte de João Paulo II, mesmo que seu dramático
sofrimento físico não sugerisse alternativas.
Psicanalistas,
entre outros, devem estar perguntando aos seus botões
sobre os desdobramentos dessa novela de absurdos numa sociedade
que não se conforma com a idéia de um fim, por
mais complexo que possa parecer.
Assim,
se a cobertura da morte do papa vier a ser utilizada como tema
de mestrado numa dessas escolas de jornalismo criadas para explorar
o ensino pago, fica a sugestão ao candidato de avaliar
o emocionalismo da cobertura como índice de aferição
da atualidade da mídia.
Evidentemente
que os indicadores, ainda eram preliminares, na noite do domingo
(3/4), quando este texto estava sendo produzido. Mas sugestivo
do que está por vir. Especialmente se o veículo
escolhido for O Estado de S.Paulo. Nas conclusões que
devem apresentar um trabalho acadêmico, mesmo numa dissertação
de mestrado, nosso hipotético candidato certamente irá
concluir que retornamos à Idade Média.
Se
um dos grandes jornais do Brasil rende-se ao emocionalismo mais
estreito, sem condições de oferecer aos seus leitores
uma interpretação crítica isenta, é
o caso de se pensar sobre o que está ocorrendo com publicações
menores. E especialmente a que distância esses veículos
estão de seu próprio fim. A menos que estejamos
dispostos a acreditar que o mundo começa a andar para
trás, como eventualmente fazem os caranguejos.
O
tom, no caso de O Estado de S. Paulo, foi dado já na
edição do sábado, com a manchete construída
entre aspas, sobre uma frase do cardeal Camillo Ruini, vigário-geral
de Roma: "Ele [o papa] já vê e toca o Senhor".
Pode-se
perguntar: de que pretenso poder desfrutaria o vigário-geral
de Roma para fazer uma afirmação dessa natureza?
Alguém
pode responder que ao vigário-geral de Roma – mesmo
com toda sua distinção e poder político-religioso
– não é dado o privilégio de observar
a cena a que se refere e, por isso mesmo, o que disse não
passa de uma frase de efeito, "um recurso alegórico",
para sermos indulgentes.
Ainda
assim, uma dose dessas de alegoria não sustenta uma manchete,
como uma coluna de barro não suporta uma ponte.
Proteção
elementar
A
Folha de S. Paulo, para citar o concorrente direto do Estadão
e uma eventual referência para nosso hipotético
mestrando numa investigação de jornalismo comparado,
foi comedida e precisa, como um jornal com pretensão
de ser levado a sério deve ser. Em lugar da visão
do céu exposta pelo vigário de Roma, preferiu
uma manchete objetiva e clara: "João Paulo 2º
piora e perde a consciência".
Mas
o tratamento da edição do sábado foi só
uma degustação para o que o Estadão ofereceu
aos leitores do domingo, ao longo de um suplemento de 24 páginas,
anunciado por outra manchete redundante: "Morre João
Paulo II, após longo martírio".
Que
o papa era vítima de enorme sofrimento foi o fato de
melhor conhecimento neste planeta nas últimas semanas.
Daí o dispensável "após longo martírio",
a menos que se leve em conta a intenção melodramática
da manchete, endossada por uma outra citação,
agora do arcebispo Leonardo Sandri: "Nosso santo padre
voltou para a casa do Pai".
A
conclusão a que se chega, segundo a edição
dominical do Estadão, é que as autoridades eclesiásticas
romanas têm trânsito direto para os céus,
o que aprovaria a dissertação de nosso mestrando
em jornalismo e abriria um espaço novo para a teologia,
considerando que, de Roma, pode-se observar, a olho nu, os movimentos
do criador.
Nosso
interlocutor imaginário pode rebater que essa é
uma crítica excessiva, mesmo com as manchetes de páginas
interiores, caso da H 4: "Brasileiros estão órfãos",
afirma d. Geraldo Majella".
Por
que os brasileiros seriam os únicos "órfãos"
da cristandade com o desaparecimento do papa? Ou a verdade é
que os brasileiros sempre foram órfãos dos cuidados
de uma elite arcaica e incapaz de promover e sustentar um mínimo
de bem-estar social?
Na
página H 9 a manchete é: "Missão a
cumprir. E ele a cumpriu". Na realidade, não é
isso o que diz o texto da página H 18, reproduzido da
publicação alemã Der Spiegel e de autoria
do teólogo católico dissidente Hans Küng,
para quem o conservadorismo de João Paulo II criou uma
série de problemas para a Igreja e um desafio enorme
para seu sucessor.
Como
estamos no estágio da espetacularização
mais exacerbada, ainda não é o momento para o
recurso da análise mais lúcida, mesmo que algumas
vozes já sejam audíveis sugerindo um olhar mais
crítico e consistente.
A
lista dos problemas deixada pelo papa morto é longa para
nos apegarmos a preocupações mundanas e não
a questões teológicas, o que exigiria opiniões
de especialistas. Vai da rejeição à pílula
e à camisinha – neste segundo caso como proteção
elementar ao risco de contração do vírus
da Aids – à reafirmação de uma pretensa
superioridade da fé católica frente a outras religiões,
insistência do celibato para os homens e a recusa em conceder
o sacerdócio às mulheres. Ou de reafirmar que
elas não têm direito ao aborto mesmo quando carregam
uma gravidez que resultou de estupro.
Concepções
heliocêntricas
Talvez
o papa, independente de seu carisma, há muito não
vivesse mais neste mundo. Conseqüências práticas
de posicionamentos em contradição com as necessidades
deste mundo custaram e ainda custarão sofrimentos desnecessários
a milhões de pessoas, por muitas e diferentes razões.
O que significa dizer que o mundo é vasto e complexo
demais para ser orientado a partir de normas tão restritivas.
Se
não tivéssemos precedentes históricos ainda
seria possível alguma aceitação, mas eles
existem precedentes e não podem ser desconsiderados.
Quando
observou manchas na superfície do Sol, movimento de "estrelas"
[satélites galileanos] em torno de Júpiter, viu
e estimou a altura das montanhas na Lua e localizou uma infinidade
de estrelas no que antes parecia apenas um borrão de
luz no céu, Galileu Galilei irritou profundamente a Igreja.
Por conta disso foi ameaçado de ser posto a ferros (seguir
acorrentado para Roma) por um papa de quem havia sido próximo
e em quem ainda enxergava um amigo.
E
aqui entramos no conteúdo de outra das páginas
do suplemento do Estado de S.Paulo, a H 15, com o título
principal "Ciência e fé, a eterna batalha",
para um texto assinado por Gilles Lapouge, veterano correspondente
do jornal em Paris.
Lapouge
dá mais de uma escorregada e mostra que definitivamente
não é um pescador desta praia, ainda que tenha
se mantido acima do que escreveu em outra página Antonio
Marchionni, professor da PUC-SP e autor do controvertido Uma
Esmeralda para o Brasil, vastíssima coleção
de equívocos conservadores sobre a realidade brasileira.
O
escrito de Marchionni é uma dessas evidências da
incapacidade de a Igreja Católica conciliar-se com a
realidade contemporânea e, assim, não tornar ainda
mais aguda uma crise que já não é pequena
envolvendo, entre outros pontos, a explosão demográfica.
Quanto
a Lapouge, como muitos outros escritos laudatórios a
uma pretensa renovação feita por João Paulo
II, refere-se aos "arrependimentos" expressados pelo
papa em relação a Nicolau Copérnico (1473-1543),
polonês como ele e Galileu, incluindo o reconhecimento
do Darwinismo.
De
acordo com Lapouge, Copérnico teria lançado por
terra a "teoria geocêntrica universalmente aceita
do grego Ptolomeu". Aqui temos dois erros produzidos por
uma única cajadada. O "universalmente aceito",
na realidade, vale apenas para um ocidente teológico
mergulhado numa noite que durou 15 séculos, de onde até
a estrutura dos correios, criada há 3 mil anos no Egito,
desapareceu. As sociedades humanas ficaram isoladas, entregues
aos piores fantasmas, alimentadas por um obscurantismo profundo,
e queimar "bruxas" e "hereges" transformou-se
em prática odiosamente aceita como forma de proteção
à fé.
O
papa pediu perdão a Copérnico (a obra saiu quando
ele estava morrendo e foi vetada pela igreja posteriormente)
e Galileu em nome dos erros "de filhos e filhas da Igreja",
mas nunca por erros "dos santos padres" ou da "própria
Igreja", como enfatiza Hans Küng.
Quanto
ao geocentrismo, ao contrário do que escreve Lapouge,
foi uma cosmologia gestada por Aristóteles (384 a.C.-
322 a.C) e não por Ptolomeu (90/100 d.C.-170 d.C.), após
concepções heliocêntricas como as formuladas
por um contemporâneo de Aristóteles, Aristarco
de Samos ( (310 a.C-230 a.C).
"Tudo
pode, tudo sabe"
É
preciso dizer que o papa morto não pronunciou em momento
algum o nome de Giordano Bruno, queimado vivo em 1600, acusado
de heresia, entre outras razões por pregar que a vida
não se restringe à Terra, mas estende-se a uma
infinidade de mundos orbitando inúmeros outros sóis.
Além
disso, ao reabilitar Copérnico e Galileu o papa apenas
atualizou um pouco o anacronismo da Igreja após a detecção,
entre outras, da radiação cósmica de fundo,
uma espécie de fóssil em microondas, da explosão
que criou o Universo, segundo postula a cosmologia do Big Bang.
O
desafio, aqui, não está numa discussão
simplista entre crentes e ateus quanto a um entendimento sobre
a origem do Universo, mas na capacidade de se conceber uma instância
de criação cuja beleza sensibiliza a inteligência
e não a fé compulsória – discussão
que não deixa de ser sintomática, neste início
de terceiro milênio.
Lapouge
escreve que ao reconhecer o Darwinismo o papa refutou a idéia
de que a Bíblia deva ser lida literalmente, apagando
a versão tradicional de Adão e Eva expulsos do
Paraíso.
A
verdade é que a Bíblia, como qualquer livro considerado
sagrado, e mesmo os clássicos da literatura, a exemplo
das obras de Homero, são expressos em linguagem alegórica,
o que explica sua resistência ao fluxo do tempo. A narrativa
da expulsão do Paraíso não é outra
coisa senão um registro da fundação da
agricultura, há 12 mil anos, gravado com o recurso da
metáfora – o que significa dizer que, por meio
da alegoria, neste caso, a Bíblia refere-se a um acontecimento
real.
Lapouge
endossa o esforço de João Paulo II em conciliar
ciência e fé, reproduzindo a idéia de que
a "ciência sem fé resultou no positivismo",
o que é um enorme disparate de um ponto de vista epistemológico.
A
ciência, consciente de suas próprias limitações,
como escreveu Paul Dirac (1902-1984), físico-matemático
inglês, descobridor teórico da antimatéria,
entre outros trabalhos, tem como evidência da verdade
a experiência estética, a beleza da teoria, e não
a camisa-de-força que confina a inteligência.
Um
dos desafios da humanidade neste início de século,
como escreveu Carl Sagan em O mundo assombrado pelos demônios
– A ciência como uma vela no escuro, é assegurar
o desfrute da inteligência, comprometida com uma consciência
cósmica livre de interferências obscurantistas
de fundo religioso fundamentalista, acusação que
a mídia costuma atribuir a desafetos do cristianismo.
Ao
contrário do que ocorre com vigários em Roma,
homens de talento da ciência não têm intimidades
com os céus. Sabem que há um profundo mistério
no Universo, mas não conhecem a essência de sua
natureza. Se alguém sugerir que esse mistério
profundo pode ser chamado de "Deus", um físico
do porte intelectual do Nobel de 1979, Abdus Salam (1926-1996),
certamente não faria restrições.
Num
de seus textos, A unificação das forças
fundamentais, sobre um cenário que teria integrado o
nascimento do Universo, Salam termina com uma citação
poética na qual está dito que...
"...
ainda que todas as árvores da Terra fossem penas/
e o mar fosse tinta,/ E mais sete mares houvesse para
voltar e enchê-lo,/ as palavras do Senhor não
se esgotariam/ Pois o Senhor Tudo Pode e Tudo Sabe". |
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