Obs:
Embora o texto abaixo não se refira a radiodifusão,
a Sulradio está divulgando o artigo do advogado Antonio
Luís Guimarães de Álvares Otero, publicado
no site do Espaço Vital, por tratar-se de um assunto
de extrema relevância e que deve ser difundido ao máximo.
Informação:
Extraído
de www.espacovital.com.br
(Artigos
- 20.12.2004)
Por
Antonio Luís Guimarães de Álvares Otero,
advogado
em São Paulo
O
MP paulista propôs ação de improbidade administrativa,
em 15/12/2004, pedindo a cassação da prefeita
Marta Suplicy, pela falta de pagamento de precatórios
judiciais. Mais uma vez o MPE/SP tomou a iniciativa de recompor
a moralidade no Município de São Paulo, desta
vez contra o abuso praticado pelo Governo Municipal na questão
dos precatórios.
É
evidente que não se pode admitir que um Governo gaste
uma fortuna em propaganda e não pague suas dívidas
elementares. Frise-se que a mesma situação também
ocorre com o Estado de São Paulo, ou melhor, com diversos
outros Estados e Municípios.
Digno
de nota, portanto, não é a pessoa ou partido político
do réu, contra quem foi movida a ação de
improbidade pelo MP, já que poderia ser qualquer outro,
mas a forma como se deu a temida ação, a partir
de representação feita pelo Movimento dos Advogados
de Defesa dos Credores Alimentares do Poder Público,
que não mais suportou se curvar aos discursos e promessas
do Poder Executivo e, finalmente, resolveu agir com criatividade
e firmeza, denunciando ao MP o ato ímprobo e enfrentando
o arbítrio, sem medo de ser feliz.
Cabe
dizer que o corajoso exemplo da associação deveria
ser seguido não somente no caso dos precatórios,
ou apenas por outras agremiações similares, mas
por todo o restante da sociedade, tanto por seus sindicatos,
quanto por suas empresas e principalmente, pelos cidadãos,
que ainda acreditam nas promessas de nossos governantes.
Aliás,
o exemplo da associação é uma verdadeira
inspiração para todos aqueles que costumam, comodamente,
esperar pela compreensão dos políticos, somente
para que tenham atendidos os seus casos privados. O Brasil progrediria
em muito, se nossa sociedade compreendesse que não haverá,
jamais, o respeito ou o pleno cumprimento das normas civis de
caráter privado, quer pelos Governos, quer pelos poderosos
detentores do capital, tais como os Bancos, enquanto não
for regra absoluta a imposição do seu cumprimento
das regras de direito público.
Para
que isto ocorra, é imprescindível que a sociedade
não aceite simplesmente o assistencialismo, o discurso
ou o marketing dos agentes políticos ou econômicos,
mas que exerça plenamente sua cidadania, apostando não
em seus casos privados, que inundam o Judiciário, mas
sim em seus direitos fundamentais, coletivos e difusos, que
devem ser respeitados ipsis litteris.
Exemplos
não faltam, já que o desrespeito ao cidadão
e às empresas nacionais é ostensivo e grassa em
todos os setores, sob as mais diversas justificativas econômicas,
que têm o condão, no Brasil atual, de transformar
qualquer paradoxo em um dogma. Das abusivas taxas e impostos
aos absurdos “spreads” bancários, fundamentados
apenas pelo etéreo, das decisões judiciais - que
são álibis à não-ruína do
caro e ineficiente poder executivo - aos contratos de adesão
“engoelados” coletivamente, ninguém reclama
! A não ser, em caráter privado, sem qualquer
eficácia para a mudança das condutas abusivas
das classes políticas e econômicas irresponsáveis,
que continuam a se locupletar da desgraça popular.
Vide
o Procon, que há muitos anos, sem reflexos difusos eficazes,
vem apenas limpando as mesas de grandes corporações,
já que muitas destas não respeitam, de forma ostensiva,
difusa e coletiva, os direitos civis e consumeristas individuais.
Vide os atos de Governo, que não guardam qualquer consonância
com a vontade e capacidade da população e até
a direção de nossos Tribunais Superiores, que
intentam inutilmente, de todas as formas, diminuir o número
de litígios, apenas a partir dos efeitos, jamais considerando
suas causas.
Será
que ninguém entende que o apelo privado é apenas
o eco de um “grito de socorro” do direito difuso
e coletivo? E que o respeito a estes é a base de uma
Sociedade Democrática justa e soberana? E que a Sociedade
não precisará gastar consigo, em casos privados,
caso faça o Estado respeitar a coletividade ?
Pois
bem. E como poderá se dar tal respeito?
Exatamente
como ocorreu com a atitude exemplar do Movimento dos Advogados
de Defesa dos Credores Alimentares do Poder Público,
que tentou por longos anos acreditar no valor das sentenças
judiciais e que, num belo dia despertou, procurando dar ao Governante,
em caráter individual, o resultado do que tem dado a
seus credores, que, ainda que morram numa fila, poderão
antes carregar um caixão, cujo cadáver é
o destino do egoísta político ímprobo.
Com
a justiça de Talião, ousou a associação
cidadã e exerceu seus direitos políticos. Enfrentou
o sistema com instrumentos que estão a disposição
de todos.
Talvez,
doravante, as autoridades que somente se preocupam com o povo
no dia da eleição e as que não têm
civismo e coragem para fazer cessar, em esfera coletiva e difusa,
as práticas abusivas e coletivas do poder dominante,
por com estes compartilhar festas e jantares, pensem duas vezes
antes de tratar a população como se fosse idiota.
Basta de hipocrisia. É hora de agir!
(*)
E.mail: alvaresotero@uol.com.br
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