| Fev/2005
Eng.
Higino Germani*
CREA 686-DF
Já
fazem algumas décadas que ouvimos falar que o futuro
do Rádio AM e FM será a digitalização.
No entanto, esta espera já está por demais longa...
Os
esforços concentram-se no Rádio AM e com razão
: as emissoras de FM proporcionam qualidade de áudio
muito boa e tem disponíveis sub-canais que, em sua grande
maioria, ainda não foram suficientemente explorados.
Desde
as primeiras pesquisas a respeito, sempre ouvimos falar em sistemas
“in band”, ou seja, ocupando o mesmo canal que as
AM’s atuais. Examinemos as características deste
canal :
-
largura de cada canal de apenas 10 KHz : o que podemos esperar
de banda tão estreita e ainda compartilhada com um sinal
analógico ?
- faixa de OM de 535 KHz a 1705 KHz : a relação
entre a freqüência mais baixa e a mais alta é
de cerca de 3 vezes, o que demonstra características
de propagação muito diferentes entre as freqüências
“baixas” e as “altas”; dependência
da condutividade do solo a qual tem valores cada vez menores
em função do aumento da urbanização;
propagação diurna pelo solo e noturna pelo solo
e pela ionosféra o que gera sinais interferentes a longas
distâncias.
-
sistemas de transmissão que exigem áreas de vários
hectares próximas às áreas urbanas, o que
se torna cada vez mais difícil.
-
necessidade de potências cada vez maiores para compensar
a queda de condutividade e nível de ruído elevado
(característico da faixa).
-
necessidade de torres irradiantes altas devido ao grande comprimento
de onda o que conflita cada vez mais com a proteção
dos aeródromos.
Com
estas características, perguntamos : Porque insistir
em sistema “in band” ?
Os
ouvintes não terão que adquirir um novo receptor
para ouvir os sinais digitais ? Como a resposta é obviamente
afirmativa, cremos que boa parte das argumentações
da opção “in band” cai por terra.
Será
verdadeiramente viável que, após um certo período
de transição, o sinal analógico deixará
de ser transmitido, permanecendo apenas o digital ? Ou será
que, para cobrir deficiências da cobertura digital teremos
que manter no ar permanentemente trambolhos de dezenas de quilowatts
com alto consumo de energia elétrica ?
Nos
vemos em situação semelhante ao advento da máquina
a vapor nas embarcações : inicialmente as instalaram
em veleiros com resultados obviamente desastrosos; ou então
com o advento do motor a combustão interna : não
foi projetado um automóvel e sim instalado o motor em
carruagens, no lugar dos cavalos ... Estaríamos agora
colocando turbinas em veleiros ou em carruagens ?!
Não
será possível criarmos uma Nova Radiodifusão
em todos os sentidos e não apenas inserir as técnicas
digitais no Rádio existente ?
Onde
reside a maior dificuldade ? Na faixa de operação
desta Nova Radiodifusão. Em que freqüências
as estações exclusivamente digitais operariam
?
Cremos
que, sem querer, esta nova faixa está surgindo ao natural
:
Com
a criação de mais dois canais de Radio Comunitária
(87,7 e 87,5 MHz) estamos “invadindo” a banda do
canal 6 de TV. Já com o canal “oficial” de
RadCom (88,7 MHz) o conflito com o canal 6 já existia
e agora se tornou maior ainda. É de se prever que o futuro
nos aponta para a extinção do canal 6 de TV.
Com
isto, resulta que teremos uma maravilhosa banda de 6 MHz (de
82 a 88 MHz) e na faixa de VHF (a melhor para a radiodifusão,
quer em termos de comprimento de onda quer em termos de características
de propagação), à disposição
para criarmos uma Nova Radiodifusão.
Podem
fazer idéia de quantos canais exclusivamente digitais
e o que será possível fazer nos mesmos em termos
de qualidade de áudio e informações suplementares
(dados) numa banda de 6 MHz na faixa de 82 a 88 MHz ? É
tudo os que sonham com o Rádio Digital pediram ao Criador
...
Como
operacionalizar isto ?
Ora,
existe um Plano de Canais para TV Digital em elaboração.
Certamente está prevista uma solução para
o canal 6 (no Plano de Geração de TV no Brasil
existem apenas 24 outorgas !).
Estabelecida
a nova canalização de canais digitais (de 82 a
88 MHz) – deixando obviamente uma margem para os canais
de RadCom – e estabelecidas as Normas Técnicas
correspondentes, estes canais seriam objeto de “leilões”,
primeiramente para os atuais radiodifusores que desejarem operar
digitalmente e, posteriormente, para outros interessados.
Parte
do valor arrecadado nestes leilões seria canalizado para
indenizar os custos de migração para outro canal
dos atuais concessionários de TV que operam no canal
6. Com um cronograma bem estabelecido, pode-se fazer com que
esta migração coincida com a implantação
da TV Digital o que evitará prejuízos às
empresas que operam no canal 6.
Os
radiodifusores que operarem digitalmente desativarão
suas estações analógicas quando julgarem
que o mercado de receptores digitais já atingiu a grande
maioria do público. O próprio público será
beneficiado pois terá tempo de sobra para trocar de receptores
(e esgotar a vida útil dos atuais).
Quanto
aos receptores, não cremos que possa haver dificuldade
em seu desenvolvimento e produção uma vez que
a faixa de operação é de tecnologia dominada
e será equipamento exclusivamente digital sem a parte
analógica. Existirá tempo mais que suficiente
para o desenvolvimento deste novo receptor na área industrial
paralelamente à implantação das regras
para o novo serviço de tal forma que não venha
a ocorrer novamente o desastre que foi a implantação
do AM Estéreo quando havia emissoras mas não havia
receptores no mercado...
Um
grande debate a respeito poderia ser levado a efeito pelo Poder
Concedente para se avaliar os prós e contras de cada
opção existente para a efetiva implantação
do RÁDIO DIGITAL de forma segura, viável econômica
e empresarialmente – e não só tecnicamente
– a qual venha a contemplar o público com todos
os recursos e possibilidades que a NOVA RADIODIFUSÃO
nos acena.
*
Higino Germani é engenheiro eletrônico e presta
consultoria para empresas de radiodifusão.
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